"A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem." (Karl Marx)
O CRP-MG - Conselho Regional de Psicologia reiniciou sua atividade "Diálogos no Conselho", com a solenidade de dedicação de seu auditório para 60 pessoas, ao primeiro presidente da entidade, Prof. Ruy Flores Lopes, já falecido, ex-sacerdote da Igreja Católica e atuante no ensino da profissão na PUC-MG, tendo também realizado programa de TV sobre o tema.
Foram ressaltados aspectos notáveis da vida do homenageado, por parte de sua viúva, Sônia Flores, de sua filha, SÃlvia Flores, do atual presidente, Rogério de Oliveira Silva, e outros presentes. Fotos e objetos pessoais do Prof. Ruy preencheram o saguão de entrada do CRP. Espera-se que, em breve, sejamos contemplados com gravações em vÃdeo, cuja existência foi confirmada pela D. Sônia.
Dia 11/03/2008, o tema foi "Olhar e Escuta: Reflexões sobre a Mulher e o Feminino", com lançamento do livro "Rádio Favela Escuta a Mulher", de autoria de Marisa Sanabria, psicóloga, pesquisadora do feminino e ex-apresentadora de um programa na Rádio Favela, cuja renda será destinada a uma casa de proteção da mulher vÃtima de maus tratos.
O debate foi mediado pela conselheira do CRP, Maria Mercedes Merry Brito, tendo como demais convidadas para a mesa de palestrantes Vera Casanova, profa. da Faculdade de Letras da UFMG; e Eliana Piola, Superintendente de PolÃticas de Apoio e Assistência à Mulher da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de MG.
Ali, fiz algumas reflexões, as quais apresento a seguir. Antes, porém, sugiro aos que dispuserem de interesse e tempo, a visita ao endereço onde podem tomar conhecimento de dois artigos intitulados "Lula versus Mulherada" e "Mulher, a Maioria que Satisfaz", de minha autoria, publicados anos atrás, cuja percepção atual teve ali o inÃcio de seu processo.
Muito relevante a comparação compartilhada entre as palestrantes sobre o sentido de certos conceitos, tal como entre "homem público" e "mulher pública". O primeiro é aplicado generosamente aos polÃticos, sem qualquer aspecto crÃtico. O segundo aponta para uma profissional do sexo, que se entrega a qualquer um que lhe pague para servir-se de seu corpo, hoje uma profissão oficialmente regulamentada pelo governo FHC, ainda que seja exteriormente tão condenada quanto discretamente utilizada. O ex-governador do estado de Nova Iorque que o diga!... Pouco importa se a grande maioria dos polÃticos é corrupta e a verdadeira prostituta do patrimônio público!
Foi gratificante identificar-me com a defesa de Eliana Piola: "É necessário que a mulher revise seus conceitos." Dentro de um enfoque polÃtico e social, mais genérico, publiquei "Sem Conceituação, não há Revolução".
Fiquei imaginando, como já se torna tradicional da minha parte, questionar a razão pela qual, após dizer tudo sobre a opressão do homem sobre a mulher, dos ricos sobre os pobres, do capitalista sobre o trabalhador, dos brancos sobre os negros, dos hetero sobre os homossexuais, do Estado sobre a Sociedade, etc., jamais se ousa dizer, com todas as letras, cores, tamanhos, ênfases e freqüência necessária: ditadura do homem sobre a mulher, dos ricos sobre os pobres, do capitalista sobre o trabalhador, dos brancos sobre os negros, dos hetero sobre os homossexuais, do Estado sobre a Sociedade, etc.!!!
Fui o último a me manifestar, da parte dos ouvintes. Quase não suportava o incomensurável peso, a vergonha e a tristeza pelos milênios de escravidão, opressão, exploração, rapto, violência, tortura e a assassinato promovido contra as mulheres, pelos homens que me sucederam na História, quando grande parte dos atuais ainda pratica tais abominações, na atualidade, de forma mais sutil ou grosseira. E, o pior: minha própria dificuldade de ir na contra-mão da cultura machista vigente e saber-me capaz de, na menor distração, também cometer contradições entre o comportamento ideal e o real.
Em função da citação da Creta Minóica, onde predominavam os valores do feminino, o horror à tirania e o respeito à lei, voltei a insistir na tese já defendida em um de meus textos citados, não sei se uma idéia original... O homem é destrutivo por natureza, guerreiro, caçador, garanhão, imediatista, materialista, etc., trazendo a humanidade à beira de seu extermÃnio e da natureza que a sustenta. Trata-se de um contraste com o fato da mulher se interessar mais pela manutenção da famÃlia, pelo cuidado com a prole, com o planejamento de longo prazo, etc. (Claro que há exceções de ambas as partes!...)
