O Velho Dilema dos Economistas - J R Moreira Melo

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wesleycvbra · Belo Horizonte, MG
28/10/2015 · 0 · 0
 

Diz um amigo metido a cronista dos acontecimentos políticos que a economia brasileira nunca conseguiu desvencilhar-se de uma velha briga em torno de sua condução. Para ele, desde os governos militares, iniciados na década de sessenta, vivemos um dilema que nunca foi inteiramente resolvido, uma verdadeira guerra, que reúne os chamados coxinhas, de um lado, e as chamadas viúvas de Stálin, do outro.



Cada um desses grupos tem a melhor sugestão e a melhor forma de se conduzir a economia brasileira de um modo a resolver em definitivo os nossos problemas estruturais. Obviamente, nenhum deles logrou, até hoje, alcançar o seu objetivo.

O decano dos coxinhas parece ter sido o falecido senador Roberto Campos, sujeito de uma cultura ímpar e estudante aplicado de economia, além de político, diplomata e embaixador. Em sua biografia é importante salientar a sua presença na prestigiadíssima reunião de Bretton Woods, realizada logo após a segunda guerra mundial, na qual foram criados, dentre outros organismos, o FMI, o BIRD e o Banco Mundial, e lançadas as futuras bases econômicas do mundo capitalista.

Na reunião, a figura mais proeminente era, nada mais nada menos, que o economista inglês John Maynard Keynes, papa inconteste e idealizador de toda a economia ocidental moderna, além de autor daquele que é considerado por muitos o livro mais importante de todo o século vinte, uma obra que fala de emprego, moeda e crédito.

Ressalve-se, para todos os efeitos, que os coxinhas são um grupo de economistas formados, em sua grande maioria, nas universidades dos Estados Unidos, defensores da economia liberal e do livre mercado. Costumam dar aulas e conferências nas Universidades de Harvard, Princeton e Colúmbia, esta última em Nova Iorque, cidade em que costumam se reunir para falar da economia brasileira e dar os últimos retoques nas suas sugestões e críticas, geralmente dirigidas aos governos da América Latina.

Não obstante terem obtido inegáveis conquistas como o Plano Real e a modernização do próprio Governo (foram eles que criaram a Receita Federal, o Banco Central e a própria Justiça Federal, além do mercado de capitais), os coxinhas nunca conseguiram debelar o fenômeno da concentração de renda que assola o nosso País e nos torna o modelo mundial da injustiça social.

Aliás, uma das muitas críticas que se fazem a eles é que são elitistas, uma vez que provenientes, em sua maioria, das classes mais abastadas. Você dificilmente vai ver um coxinha andando pelo Vale do Jequitinhonha ou do Cariri. Ao contrário, podem ser vistos em Ipanema ou Leblon, além da Oscar Freire, da Avenida Paulista e dos Jardins, em São Paulo.

Já as viúvas de Stálin, recrutadas dentre os antigos marxistas, esquerdistas e comunistas de plantão, parecem ter como patrono e decano o falecido economista Celso Furtado, professor da antiga CEPAL, que tinha, grosso modo, como ideário, uma economia planejada, com a presença forte do Estado.

Com o passar do tempo, os dois times ocuparam lugares antagônicos no nosso cenário político e partiram para uma discussão interminável a respeito do melhor modelo econômico a ser adotado no Brasil, discussão esta que ainda hoje permanece acesa. A despeito de pequenas variações de ambos os lados, os grupos continuam firmes em suas convicções, culminando com o atual cenário brasileiro em que temos, de um lado, um governo de esquerda, assessorado por um economista visivelmente coxinha.

A inédita situação, como não podia deixar de ser, serve apenas para avivar e acirrar ainda mais a rivalidade existente entre os grupos.

Enquanto isso, como no poema de Drumond, a nossa elite encastelada nos grandes aglomerados financeiros vai tirando ouro do nariz.

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