Eu cheguei lá com a cara amarrada. Fui pautado para cobrir um curso de gestão para pessoas que administravam uma cooperativa de costura. Na correria de jornalista que apressa a fonte para resolver logo o problema do conteúdo, cheguei e fui convidado para participar da reunião. Exitei logo em dispensar o convite e pedi que me indicassem duas ou três pessoas para que eu cumprisse, com a agilidade, meu trabalho. Em 30 minutos tudo estaria resolvido: minha editora estaria feliz e eu também. Apresentam-me Maria do Carmo Costa, 55, moradora do “Ocupaçãoâ€, em Belo Horizonte. Costureira articulada, Do Carmo, me lembrou as negras norte-americanas, militantes pelas causas sociais e conheci também Samuel Rodrigues, 38, morador do Bairro Dom Bosco, homem viajado pelo Brasil e parte da América Latina, onde exerceu a função de lavrador.
Vamos conversar. Maria pede a palavra. Quer falar antes de Samuel. Articulada e politizada, Maria adianta que está terminando o segundo grau e pretende continuar a estudar. Não sabe se fará faculdade, mas tem certeza de que o conhecimento sempre é bom. Não esconde que já catou lixo para vender nas fábricas de reciclagem e invadiu um condomÃnio desocupado para constituir ali sua casa há cinco anos. Maria fala muito enquanto Samuel observa a amiga que explica que o trabalho na Cooperativa de costura é muito bem organizado, onde todos trabalham sem nÃvel de hierarquia. “Lá todo mundo é gerente, costureiro, vendedor. Esse espÃrito de equipe é que faz a coisa andarâ€.
Samuel só fala depois de perguntado. Espanta ver aquele homem franzino abrir a boca e falar das expectativas na cooperativa. Articulado pelos anos de militância no Movimento Nacional de População de Rua, Samuel, retoricamente me explica que o modelo de cooperativismo seria a melhor solução para o desemprego no Brasil. Ele, que foi casado seis vezes e tem um filho, mora em Belo Horizonte há um ano e seis meses. Os outros da sua vida dividiu entre São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraguai e Argentina.
Depois de ouvir e sentir à vontade para discutir questões sociais, minha matéria não me interessava mais. Era hora de aprender polÃtica com quem experimenta, no seu cotidiano, o resultado da realidade vivenciada por quem não fala, não tem voz, mas entende o significado da cidadania. Militante de carteirinha, Maria do Carmo não perde para Samuel. Casou cinco vezes, e uma delas, faz questão de destacar que foi com um alemão. Não hesita quando perguntada sobre qual a solução para a atual conjuntura polÃtica. Com palavras rebuscadas, Do Carmo, vocifera convicta de que é preciso enxugar a máquina pública e acabar com tantos cargos polÃticos. “Não precisamos de tantos deputados, senadores. Acho que 100 seriam suficientes para administrar bem o Brasilâ€. Mas Samuel tem opinião diferente. “Acho que a globalização é uma mentira e apenas reforça a estratificação social dos paÃses do terceiro mundo. Antes de mudar o Brasil, convocaria uma grande assembléia nacional para ouvir seus representantes e depois decidir em conjuntoâ€.
- E para os polÃticos corruptos, Maria? - "Ladrão é ladrão em qualquer lugar do mundo meu filho. Quem rouba deve devolver cada centavo à sociedade e ser trancafiado numa prisão".
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