"A liberdade da mulher é condição fundamental para a libertação de toda a humanidade." (Karl Marx)
Assim, deduzo: Karl Marx nos permite concluir, que, sem a mulher no poder, jamais teremos a possibilidade de reverter o quadro de suicÃdio coletivo e aniquilamento de nossa espécie e de inúmeras outras, caso ainda seja factÃvel. Não acredito que, como parece-me que a mesa entendeu, o homem seja capaz de incorporar o feminino ao poder que exerce, como regra geral, mas apenas como exceção. Ninguém é capaz de sentir plenamente a dor do outro!
Lembrei-me de um palestrante no Fórum Social Mundial de 2005 (FSM), em Porto Alegre, que salientava aspectos sem os quais não ocorre uma democracia de fato, mas apenas uma democracia de direito. Alguns deles era que a representatividade da mulher na polÃtica deveria ser proporcional a sua participação numérica na sociedade e sua renda deveria permitir uma vida digna, como ocorre na Dinamarca, Finlândia, Noruega, por exemplo.
Obtive, como comentário, a informação da parte de Eliana Piola, de que é possÃvel ocorrer a independência intelectual da mulher, sem contrapartida financeira e de que seu acesso ao poder econômico, nem sempre significa tal libertação.
Concordando com a observação, julguei que não seria cortês prolongar ainda mais o tempo do evento, preferi omitir meu argumento de que esta verdade consiste em uma exceção, e, portanto uma meia-verdade (estimo menos que um décimo da verdade), acreditando que a regra geral (algo em torno de 90 % da verdade) ainda me permitiria continuar defendendo a tese apresentada no FSM.
"Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade. Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que queremos."
(Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels)
"A emancipação da mulher e sua equiparação ao homem são e continuarão sendo impossÃveis, enquanto ela permanecer excluÃda do trabalho produtivo social e confinada ao trabalho doméstico, que é um trabalho privado. A emancipação da mulher só se torna possÃvel quando ela pode participar em grande escala, em escala social, da produção, e quando o trabalho doméstico lhe toma apenas um tempo insignificante." (Engels, 1974:182).
[ Tempo insignificante? Pergunto eu! Só se tiver empregados... ]
A própria formação da mesa do evento era uma demonstração da dificuldade de se encontrar uma mulher pobre ou miserável, desempregada ou que ganhasse salário mÃnimo, para apresentar ali sua experiência e independência intelectual, sendo todas as palestrantes mesoclassistas.
A tendência geral é de que a miséria material proporcione à grande maioria de quem dela padece, a miséria intelectual e a subserviência aos valores alienados de nossa sociedade machista, egoÃsta, consumista, capitalista, pseudocristã e suicida.
Se os que se dizem cristãos, que são a grande maioria dos brasileiros (o maior paÃs católico do mundo, com elevado crescimento evangélico) e estadunidenses (o maior paÃs protestante e fortemente católico também), levassem a sério o que afirmam seguir, voltarÃamos a viver no suposto Jardim do Éden, descrito no inÃcio do livro de Gênesis. Aqui, também, como toda regra, há exceções...
"Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:39).
"Tudo quanto, pois, quereis que os homens [eu: e mulheres] vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas." (Mateus 7:12)
"Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão [eu: ou a sua irmã, mulher em geral], é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê." (1 João 4:20)
"E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuÃa era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. (...) Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuÃam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha." (Atos 4:32 a 36)
"Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa, a si mesmo se ama." (Efésios 5:28)
Somos obrigados a concordar com Karl Marx, que, diante de tamanha hipocrisia e farisaÃsmo histórico, com uma fração Ãnfima dos católicos e protestantes levando a sério tais orientações, realmente "a religião é o ópio do povo"!
E concordaremos também com este outro judeu que o antecedeu, prevendo a rara e santa exceção que não se torna dependente do consumo desta droga milenar:
"Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela." (Mateus 7:13)
"Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos." (Mateus 22:14)
O "Diálogos no Conselho" da última terça-feira, dia 18, trouxe um debate sobre a realidade do álcool e outras drogas dentro do contexto mineiro.
Excelente texto Heitor. Parabéns.!!!
Tive a petulância e a ousadia de copiá-lo e remetê-lo para as mulheres de minha lista de endereços e para dois grupos de discussão na net dos quais faço parte.
Penso que o que é ótimo e esclarecedor deva ser compartilhado.
Fraternalmente,
Vilemar Costa .'.
HTTP://VIAPOESE.BLOGSPOT.COM
http://www.overmundo.com.br/perfis/vilemarfc
HTTP://SACODETEXTOS.BLOGSPOT.COM
Caro Vilemar
Meus pais são cearenses de Limoeiro do Norte. Geralmente coloco em meus textos que são sem direitos autorais, com esquerdos autorais ou "Copyleft", mas me esqueci neste... Use e abuse!
Abraços
Heitor
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