Culturas milenares em Goiás - parte II
Segundo Renato Rodrigues - Professor de Geografia da secretaria de Educação do Distrito Federal, a região central do Brasil é riquíssima em sítios arqueológicos, importantes para o estudo e a compreensão da ocupação humana nesta parte do planeta. O professor argumenta que, tudo que aprendemos sobre a origem da humanidade, tem, como base, pesquisas feitas por europeus, sendo, para nós, colocadas como a verdade absoluta sobre o assunto. O que o professor argumenta é que ainda temos uma visão eurocentrista (visão do europeu) de nossa história (e pré-história).
Postula o educador que, com a democratização das informações, possibilitadas pelo avanço tecnológico, podemos perceber que não somos apenas plateia na história (e na pré-história), mas, sim, atores protagonistas também, donos de um passado repleto de acontecimentos, que podem ser comprovados através das muitas informações deixadas pelos nos nossos antepassados, que (deveriam nos garantir a sensação de) “pertencimento”, que, durante séculos nos foi negado pelos que se consideram os donos da história humana na terra.
Um dos locais mais expressivos desses registros de ocupação humana no Cerrado é um sítio arqueológico localizado no município de Serranópolis - Go. Trata-se da Gruta das Araras, muito bem preservado, repleto de pinturas rupestres e vestígios, deixados pelo Homem Primitivo, que habitou a região central do Brasil há aproximadamente 11 mil anos antes do presente (A.P.).
Trata-se de uma área de uns 170Ha (cento e setenta hectares), onde funcionava uma fazenda, que abriga uma vegetação exuberante e torres de um tipo de rocha, muito dura, com características de mármore que, num passado remoto, serviu de abrigo aos homens primitivos, caçadores coletores, que deixaram muitas pinturas, restos de artefatos e vestígios daquele momento da história do homem americano. As imagens capturadas por Rodrigues no sítio arqueológico Gruta das Araras, localizado em uma RPPN (Reserva particular do patrimônio natural), ajudam-nos a ornamentar esta matéria. Além disso, o professor mantém um blog que fala de arqueologia no Distrito Federal, onde podemos ver várias fotos, cujo endereço consta no final da matéria.
Outro sítio arqueológico também presente em Goiás, é o da “Pedra Chapéu do Sol”, localizado em Cristalina. No local há uma grande rocha, de cerca de 100 toneladas, equilibrada em uma base de pouco mais de 01 metro de diâmetro, seu equilíbrio intriga quem passa no local. Localizada há menos de seis quilômetros do centro de Cristalina, o monumento é considerado uma das sete maravilhas de Goiás.
Um dos patrimônios imateriais que a pedra conserva é a crença de que a Pedra Chapéu do Sol é responsável pelo equilíbrio do mundo. Perceba que o local é também inspiração para a elaboração do imaginário da população, visto que já guarda em si uma explicação para a origem e significado do monumento.
“Verdade ou não, o fato é que os moradores mais antigos da região relatam avistamentos de objetos luminosos semelhantes a tochas de fogo sobrevoando o local onde se encontra a Pedra Chapéu do Sol, o que acaba por reforçar que a pedra concentra uma grande energia”.
O fato mais relevante aqui é lembrar que a Pedra Chapéu do Sol é repositório de desenhos rupestres, que dão conta da ocupação humana no Cerrado, há pelo menos seis mil anos, e conserva, em seu conjunto, um patrimônio cultural imaterial significativo. Segundo informações de moradores, as informações sobre os registros arqueológicos de Cristalina ainda são muito pouco conhecidas, sendo até inexistentes nos vários sites que tratam do turismo na região. Sendo divulgados ou não, para a matéria de hoje, contamos com a colaboração de uma delegada de cultura de Cristalina, Luciana Carmanhan, que mantém uma comunidade chamada de Cristalina Sustentável, na rede social Facebook. As fotos e o mérito da abordagem sobre o valor arqueológico são dela, pois foi pela sua atenção à nossa matéria do dia 14 é que tomamos conhecimento das pinturas rupestres, que parecem ficar apagadas, diante da beleza cênica do local, aliada ao fato de a pedra parecer desafiar leis da física.
Na semana passada (14 de janeiro de 2013), publicamos uma matéria sobre um sítio arqueológico na região conhecida como Bisnau, localizado em Formosa-Go. Para quem ainda não leu, repetimos o conceito de Meio Ambiente, definido pela Onu, em 1977: Conjunto de fatores: bióticos (elementos vivos, seres humanos, flora, fauna etc.) + fatores abióticos (temperatura, luz, umidade, solo) e Cultura.
