Priscila, a Rainha do Deserto

Fátima Temer
1
Jones Rossi · São Paulo, SP
3/8/2006 · 55 · 1
 

O carnaval curitibano tem fama de morto, mas uma das festas mais loucas, na qual se elege a prostituta mais bonita da cidade, acontece sob as bênçãos da grande mídia e de políticos locais.

Raica entra na passarela. Os flashs espocam e o público não tira os olhos de suas belas curvas, cobertas apenas por um biquíni mínimo. Cumpre o trajeto com desenvoltura, apesar do salto alto. Estas poderiam ser as linhas iniciais sobre a performance da modelo Raica de Oliveira, namorada do jogador Ronaldo, em algum desfile de moda, mas a Raica em questão atende pelo sobrenome Brenner e é uma garota de programa. Ela não desfilou em nenhuma Fashion Week, e sim no Concurso Bem Boladas, tradicional festa que acontece há 36 anos em Curitiba, todo domingo de carnaval. Espécie de "Miss Prostituta", "modelos" das principais casas noturnas da capital paranaense disputam o título de Rainha Bem Bolada.

Criado em 1970 pelos irmãos Mário e Jurandir Nery, que na época eram fotógrafos do Jornal Tribuna do Paraná, o segundo maior de Curitiba, o Bem Boladas se estabeleceu como o principal evento do carnaval curitibano. Enquanto o desfile (gratuito) das escolas de samba da cidade não empolga quase ninguém, as meninas que passeiam no palco do Bem Boladas costumam fazer lotar qualquer local em que seja realizado, mesmo com uma entrada nada popular, de 20 reais (15 com o cupom que vem encartado na Tribuna do Paraná). Este ano 1.300 pessoas foram ao restaurante dançante Crystal, que fica no centro de Curitiba. "Já fizemos em um ginásio para cinco mil pessoas, mas com muita gente vira bagunça", conta Mário Nery, que, aos 58 anos, continua organizando o concurso, agora com a ajuda do filho de seu irmão, falecido há 20 anos. E não falta organização. Até uma apresentação oficial à imprensa, com coquetel e algumas garotas, é feita na terça-feira que antecede ao concurso.

Apesar do público predominantemente masculino, a bagunça não é mesmo permitida. Com seguranças por todo lado, o clima é mais de sacanagem que de putaria. O máximo permitido é que a platéia em volta da passarela tente tocar as meninas. Jair Borba, de 48 anos, há dez como garçom do BB, garante que ali impera o respeito. "Não foge do script. É difícil sair confusão". Por isso não é difícil ver entre o público senhoras, casais, personalidades da sociedade curitibana e até vereadores, como Roberto Hinça, que circulava entre garotas de programa seminuas - algumas nuas mesmo - com uma revista pornô embaixo do braço. "Sempre tem político no júri. Eles vêm porque não faz mal à imagem, pelo contrário", explica Nery.

As meninas, sim, podem tudo na tentativa de ganhar o público e corpo de jurados - formado por jornalistas, empresários e políticos. Desfilam com os peitos de fora, totalmente peladas, ficam de quatro, simulam sexo oral e se oferecem para serem apalpadas pela platéia. O que está em jogo não é apenas o prêmio - a Rainha leva para casa um aparelho de TV de 29 polegadas - mas a fama (e o dinheiro que ela gera). A rainha pode faturar muito nas semanas seguintes à conquista do título. Em alguns casos, o valor de um programa com a campeã atinge estratosféricos mil reais. Para garotas que cobram em média 100 reais ou até menos (e quase sempre têm de pagar comissão para a casa onde trabalham) é um salto e tanto. "Tem umas muito ruins, muito danadas, mas o cachê das ganhadoras aumenta uns 300%, fica muito mais caro. Por isso elas se candidatam", teoriza Barcímio Sicupira, ex-jogador do Atlético-PR, Corinthians e Botafogo (onde chegou a ser reserva de Garrincha), e jurado do concurso nos últimos dez anos. Mário Nery garante que não é só o dinheiro que move as meninas. "Algumas arranjaram bons casamentos com fazendeiros ou empresários."

Antes de começar o desfile das candidatas, a Banda Crystal toca desde marchinhas antigas até Jota Quest e Capital Inicial. Luiz Montibeller, o vocalista de 49 anos, quase um clone peludo de Roberto Carlos, já presenciou várias edições do concurso. "A primeira vez que tiraram toda a roupa foi uma loucura", relembra.

Nas várias mesas ao redor do palco os garçons se batem para atender à demanda de cerveja e drinks variados. Quando a banda encerra com Ivete Sangalo e as garotas entram no palco, todo mundo já está devidamente calibrado, embora alguns sujeitos casados ainda se lembrem de fugir dos fotógrafos que estão cobrindo o evento (além da Tribuna, que apóia o concurso, outros grandes jornais publicam matérias recheadas de fotos quase explícitas nos dias seguintes).

