Nessa década, o Vasco virou o time do quase. E esse é o pior sentimento que pode viver um torcedor. Sim, porque derrotas sucessivas podem causar um certo conformismo, uma negação do sentimento ou ainda reacender o furor da paixão, como se viu em grandes torcidas do futebol brasileiro que passaram por rebaixamentos recentes. O quase não. O quase é o sentimento da pessoa traída reiteradamente. Ela acredita que foi um deslize, mas que as coisas vão mudar. O objeto amado reconstrói a ilusão que outrora destruíra, para, na hora H, trazer de volta mais uma decepção.
Quase campeão do mundo, quase tricampeão carioca, quase campeão da Copa do Brasil, quase vaga na Libertadores – com uma bola que quase entrou no último jogo, onde o time quase se classificou –, quase elimina o Gama e agora, por fim, quase 1000 gols. Nada no Vasco é pela metade. É quase. Se cinco vão para a Libertadores, o time não fica em nono lugar no Brasileiro. Fica em sexto. Em 2006, na Copa do Brasil, não perdeu nas quartas-de-final. Preferiu ir até a final contra, vejam vocês, o Flamengo (!!!!) e perder para o maior rival, numa quase vingança pelos quase sucessos estaduais nos anos anteriores.
A última novela que o vascaíno vive é a do quase 1000 gols. O Romário poderia ter chegado a 996 gols. Ou poderia ter feito o 999 no último jogo do campeonato. Mas não. O destino prefere que o torcedor do Vasco fique na apreensão por quatro jogos, dando a ele quatro noites de quase gol 1000. Quatro noites em que ele saiu de casa para ir ao Maracanã, pagou por quatro ingressos, enfrentou quatro filas de constrangedora revista da polícia. Sempre renovando suas esperanças. Quatro frustrações.
Por isso, com o coração traído na ponta dos dedos, digito essas linhas, nessa década o Vasco virou o time do quase. O que morre na praia. O que é quase feliz. A morte da ilusão é uma das maiores dores que o ser humano pode ter. O destino tirou a nós, vascaínos, para bobos. E é quase uma coincidência que o triunfo glorioso do "Quase" em São Januário coincida perfeitamente com o comando de um sujeito que quase se reelegeu deputado por duas vezes nesse mesmo período e que quase toda a torcida gostaria de ver longe, bem longe... Talvez esse dia esteja quase chegando...
trilha sonora quase sugerida: "Quase" - Pato Fu
quase acreditei no seu artigo bruno. meu coração vascaíno não deixou. uma pena do pat f(l)u quase me fez espirrar. o eurico quase fez fezes. aliás só merda. dinamite nele.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 14/4/2007 12:30
Faltou esclarecer que o quase gol mil é meio mal explicado, né? Aliás, o momento no Brasil é engraçado: o IBGE diz que refez as contas e que o crescimento do Brasil foi legal, sim, a Fifa refaz as contas e diz que o Palmeiras é campeão do mundo, sim, e o Romário diz que é ele que faz as contas e rola um gol mil, sim. Quer dizer, vale quase tudo, né?
Quem podia, agora, quase ficar no Fluminense era a dupla Joel-Fabinho. Mas isso é um texto choradeira pra outra hora...
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