Cultura faz parte do Meio Ambiente e, patrimônio cultural imaterial, inclui os lugares onde são realizados os saberes, as práticas, onde também estão guardados os registros de alguma atividades realizada etc. Ocorre que nós ainda não estamos acostumados a tratar do tema “cultura” ou “patrimônio cultural imaterial” como sendo parte do conjunto chamado Meio Ambiente.
A UNESCO define como Patrimônio Cultural Imaterial "as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural."
Perceba que, para que um lugar cultural passe a ser considerado patrimônio cultural imaterial de uma região, é preciso que a comunidade, grupos ou os indivíduos da região, reconheçam esses elementos como parte integrante de sua identidade cultural.
O nosso objetivo, como educadores, ao tratar desses temas, é chamar a atenção dos leitores de todas as cidades, para a importância do reconhecimento, por parte de seus habitantes, da relevância desses registros para a preservação desse patrimônio, e a consequente elaboração e atualização de uma identidade própria, considerando as origens locais do homem, e não somente as europeias. Dessa forma entenderíamos melhor o que o nosso saudoso Paulo Bertran chamaria de Homo Cerratensis (Homem do Cerrado).
O sentimento de que temos parte do nosso passado ligado a culturas indígenas ainda não está bem sedimentado, nem é muito bem aceito, até mesmo por muitos que têm cara, inequívoca, de índio. Isso acontece pelo fato de termos iniciado essa relação com o espírito da competição, violência e desprezo pelas culturas indígenas, considerando que os europeus fossem superiores em tudo o que faziam. Tecnologicamente os europeus eram superiores, mas isso não quer dizer que existem culturas superiores às outras, pois todas estão em um mesmo patamar de importância, no que diz respeito ao conjunto de saberes que produzem ou produziram.
Um exemplo claro disso é o conhecimento profundo adquirido pelos indígenas - e cobiçado por laboratórios farmacêuticos, sobre nossa biodiversidade florística (relativo à flora ou plantas em geral) e suas propriedades químicas - que é parte de um processo de modificação constante por parte das populações que no Brasil se instalaram ao longo de milênios, modificando ou melhorando as espécies. Tanto isso é verdade, que, “as novas concepções socioambientais defendem a tese de que a biodiversidade – diversidade de espécies, ecossistemas e genética – não sejam apenas um produto da própria natureza, sem a intervenção humana” (Santilli, 2005: 131).
Veja que esse conhecimento adquirido é parte do conceito de Patrimônio Cultural Imaterial, e o que Juliana Santilli quis dizer é que a biodiversidade é também um produto cultural, fruto de uma manipulação que nos remete aos primórdios da ocupação humana em um local determinado, seja ele qual for. Sendo assim, a presença de um grande número de espécies na biodiversidade de um local, se deve também à manipulação humana. Dessa forma, a defesa da preservação de um determinado sítio deve estar ligada também à preservação das culturas que ali se instalaram, pois essas próprias culturas conservaram e melhoraram o seu patrimônio genético. Quem nos garante que esses registros pré-históricos, pintados ou insculpidos nas grutas, paredões e outros locais, não guardam também indícios de atividades de manipulação da biodiversidade, tanto da flora quando da fauna? Nesse sentido, a cultura indígena está em um patamar que é muito superior à europeia, pois detém um conhecimento que, segundo Santilli, sequer pode constar em livros, tamanha a quantidade de informações acumulada.
Os chineses começaram a elaborar a sua escrita por meio de desenhos primitivos, que foram se transformando em sinais gráficos com o passar dos séculos. Esses desenhos primitivos são o registro claro da elaboração de sua escrita. Os egípcios também têm seus primeiros registros linguísticos registrados em formas de arte que lembra a arte em estilo naturalístico (imagens do mundo natural), através dos hieróglifos. Por todo o globo terrestre temos exemplos de registros dessa ordem, e há também as coincidências. Sabe-se, por exemplo, que foram encontrados registros parecidos com pinturas feitas na Toca da Onça, na região do Bisnau (Formosa-Go), na África e também na região do Pacífico.
Reportagem exibida por um jornal de grande circulação no DF diz que: “A Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Goiás concluiu recentemente o primeiro mapeamento dos 1.555 sítios arqueológicos do estado. Todos os dados coletados estarão em um banco de dados digital. Como os de Formosa, a maioria dos sítios do estado vizinho do DF se mantém exposta ao vandalismo e desconhecida da população”.
Como nós ainda sequer deciframos os significados dessas inscrições rupestres (ou arte pré-histórica) e aprendemos na escola muito da pré-história europeia, todas as informações presentes nesses sítios arqueológicos são bibliotecas, ainda sem manual de uso, e de cuja extensão não temos ainda a noção exata. Os sítios arqueológicos dependem também da conservação dos seus lugares culturais (o que está em volta dos sítios), para que possam um dia ser decifrados e entendidos. Isso quer dizer que não adianta preservar um local e devastar o seu entorno, pois precisamos dos lugares culturais para o conjunto fazer sentido.
