Quem me conhece sabe como estou/sou apaixonada pelos meus guris (sobrinhos e afilhado). O Davi fará dois meses, já, dia 13 de novembro. E a Clara, dia 15 de fevereiro de 2008 - 3 aninhos. O Matheus, meu afilhado vai fazer 6 anos em junho de 2008. Estou boba como as crianças de hoje são extremamente inteligentes e desenvolvidas. Na semana passada, minha irmã Érika foi visitar o Davi, é evidente como os adultos corujas se comportam na frente do bebê, parece perder a consciência quando forjam seus ruídos se abestaiando nas brincadeiras sonoplastas para chamar atenção do pequeno, como a Érika fez: nhéééé, eguuuum, fala com a titia, ei Daaavi – colocando a língua pra fora distraindo sua atenção. Tempos atrás, se disséssemos que um neném de um mês correspondeu às brincadeiras, respondendo com a lingüinha e tentando resmungar os eguns, seria reprovável. Até hoje podemos não acreditar, uma vez que os bebezinhos de um mês ainda não enxergam direito e manifestam-se apenas ao instinto de sua natureza (se resume em mamar e dormir). Aí que tá, o Davi correspondeu aos chamados da Titia, colocou a língua pra fora fazendo nhéééé e egum, não é que resmungou?! Na outra semana que passou estive com a Clara em Paraty, ela mora lá desde que nasceu convivendo com uma diversidade de gente de todo o mundo, sua mãe e avó são alemãs, o pai (meu irmão) é ítalo-brasileiro, ambos conversam sua língua de origem (alemão e italiano), além do português. E ela entende algumas coisinhas das duas línguas e fala tudo em português. Não me lembro no meu tempo de criança ver uma de 3 anos ser como as de hoje (e olha que não faz tanto tempo assim, rs). Estávamos caminhando no centro histórico de Paraty com a Clara, quando ela avistou um coleguinha da escola e disparou a gritar seu nome. Foi inevitável deixar os dois lado a lado para cumprimentar como bons colegas de turma, tempo suficiente que distraímos e logo estavam os dois, caminhando de mãos dadas, indo parar na frente de um músico que cantava canções do Chico. Engraçado como os dois admiravam a música, o músico, e o Chico (rararara). Eu pensei: não são crianças normais, se fosse eu na minha época, estaria correndo e voando por estas ruas fazendo a maior baderna. O Matheus me contou uma história na qual fiquei perplexa. Ele disse convicto que antes de nascer, estava em uma fila gigante para escolher sua mãe. As mães apareciam numa tela de computador e o “Deus” tapava seus olhos pra não ver ele, mas cochichava os ouvidos das crianças pra desvendar os olhos na hora da escolha. Disse também que tinha uma japinha na frente, só que de repente ele a passou porque o Japão é bem distante do Brasil. É mole? Mas as crianças atuais são assim. São modernas, atropelam as informações, já querem seus espaços definidos e bem ajustados. Nós, adultos, nos derretemos com nossas crianças, percebemos que não dão trabalho como antigamente e isso conforta. Conforta a gente, e eles? E a infância dos nossos sonhos que deixaram na gente registros de cheiros como o giz de cera, e tudo que vivemos, as brincadeiras de rua; pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, cobra cega, coelhinho sai da toca, banho de mangueira, e etc?! Será que nossos filhos vão viver isso? Ou melhor, será que nossos filhos vão brincar de brincadeiras de verdade? As novas crianças continuam brincando, é claro, mas as brincadeiras mudaram e continuam mudando. Há um interesse maior nas cores vivas, nos movimentos virtuais, nos jogos 3D, onde as escolhas em que o indivíduo por si só manipula tudo na ponta do raciocínio e dos dedinhos. E o resto do corpo? Não correm, não sujam nem suam a camisa. As crianças são mais desenvolvidas que antes, mas não perceberam o desenvolvimento e atrofiam a parte primária para um bom desenvolvimento. A gente percebe. Estamos vivendo uma mudança cultural, os avanços tecnológicos aumentam os estímulos das crianças mas diminui a capacidade de forçá-los naturalmente. O tempo de hoje é outro, eu concordo. Os dias parecem mais curtos, as atividades diversas são quase deploráveis para a mente e o corpo, cada ano menos espaço no mundo, as comidas são modificadas e industrializadas, os apartamentos são menores e os antigos quintais com árvores pras crianças subirem, comer frutas do pé e etc, tomam espaços para monumentos de concreto. Mães modernas, autênticas e dependentes, pais tumultuados de tarefas, muitos ainda machistas, com menos tempo ou quase nenhum para carregar seus canguruzinhos na bolsa e levá-los aos parques, cachoeiras, sentir o gosto de terra molhada. É uma discordância que caminha junto a esta não-intolerância da realidade, da tecnologia avançada e da vida a cada dia menos real e mais virtualizada (para os acomodados de plantão é uma belezura!). É exatamente dentro da discordância que cabe aos pais pesar na balança o que realmente importa na vida. E admitir que são eles os responsáveis por estas crianças. As nossas crianças que farão parte e a história do mundo de amanhã. Se é uma tarefa difícil? Eu percebo. E percebo também que nesta dificuldade mora a maior satisfação de um ser humano. A criação de sua prole e de um mundo menos insensível.
Vizinha, é mole?
Tenho uma neta de 10 anos, veio para BH com 02 anos, mas a levo todos os finais de semana para minha cidade ,Alvinópolis, justamente para ser criança, viver como criança.
Seu texto é muito bom. Nos faz repensar, será que nossas crianças vão aguentar isso? Até quando? Cabe a nós, pais, tios, avós, fazer nossa parte, conversando, dialogando, e não deixar que elas virem frangos de granja.
Adoro ver a Mariana brincando com as crianças como eu brincava, como a mãe dela brincou, como as crianças do interior brincam até hoje, suada, suja de areia, barro. na chuva, subindo no pé de jabuticaba, chupando manga no pé, goiaba, amora, comendo ovo caipira, correndo atrás de galinha e até pegando bicho de pé, rsrsrsrsrs.
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Um abraço apertado,
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