“Psychogrubs infectin’ my mind” ¹...

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Cury · Salvador, BA
15/12/2007 · 63 · 0
 

... ou “Só se vê na Bahia, só se vê na Bahia II” ²

“Pense num absurdo... na Bahia existe precedente”. O autor da batida frase foi o político Otavio Mangabeira. Otávio Mangabeira é o real nome do estádio da Fonte Nova.

A Bahia já teve uma banda chamada Dead Billies. No auge da exportação da axé-music, no século passado, aqui tinha uma banda de rockabilly, com os integrantes de jaqueta preta, botas, gel, topetes, um conceito “filme B de terror”, e um refinado bom-humor. É impossível descrever um show deles. Até tentei para pôr aqui, mas não consegui. Muitos a consideram uma das melhores bandas do mundo. E falam sério.

Gravaram uma fita-demo e dois discos. O primeiro disco é só sucesso. Todas as músicas eram cantadas em coro pelo público da banda, que, em meados dos anos 90, colocava até 1000 pagantes em seus shows. Pagantes.
Muito se fala sobre a qualidade da gravação desse disco, e realmente não é das melhores, devido aos equipamentos disponíveis no estúdio WR, mas dizer que aquele disco é mal gravado é apenas um comentário inútil diante do conceito do disco e da banda.

Talvez, pelo momento da época, o termo “psycho” (leia-se pisico ou pisaico) estava em voga. Os Dead Billies eram rotulados como banda de Psychobilly.
Eu tinha uma banda que era psychopunk. Tinha banda de psychogrunge, psychotrash...
– Como é o som da banda? – perguntava eu, entrevistando alguma banda prum fanzine em que escrevia.
– Ah, é um som meio assim... um psychofunk.

Enquanto isso, na Bahia...
Ora bolas, quero conhecer quem é o tal que poderia impedir um jogo na Fonte Nova.
Desde 2001 que a Fonte Nova é embargada. Inclusive aquele lugar em específico onde ocorreu o acidente. Alias, não foi acidente. Acidente é você estar dirigindo na estrada e um cavalo atravessar a pista correndo.
A Fonte Nova foi embargada e liberada e embargada de novo e liberada e embargada e liberada...
Alguém dizia que não tinha condições, que precisava de reforma e conseguia embargar. Mas aí depois conseguiam desembargar. Esse libera-embarga vem acontecendo sem nenhuma reforma acontecer. O que comprova que o “libera” era simplesmente político.
– Senhores, a Fonte Nova não pode ter jogo. As estruturas estão corroídas, qualquer leigo percebe isso, aquilo vai cair uma hora dessas...
– Calma, só falta mais um jogo, depois desse a gente reforma, não pode parar, é o último... – profetizou algum cartola de alguma entidade seja ela qual for.
Quem é que vai parar uma renda de meio milhão por jogo? Quem é esse poderoso? Ainda mais com tanta gente envolvida. Sudesb, Governo, Clube, Cambista, Prêmio de Jogador...
E se embargassem, será que a torcida aceitaria? Será que ela não iria achar que era mutreta pra prejudicar o time do coração?
Enquanto meio milhão entrava por jogo, alguns míseros reais saíam pra pintar as arquibancadas, maquiando-as.

Para os familiares das vítimas, imagino que maior do que a dor da perda é a dor de imaginar como foram aqueles últimos segundos de sofrimento.
Pelo andar da carruagem, tudo indica que eles ficarão com essas dores sozinhos.
E com os psicólogos.

Continuando na Bahia...
Lula Desgraça morava na Cidade Baixa, no Bonfim. Todo dia chegava bêbado em casa, gritava com a mulher, batia, xingava... Um dia, a mulher botou ele pra fora de casa às três da manhã. Ele ficou na porta gritando:
– Abra, sua puta, eu sou Lula Desgraça, e quem manda aqui é Lula Desgraça...
Ficou repetindo isso sem parar, até que o seu vizinho de porta se meteu:
– Ô, amigo, são três horas da manhã, tenho criança em casa, por favor...
Lula Desgraça olhou no olho dele e disse:
– Ô, playboy... quem manda aqui nessa merda é Lula Desgraça.
O playboy espancou Lula Desgraça. Bateu, bateu, bateu...
Lula Desgraça passou então 5 minutos gritando “curativo... curativo... curativo...”.
Só assim a mulher foi buscar ele. Trazendo a paz para todos. Mas Lula Desgraça iria se vingar.