Perceba que os elementos que se referem a Cultura estão intimamente ligados ao que nos acostumamos chamar de Meio Ambiente, pois é através da preservação dos registros e lugares culturais, da arte dos homens pré-históricos, que podemos começar a construir o nosso próprio roteiro histórico, conhecendo as origens do Homo Cerratensis, decifrando seus saberes, práticas, conhecimentos e técnicas, que são registros da relação que mantinham com o ambiente natural, além de muitos outros significados.
Sendo assim a arte primitiva, que representa animais, plantas, constelações, figuras geométricas, seres humanos e outras coisas mais, pinturas, ou insculpidas na rocha, nos dá a oportunidade de recuperar tradições culturais, informações, saberes, mitos que, além de guardar relação direta com a biodiversidade (incluindo flora e fauna), estão definidas pela UNESCO como parte dos lugares aos quais estão associados.
Um exemplo prático: preservar uma tradição indígena, mantendo uma família de Avá-Canoeiros – uma das etnias indígenas que pertencem tradicionalmente ao Cerrado - em um posto da Funai.
Como poderão exercer o seus rituais, as suas formas peculiares de sobrevivência (caça, pesca, coleta), o estabelecimento de funções dentro do núcleo familiar, se a Funai lhes dá o mantimento, as roupas, os remédios, uma casa diferente da que eles constroem em contato tradicional com a natureza e ainda protege essa família de toda a convivência com outros moradores da região, para não serem molestados?
Não estamos dizendo que a Funai age erradamente quando tenta proteger uma família da extinção, mas os próprios antropólogos dessa fundação sabem que, em um regime de isolamento espacial, não há qualquer possibilidade de manutenção e atualização dos seus costumes originais. Precisamos também preservar os lugares culturais dessas etnias. De outra forma, eles não conseguem pertencer à sociedade envolvente e tampouco dos indígenas, sendo reduzidos a uma condição análoga à de crianças, protegidas pelos pais.
Da mesma forma, torna-se impossível falar de preservação dos sítios arqueológicos sem que isso implique, fundamentalmente, em:
- reconhecimento desses elementos, paisagens ou lugares culturais como parte do patrimônio cultural, pela comunidade, grupos, ou até indivíduos;
- análise e tombamento dos sítios arqueológicos (considerando os lugares culturais onde estão inseridos), que até agora foram conservados, durante milênios, por culturas consideradas, muitas vezes, inferiores e atrasadas. Logo se vê que não é assim;
- manutenção desses sítios arqueológicos (juntamente com seus lugares culturais), e elaboração de material didático voltado para a formação de uma ampla consciência em alunos de todas as escolas, mas principalmente das próximas aos lugares culturais, sobre a importância referencial que eles representam para a historiografia regional;
O lugar cultural a que se refere a Unesco, não se reporta apenas a sítios arqueológicos, mas a monumentos, paisagens, grutas, algumas edificações e todos os outros locais onde as manifestações culturais, reconhecidas pela comunidade, acontecem e se ornamentam de significado para a sua identidade cultural. Podemos nos lembrar, por exemplo, do pelourinho, na Bahia. Aquele patrimônio arquitetônico é também um local cultural, ou seja, é considerado patrimônio cultural imaterial.
Por todas essas razões acima expostas, cremos que o primeiro passo é deixar claros os conceitos de Meio Ambiente e de Patrimônio Imaterial, visto que somente podem dar frutos quando a comunidade, os grupos ou indivíduos, enxergarem o valor desses locais como referenciais que lhes pertencem, e não apenas como pontos turísticos, com potencial de exploração de serviços e lucro. Os serviços, as empresas, incluindo as que exploram os recursos naturais nessas regiões, as oportunidades de trabalho e emprego, todas essas coisas passam, mas os sítios arqueológicos e todos os lugares culturais do mundo, têm de permanecer.
Mais informações:
• Santilli, Juliana. Socioambientalismo e novos direitos. São Paulo: Peirópolis, 2005;
• http://www.cristalina.redecol.com.br/2011/01/pedra-chapeu-do-sol-em-cristalina.html;
• http://www.facebook.com/#!/cristalina.sustentavel?fref=ts;
• http://arqueologianodf.blogspot.com.br/.
Braulio Antônio Calvoso Silva é licenciado em literatura portuguesa pela Universidade de Brasília, professor de língua japonesa, membro colaborador da Universidade Aberta do Cerrado, pesquisador e escritor. Email: brauliocalvoso@hotmail.com.
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