Levar o maior número de pessoas ao Salão de Humor do Piauí/Brasil, que acontece há 23 anos em Teresina, sempre foi o grande objetivo do cartunista Albert Piauí, uma espécie de Dom Quixote piauiense que se entregou de corpo e alma ao evento e à Fundação Nacional do Humor. A paixão de Albert pelo Salão é tanta que eles já se tornaram indissociáveis. À frente da FNH ele toca o sino, reza a missa e acompanha a procissão: corre atrás de patrocínios, faz contatos com artistas de todo o mundo, ajuda a montar cavaletes, organiza as exposições, cobra do poder público o que foi prometido e ainda arruma tempo para ter boas idéias.
Entre elas está a mudança fundamental do Salão, que o diferenciou definitivamente dos outros eventos do gênero: há dois anos, o evento acontece na rua. Várias exposições são montadas em diferentes pontos da cidade, o que faz com que um número muito maior de pessoas tenha a chance de ver os trabalhos expostos.
Albert se emociona ao falar sobre imagens que presenciou (e registrou) no Salão de 2005. “É gratificante ver o homem do carrinho de picolé e os operários da construção civil montados em suas bicicletas parando para ver os desenhos, rindo deles. Sem falar nas centenas de estudantes que passavam pelos corredores todos os dias. Isso é a prova de que estamos no caminho certo, que tirar o Salão de Humor de dentro das galerias serviu realmente para torná-lo mais próximo do povo”, diz.
As exposições do ano passado foram montadas no Theatro 4 de Setembro, Clube dos Diários, Praça Pedro II, Central de Artesanato Mestre Dezinho, Avenida Antonino Freire, Palácio de Karnak, Agência Central dos Correios, Praça da Liberdade, Praça São Benedito, Biblioteca Pública Cromwell de Carvalho, Rua Climatizada, Avenida Frei Serafim, Aeroporto Petrônio Portela, Terminal Rodoviário Lucídio Portella, Universidade Estadual do Piauí, Centro Federal de Educação Tecnológica, Faculdade Novafapi e Faculdade Santo Agostinho.
O tema escolhido em 2005 foi o futebol. Para 2006, o assunto a ser “ilustrado” é delicado e exige muita sensibilidade. “Nós vamos falar de diversidade sexual. Escolhemos este tema porque queremos mostrar, através do desenho, que existem formas de humor que também lutam para eliminar preconceitos e idéias erradas sobre a sexualidade”, explica o organizador.
O Salão de Humor do Piauí/Brasil 2006 vai acontecer em novembro.
Praça do Humor deve ficar pronta este ano
A Fundação Nacional do Humor existe desde 1987 e nasceu, como outras tantas grandes idéias, numa mesa de bar. Reunidos em torno do Salão de Humor, que ainda não era internacional, nomes como Jaguar, Glauco, Millôr Fernandes, Paulo Caruso, Ziraldo e o próprio Albert, discutiam sobre o crescimento do evento e a necessidade de criar uma entidade que o gerenciasse.
Conversa vai, conversa vem, os artistas chegaram à conclusão de que uma fundação seria o ideal. Apesar de ser uma boa idéia, ainda levou quatro anos para ser oficializada. Uma das grandes conquistas foi o prédio da sede, uma casa grande e praticamente abandonada que nos tempos áureos das décadas de 60 e 70 funcionava como sede campestre do Clube dos Diários – o point de Teresina no passado, cuja sede oficial funciona hoje, depois de uma revitalização, como galeria e espaço cultural.
A reforma do prédio da FNH é um grande sonho de Albert. A idéia de ver cheias de gente, livros, desenhos, gibis, vídeos e arte em geral as salas amplas e arejadas da casa, que fica no meio da praça Ocílio Lago, poeticamente plantada entre árvores, faz brilhar os olhos de quem acredita na instituição como forma de valorizar os artistas do humor gráfico. “O projeto da reforma, idealizado pelo arquiteto Júlio Medeiros, prevê que toda a praça seja transformada em um pólo cultural, que ela vire a Praça do Humor. Queremos implantar uma biblioteca especializada, uma sala de cinema e uma escola de arte, para levar crianças e jovens para lá”, revela. O Orçamento Geral da União prevê a liberação de recursos para a obra este ano. “E o governo do Estado também se comprometeu a ajudar no que fosse necessário quando a reforma estiver acontecendo”. A Fundação Nacional do Humor é parte do projeto Agenda 2015 de Teresina, um plano de desenvolvimento sustentável da capital.
Salão valoriza os novos talentos
Albert Piauí comenta que o Salão de Humor funciona como vitrine para os novos talentos da área. “É impressionante como o tempo inteiro estão aparecendo novos cartunistas, chargistas, caricaturistas. É um orgulho ver que gente que começou no Salão, como o Aerlon Charles, o Jônatas, o Nilton, o Izânio, entre tantos outros, hoje são vencedores em outros salões de humor pelo Brasil afora.”
Entre os artistas piauienses do desenho de humor, um dos maiores destaques é Jota A, que com seu traço inconfundível e seu humor ácido arranca boas risadas de quem observa seus desenhos. Jota é chargista do jornal O Dia e já publicou dois livros: Humor todo dia, uma seleção divertidíssima de seus desenhos, e Cara e Coroa, que tem prefácio do mestre Ziraldo.
O chargista Moisés dos Martírios é outro grande talento do humor gráfico. Diariamente, suas tiradas são publicadas no Jornal Meio Norte.
Da velha guarda, um dos nomes mais lembrados pelos piauienses é de Amaral, que revolucionou o mundo das HQs com sua Hipocampo, lançada na década de 80.
Albert afirma que a área do desenho que mais cresce no Piauí é a de histórias em quadrinhos. “O pessoal do HQ é bem organizado, eles produzem muito, participam das oficinas, são interessados”. Existe um núcleo da FNH que é dedicado aos quadrinhos, coordenado pelo desenhista Bernardo Aurélio.
Interior sai na frente em projeto ousado
O município de Água Branca, a 90km de Teresina, está implantando este ano um projeto que vai mudar a vida de suas crianças e adolescentes. O Humor na Escola, idealizado pela FNH, recebeu total apoio da prefeitura local.
De acordo com o presidente da Fundação, a educação e a arte têm que andar de mãos dadas, porque juntas operam milagres na cabeça das crianças e dos jovens. “Separando a educação da arte e da cultura, forma-se homens capazes tecnicamente, mas sem a sensibilidade que só a cultura pode dar... A sensibilidade é que faz toda a diferença. O prefeito Zito mostrou-se sensível e certamente vai servir de exemplo”.
O projeto prevê que arte-educadores se integrem ao cotidiano da escola e assim trabalhem nos estudantes o interesse pela arte, incentivando suas criações, observando quem tem bom traço, quem é melhor de argumentação; plantando uma semente de cultura.
Água Branca é uma cidade pequena, tem cerca de 16 mil habitantes e já realizou dois festivais de humor, com participação maciça da população e exposição de trabalhos de artistas de todo o país. É o único evento do gênero no interior do Piauí.
Podia ter um Albert Piauí em cada estado brasileiro, em cada área da cultura, à frente de cada secretaria, em cada ministério... Muito bom te ler.
Ana Murta · Vitória, ES 4/6/2006 18:44
Aninha! O Albert é um exemplo mesmo...ele é incansável...
beijo pra vc
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