Pobre momento. O diálogo entre Lula Desgraça e o Playboy foram as últimas palavras que a simpática senhora do andar de cima ouviu na vida. Oitenta e tantos anos. Morreu naquele noite.
No dia seguinte, pela manhã, chegou a galera do funeral com o caixão. Prédio antigo, sem elevador, aquela escada apertada... pra conseguir fazer a curva na escada com o caixão, tiveram que buzinar na casa que ficava em frente à escada, para, assim, pedirem para entrar com o caixão na tal casa, fazer a manobra e subir as escadas. Só precisaria entrar um pouquinho. Explicaram pra senhora o intuito e ela deixou fazerem a manobra em sua casa. Era a casa de Lula Desgraça. E no exato momento em que o caixão saía de sua casa, seu vizinho abria a porta da casa dele. A cena que viu foi de um caixão saindo da casa de Lula Desgraça. Passou 10 dias no interior da Bahia. Se picou na mesma hora. Tava com a carteira e a chave do carro na mão. Devia tá indo na padaria... Não pegou roupa nem avisou à família, que ficou desesperada aqui, tentando encontrá-lo pra dizer que foi um mal entendido, que ele não matou ninguém. Que, pra alegria dele e de todos, Lula Desgraça estava vivo.

Outro dia, teve um show do Retrofoguetes na livraria Berinjela e Lula Desgraça tava lá. Bêbado, no fim do show, em que dançou sem parar, chamou a banda pra um abraço coletivo e disse durante o abraço:
– Nós... ainda somos nós mesmos.

E na Bahia...
Daniel estava em casa, no bairro da Graça, vendo televisão, nada pra fazer, quando o telefone tocou:
– Alô, queria falar com Daniel.
– É ele.
– Daniel?
– Sim...
– Daniel?
– Sim...
– Daniel... ééé... olha só... você não me conhece, eu sou de Maceió, tem dois anos que te procuro e só agora te encontrei...
– Quem é? Quem tá falando? – Daniel não entendia nada.
– Você não me conhece, só queria dizer que você faz parte de minha família e que eu vim aqui pra Salvador só pra te dar um abraço e pra te dizer isso...
– Hein?

No início dos anos 90, Daniel, loiro bonitão, fazia propaganda das Sapatarias Santana. Tênis Turbulance. Fez alguns comerciais e, em um destes, ele era entrevistado por uma pessoa que perguntava algo sobre o tênis ou sobre a loja e ele respondia. Enquanto ele respondia, para dar a atmosfera jornalística do VT, aparecia o nome “Daniel – Estudante” embaixo da tela.

Numa bela tarde, esse tal cara de Maceió estava em casa, vendo televisão, nada pra fazer, quando o telefone tocou:
– Alô, aqui é da rádio “Maceió FM” e você está participando da nossa promoção “PERGUNTA DA SEMANA”, como é seu nome?
Ele teria de responder a uma pergunta. Uma só, que poderia ser de um tema qualquer escolhido pela rádio. Nunca na história da rádio um ouvinte tinha ganhado.
Era uma pergunta bíblica sobre o nome de algum anjo que fez alguma coisa.
Em sua frente, na televisão, aparecia Daniel com seu Turbulance, dando uma “entrevista”, com seu nome embaixo.
– Daniel – respondeu o cara.
Com o dinheiro que ele ganhou, deu pra levar o pai, que estava nas últimas, para São Paulo e fazer a cirurgia que o salvou.
Ficou dois anos procurando Daniel só pra poder dizer isso e dar um abraço nele.

Ainda na Bahia...
Um amigo, saindo de um estúdio onde acabara de ensaiar, ouviu o diálogo entre dois músicos.
– Porra, véi... porra...
– Que foi, véi?
– Porra, véi...
– Que foi, véi?
– Ontem, véi, quando eu cheguei em casa, véi...
– Que é que tem, véi?
– Porra, véi... fui no banheiro e aí passei pelo quarto de mainha, véi...
– E aí, véi?
– Porra, véi... vi painho lascano mainha...
– ...
– ...Deu um negócio ruim aqui dentro...

Ele não viu painho fazendo sexo com mainha, nem painho transando com mainha, muito menos painho fazendo amor com mainha. Ele viu painho LASCANO mainha.
Fico tentando imaginar a cena que ele viu.
Mas o amigo o reconfortou:
– É, véi... bizarro... isso fode o psicólogo do cara.
________________

(1) Psychogrubs, por Dead Billies, de Moscka, Morotó, Joe e Rex.
(2) Jingle da TV Bahia.

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