Tudo misturado de uma forma linda e cruel, torpe, um jeito brasileirÃssimo, marcado de beleza e dor. Foi assim que eu vi o Carnaval de Salvador.
Sou do interior da Bahia (Madre de Deus), de uma cidade regada a festas e carnaval. Este ano posei de foliã de primeira viagem no carnaval de Salvador, assunto esse que acabou rendendo muitas observações.
Confesso que o Carnaval de Salvador conseguiu me deixar impactada e me modificar de alguma forma. A exuberância e glamour de artistas baianos como Ivete Sangalo e Durval Lelys, a euforia e o calor dos fãs do Chiclete com Banana arrastando-se hipnotizados atrás de um trio elétrico animal (o famoso trio de nome Camaleão), a emoção e o sorriso de turistas brasileiros e estrangeiros ao participar da festa, a agonia, o suor, a energia intensa dos que estavam dentro dos blocos e também dos que posaram de "pipoqueiros", "aceitando" brincar o carnaval fora das cordas, dos carÃssimos camarotes, da segurança, enfim, todo este cenário carnavalesco foi passando e aos poucos se impregnando em cada parte de mim.
Estávamos num grupo de seis pessoas. Eu e meu namorado, meu irmão e cunhada e mais duas amigas-irmãs. O trajeto foi, como sempre, bem cansativo. SaÃmos de Madre de Deus* no buzu* de onze horas, encontramos minha amiga, Poliana, na rodoviária de Salvador ao meio-dia, e antes das duas nós já estávamos na barra, confesso que bem perdidos.
Todo mundo conhece a rua, todo mundo conhece a Barra, mas, de que lado o bloco sai? De que lado vem o trio? Enfim, como "quem tem boca vai a Roma" saÃmos andando entre milhões de cambistas grosseiros e desesperados em busca de uma referência, o farol.
Toda agonia de cambistas, pessoas, vendedores e foliões lotou as ruas e me causou uma estranha agonia, uma quase saudadezinha da maresia da minha orla. Com mais umas informações conseguidas no tradicional modo “cara-de-pauâ€, tÃpico de nosso povo baiano, nós conseguimos chegar no ponto certo. A orla.
Primeiro lá vem o Tomate, arrastando tudo. Uma multidão atrás bebendo, dançando, pulando e cantando. Eu já estava empolgada. Depois lá vem o Asa de águia com Durval exibindo a sua guitarra elétrica, fazendo um som lindo e causando um frenesi geral. Estava maravilhada com todo axé* que circulava no ar.
E assim segue a festa. Via circular passou e outras bandinhas passaram. Todo mundo no aguardo. "Lá vem a cavala aê", gritou um carinha meio aos tropeços e todo mundo riu. Era verdade, lá vinha ela. A Deusa, a diva, a Beyoncé brasileira, como se auto-denominou, Ivete Sangalo.
Homenageando a natureza, vestida de Cavalo, descendo até o chão, soltando beijinhos e acenos, fazendo as velhas brincadeiras de sempre com o povo, agradecendo a zilhões de patrocinadores e aliados e sendo comida pelo lobo mau. É, porque a musa do Axé Music cantava sem parar um dos hits de pagode mais quentes deste verão. "Chapeuzinho aonde você vai? Diz aà menina que eu vou atrás. Vou te comer, vou te comer". Ela cantava e dançava e encenava uma chapeuzinho que alternava entre pervertida e inocente, enquanto os foliões iam ao delÃrio. Todos cantavam e iam ao delÃrio. E eu também, é claro.
O Domingo de Carnaval foi marcante. Teve Chicletão com Banana, muita festa, muito beijo na boca, aliás, vi, na verdade, muito mais que beijo na boca. Sexo nos corredores, nas ruas, nos becos, enfim, sexo à brasileira, à vontade. Eu vi muita coisa, porém, o Carnaval lindo, perfeito como me disseram eu não vi. Juro, que ainda assim consegui me divertir bastante.
O bloco que saÃmos, o Alô Inter, foi puxado pela banda Voa Dois e o percurso foi bem interessante. Tenho a certeza, por exemplo, que os cordeiros se divertiram bem mais que nós, e as cordeiras, que se agarravam, bebiam e dançavam até o chão agarradas com seus companheiros do outro lado da corda então, nem se fala. Teve um momento que eu duvidei se estávamos no bloco certo, aquele que começou com todo mundo de amarelinho, arrumado, agora exibia uma variedade de cores de abadás incrÃveis, gente de vermelho, azul, sem camisa, todo mundo no meio da folia, dentro da corda, participando do bloco como todos nós que tÃnhamos comprado o abadá.
Antes da metade do circuito já tinha presenciado umas cinco cenas de violência, na maioria delas, seguranças e policiais concorriam vagas para bater em meninos e homens, todos, vale lembrar, eram negros. Batiam no meio do povo, dentro ou fora do bloco, sabe lá Deus porque motivo. Vi também muitas crianças catadoras de latinhas de alumÃnio, transitar descalças, mal vestidas e com um sorriso incompreensÃvel no rosto. Confesso que não compreendi aquela felicidade.
Ir ao banheiro, então, nem gosto de recordar. Era uma tormenta, o tumulto, as filas quilométricas e a insegurança resumem na palavra precariedade.
Vi muita coisa neste Carnaval de Salvador. Para mim, foi um momento incrÃvel, emocionante, mas acima de tudo, foi uma experiência triste. Infelizmente, poucas foram as felicidades que consegui enxergar sobre toda a tristeza e a miséria que reinava. Agora aos meus olhos o Carnaval de Salvador é a festa que maximiza as diferenças sociais, é o retrato mais perfeito e completo da desigualdade, da pobreza e da segregação em que vivemos. Pior, é o retrato da nossa ignorância.
É o desenho realista de um povo que aceita cantar e festejar as crianças descalças que caminham por entre a multidão em busca de latinhas para vender; É a celebração da infância perdida.
Também é o desenho de um povo que comemora a humilhação, a violência e o preconceito daqueles "pobres pretos" que apanham o circuito inteiro, sem explicações; É a celebração da discriminação;
É a festa sÃmbolo da hipocrisia, de uma felicidade instântanea, mas válida, que inspira a todos a dançar o "Rebolation" e esquecer as dÃvidas imensas, o trabalho, o cansaço, a vida de assalariado.
Falar do transporte, não desta vez. Para não me tomarem como negativista demais. Da alimentação, também não. Dos empurrões, melhor não. Da falta de educação, da bebedeira, dos assaltos, não desta vez.
O fato é que saà do circuito às avessas. Atordoada, estressada, irritada, cansada, mas no fundo um pouco feliz também. Afinal, eu precisava viver aquilo tudo, precisava sentir, participar de uma das festas mais importantes e desejadas do Brasil e do mundo, precisava estar lá, no meio da muvuca*, para descobrir que eu vivo muito melhor sem contar com ela no meu calendário, para descobrir o quanto eu sou feliz com o meu carnaval de interior, com minhas caretas, com a praça, com a segurança, com os meus blocos e xarangas, com a minha folia, pequena, mas do tamanho certo para fazer a minha felicidade.
É. Na verdade, deve ser isso. O carnaval de Salvador é muito grande e a sua grandeza não cabe em mim, mas, talvez a outros, talvez a você que esteja lendo este texto. De qualquer forma, valeu, foi bom. Mas agora ADEUS. Participar de novo? "Nem a pau, Juvenal".
Raiara Azevedo
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