No decorrer da faculdade de Jornalismo, estudamos os aspectos que “elevam†um acontecimento ao nÃvel de “notÃciaâ€. A relevância do fato circula em torno de vários pontos, amplamente teorizados por diversos pesquisadores da área. Importância para comunidade, proximidade da notÃcia em relação ao público a ser atingido, fatores polêmicos etc. Entre tais critérios, a decisão das empresas da mÃdia em divulgar ou não tal acontecimento pode estar ligada a fatores polÃticos, jogos de interesse. David Manning White, em 1950, publicou a teoria do gatekeeper. White tentou demonstrar que o jornalista optava pela publicação de determinadas notÃcias embasado em questões meramente pessoais. Depois de entrevistar diversos editores de jornais, White concluiu que não havia critérios desenhados para a determinação do que estamparia as folhas de jornal na manhã seguinte. Ao longo do tempo essa teoria foi questionada. O poder de garantir o que era ou não notÃcia não estaria totalmente nas mãos dos jornalistas, mas sim com as vontades das empresas para as quais eles trabalham. Essa ficou conhecida como teoria organizacional e se encaixa muito bem quando lembramos do papel das assessorias de imprensas no cenário do jornalismo atual.
Independente da opinião pessoal do jornalista, a obrigação do assessor de imprensa será garantir que seu cliente tenha sempre uma boa imagem, ou ao menos que ela permaneça a mais positiva possÃvel. Para isso, à s vezes se torna necessário “modificar um pouco†a narração dos fatos. Eufemismos são os maiores aliados dos jornalistas nesses momentos. Tal modalidade de jornalismo, se é que assim pode ser considerado, contribui para que as informações verdadeiras não cheguem aos mais interessados.
Os acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul têm condições de comprovar os malefÃcios jornalÃsticos causados pelas assessorias. Diante de uma manifestação que dura mais de duas semanas, nada foi publicado a respeito da ocupação da reitoria. Para comprometer ainda mais a situação, o site da instituição busca responder as denúncias do movimento estudantil, no “melhor†estilo assessoria de imprensa, e destaca profissionais para fotografar e filmar as atividades dos ocupantes. Durante a primeira assembléia universitária, promovida pelos estudantes que ocupam a reitoria, o acadêmico Ãtalo Milhomem se dirigiu a um cinegrafista da UFMS e solicitou que ele deixasse o evento, afirmou, “a assessoria de comunicação da UFMS filma e fotografa os alunos para depois entrar com processos, para perseguir os estudantesâ€. Sob vaias, o cinegrafista se afastou da multidão, mas depois passou a registrar imagens de dentro do prédio da reitoria, num local onde somente os funcionários têm acesso. Na manhã seguinte, uma fotógrafa da assessoria estava na ocupação. Quando questionada, alegou que as fotos iriam para um projeto social, mas não soube dar mais detalhes.
A utilização das imagens para fins contra os acadêmicos se consolidou quando, numa noite da segunda semana de ocupação, alguns dos seguranças alertaram os acadêmicos sobre a existência de vÃdeos que foram feitos. Em tom de chantagem, os seguranças ameaçaram acadêmicos que se recusavam a remover suas barracas de perto da entrada lateral da reitoria, local que oferece acesso ao segundo piso do prédio, ainda em funcionamento.
Em outro protesto realizado pelos estudantes, a assessoria da universidade testou uma nova tática. Em vez de enviar jornalistas e fotógrafos, já reconhecidos em ocasiões anteriores, preferiram convocar menores aprendizes, conhecidos na cidade como “mirinsâ€, para fotografar todas as atividades dos manifestantes. Uma garota, aparentando pouca idade, acompanhou a caminhada dos acadêmicos pelos corredores, sempre com uma câmera em mãos. Após ser abordada por um dos acadêmicos, a garota declarou, “fui ordenada a tirar as fotos porque um senhor [chefe da assessoria de imprensa] não queria sair atrás de vocêsâ€. Ela afirmou que desconhece os propósitos das mobilizações e estava apenas seguindo orientações.
Sites de notÃcias e jornais sem contato direto com a organização do movimento estudantil procuraram a assessoria da instituição para obter informações. As declarações foram sempre omissas e repletas de números incorretos, contradizendo completamente os informes divulgados pela comissão de comunicação da ocupação.
As fronteiras que delimitam o “dar visibilidade a notÃcias†do “publicar mentiras†são claras. Lamento pelos profissionais que se submetem a esse tipo de serviço. A justificativa clichê do “preciso ganhar dinheiro pra sobreviver†me causa repulsa. Você se sentiria bem sendo pago para mentir?
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