Então o palco em forma de T é cercado pela multidão de marmanjos com celulares com câmeras em uma mão e uma lata de cerveja na outra. Pode até parecer pouco provável, mas algumas meninas demonstravam vergonha em se aproximar daquele público já ensandecido. Em cima do palco, Nelo Merlotti, apresentador de um programa esportivo local na Record, faz as vezes de animador de auditório e tenta afastar o receio das meninas. Ele conclama a macharada: "Nada de passar a mão nas meninas. Por enquanto..." O pedido não é nem de longe atendido e a Mulata Bem Bolada quase volta sem nada. Depois disso o concurso começa pra valer. O júri, posicionado do lado da passarela, recebe uma ficha para escrever a nota das 19 concorrentes. O sistema é simples, sem quesitos, sem nada. Uma nota simples de 1 a 10 é dada a cada candidata, que entra identificada por um número de papel preso à calcinha ou saia. A que somar mais pontos leva.

A primeira a desfilar, Michaela Van Drois (nome pra lá de inventado), dá o tom de ousadia adotado pelas concorrentes mais aguerridas. Vai até o meio do caminho e pára, de costas para o público, e consegue a proeza de tirar a calcinha sem tirar a calça. A segunda, Mila Novaes, mostra os peitinhos, mas é meio durona. "É difícil a experiência na passarela", diz, como se fosse uma modelo estreando na Fashion Week. Milena Carvalho, de 21 anos, entra e não tira nada. Depois de frisar que Milena não é seu nome real, explica que a família não sabe "ou faz de conta que não sabe". Mãe de filha que mal completou um ano, prefere desfilar vestida. Sua amiga Fabiane Guebel, de 20 anos, também concorreu. Fabiane, que saiu há três anos de Santa Catarina, foi a um puteiro pela primeira vez levada pela tia. "Eu fiquei olhando e quando vi já tinha entrado no negócio." Também não tirou a roupa no palco. Talvez pela postura um pouco recatada, as duas não fazem muito sucesso.

Os celulares com câmera voltam a disparar com a entrada em cena de Evelyn, fantasiada de borboleta. Mas é com Priscila Veiga que a noite atinge seu auge. Com 100 de quadril, 65 de cintura e 88 de busto distribuídos em 1,73m, a loira de 22 anos, natural de Porto Alegre, estudante do primeiro ano de Educação Física em uma Universidade de Santa Catarina, mal surge no palco e já são ouvidos os primeiros urros de "já ganhou." Quando ela abaixa a calcinha e enfia o dedo na vagina, a ovação é completa. O vereador Roberto Hinça é chamado ao palco para falar. "O povo quer, acho que ela tem que tirar", discursa, inaugurando o populismo pornô. As adversárias de Priscila bem que tentam. Deise Michele, tão bonita e loira quanto Priscila, tira o top, também sai aclamada, mas acabaria desclassificada por ser modelo profissional. A concorrente número nove, Alexia tenta ser simpática e se despede do palco com um singelo "boa noite, amo todos vocês." Vanessa Rangel, que milita na mesma boate que Alexia, não gosta das vaias dirigidas a ela por não tirar a minissaia. "Foda-se todo mundo", grita, amparada pelas amigas. Enquanto isso, os fotógrafos se divertem tirando fotos das calcinhas das meninas, se posicionando quase embaixo delas ao lado da passarela.

Logo após a última candidata se retirar, algumas são chamadas de volta. Raica Brenner volta com um quepe verde e rosa, fazendo alusão à Mangueira, mas novamente é ofuscada por Priscila Veiga, que desta vez se insinua molhando o dedo em um copo de uísque e depois passando nos lábios. Priscila sai com o título praticamente garantido. Nelo, o apresentador, aumenta a voltagem perguntando à Madrinha do Bem Boladas, que usava um longo vestido azul, o que ela esqueceu em casa. "A calcinha", responde, quase miando.

Chega a hora da premiação. Michele, representando a boate Gold Star, com 99 pontos, é eleita Miss Simpatia e leva um aparelho de DVD para casa. A Segunda Princesa, Michaela Van Drois, da boate Crystal, ganha um televisor 14 polegadas. Syang, Primeira Princesa, se emociona com o troféu e o mini system. "Não esperava, estou muito contente." Priscila Veiga, que cumpre uma pequena temporada na casa Sexy's, volta ao palco para ser ovacionada a última vez pelos seus súditos e receber o prêmio máximo, o título de Rainha Bem Bolada e a TV de 29 polegadas. Feliz, faz pose e tira a calcinha a pedido dos fotógrafos. "Sou safada de verdade, até o último."

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Rodrigo Teixeira
 

caraca... rock'n rolllllll! tem meu voto!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/8/2006 21:48
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