Por Laís Duarte
Almanaque Brasil – Armazém da Memória Nacional
Ela nasceu nos idos dos anos 1930, na comunidade húngara da Vila Anastácio, em São Paulo. Os pais vieram da Europa em 1925, buscando nos trópicos dias sem guerras e com trabalho. Criada sob a rígida batuta da mãe, Rosa Husak cresceu menina prendada. Cedo descobriu que nascera para amar.
Aos 14 anos caiu de amores por José. A paixão mal brotou e foi podada pela raiz. “Minha mãe não aceitou o namoro porque ele não tinha dinheiro para ficarmos juntos”, relembra Rosa. José prometeu voltar com fortuna no bolso quando a amada completasse 18 anos. Rosa sonhou dias a fio. Guardou o amor no peito e seguiu a vida ao desejo da enérgica mãe. Aos 17, fugiu. Casou-se às escondidas com André, na tentativa desesperada de conseguir liberdade.
O enlace durou apenas três meses. O casal foi descoberto pela mãe, que obrigou Rosa a voltar para casa e esperar melhor partido. Antes de o novo pretendente aparecer, José voltou à procura da prometida. Com o coração despedaçado, a moça correu para se esconder. “Senti vergonha. Ele cumpriu a parte dele e veio me buscar. E eu não esperei por ele”, lamenta.
Aos 20 anos, Rosa aceitou o pedido de Santo, soldador com o dobro de sua idade. Era a saída para se desvencilhar da barra da saia da mãe. Juntos, construíram uma história e uma família com três crianças. Santo faleceu 17 anos depois. Deixou Rosa com os filhos para sustentar e uma dívida sem fim. Ela era mãe e pai ao mesmo tempo. Trabalhava de sol a sol na fábrica de rendas. Ali perto conheceu Luiz Carpi. Convicta de que todo dia é um novo começo, permitiu-se namorar. Não demorou para Luiz estreitar os laços e pedi-la em casamento para os filhos. Bênção concedida, 33 anos de união.
Rosa amou o marido, mas amava mais a si mesma. Aos 70 anos, incomodada com as confusões do companheiro, expulsou-o de casa. Com os filhos criados, dedicou-se à assistência social. Ajudou pessoas doentes, carentes do carinho que ela sempre teve de sobra para compartilhar.
Uma tarde, na sala de espera de um hospital, Rosa encontrou Somar. E, nos olhos dele, o amor que queria para si mesma. “Senti um tremelique, um relâmpago”, revela. Somar era uruguaio, um mágico que correu mundo encantando o público. Encantou Rosa. Por três anos, viveram uma paixão de cinema. Ela, aos 73. Ele, aos 85. Foram felizes até o dia em que o coração de Somar se cansou de bater. Um pedaço de Rosa partiu com ele.
Para ocupar corpo e alma, ela concentrou-se no trabalho voluntário e em atividades recreativas em Campo Limpo Paulista, interior de São Paulo. Esbarrou em outro Luis. De conversa em conversa, o “caboclo” prometeu conquistá-la. “E conquistou”, admite. Aos 83 anos, de marido novo, dona Rosa agarra a felicidade com unhas e dentes. Renova sonhos a cada minuto. Ela sempre soube que nasceu para amar e vai morrer amando.
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