Quanto vale um furo?

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Kleomar Carneiro · Campo Grande, MS
6/10/2008 · 53 · 2
 

A indústria fonográfica parece dominar uma fórmula para criar estrelas da música. Não é mais surpresa ver surgir do nada alguma garotinha em trajes sensuais cantando músicas compostas por terceiros. Vender milhões de discos há algum tempo não é mais sinônimo de qualidade, mas sim de boa publicidade. Jovens nessa área misturam-se com outros precoces, atores, esportistas, modelos ou afins que, com até mesmo menos do que vinte anos, possuem fortunas de milhões de dólares. Tanto dinheiro e fama não necessariamente trazem maturidade e é comum ouvir notícias “curiosas†sobre essas celebridades.

Gafes, boatos, excentricidades, quem-namora-quem, desentendimentos, quem-não-namora-mais-quem, entre outras categorias de fofoca, preenchem as coloridas páginas das revistas. Aparentemente, a quantidade dessas publicações cresceu muito nos últimos anos, pois a cada vez que vou ao supermercado vejo sempre mais e mais títulos naquelas gôndolas perto dos caixas. Às vezes me impressiono por desconhecer completamente a pessoa que figura na capa da revista.

A anônima famosa

Foi justamente numa dessas ocasiões que vi uma menina loira, com o rosto um tanto quanto familiar, em uma daquelas fotos surpresa na qual a pessoa não sabe que foi fotografada, mas ainda sim parece ter posado pra sair bonita na foto. Ao lado da moça estava um rapaz também loiro, ambos aparentando serem bem jovens. Logo abaixo vinha a tradicional manchete chamativa, destacando a também tradicional e genérica notícia: a garota estava grávida.

O anonimato da menina fez sentido, ao menos para mim, quando li que ela é irmã da célebre Britney Spears, ou seja, famosa por tabela. Jamie Lynn Spears, de 16 anos, anunciou que espera um filho do seu namorado, Casey Aldridge, o rapaz que estava ao lado dela na foto. Porém, confirmando minha desinformação total, o fato da garota estar grávida não era o foco principal da notícia. A ênfase era para a família de Jamie Lynn, que assinou um contrato de um milhão de dólares pela publicação exclusiva das fotos do bebê, logo após o seu nascimento.

Ler e ver isso tudo me fez dar umas risadas. Das duas contradições que este texto mostra, nesse instante eu pensei na primeira delas. Lembrei daquelas meninas que engravidam nessa idade e são expulsas de casa ou, numa situação mais “leveâ€, são obrigadas a casar com o pai da criança. Quantas não são as leitoras daquela revista que são mães-adolescentes? A sutil diferença é que uma recebeu um milhão pela irresponsabilidade e as outras, bom, vai saber o que receberam.

O perigo da profissão

Eu nem recordava mais dessa história quando lia na revista Caros Amigos uma reportagem do Sérgio Kalili. O jornalista contava como foi sua quarta viagem ao Iraque. Logo no início do texto ele diz que era o único a ter comparecido, entre os poucos jornalistas convidados, a acompanhar o Senador Eduardo Suplicy em uma viagem secreta e oficial do governo brasileiro. Por questões de segurança, tal jornada foi tratada como segredo de Estado até que o Senador Suplicy e o embaixador do Brasil no Iraque, Bernardo de Azevedo Brito, voltassem ao Brasil.

Suplicy viajava com o intuito de aumentar o comércio entre os dois países e também apresentar um projeto seu, o Renda Básica de Cidadania, para tentar ajudar na pacificação do Iraque. Diante dessa situação, Sérgio Kalili ofereceu as imagens que faria no Iraque para uma grande emissora de televisão. A direção da empresa se mostrou interessada e disseram que avaliariam as imagens assim que o jornalista retornasse ao Brasil.

Ao longo da reportagem, Kalili detalha situações de perigo e tensão ocorridas durante a viagem. Até aí não há problema algum, mas, nos últimos parágrafos do texto, ele narra a mudança de opinião da emissora que iria comprar a filmagem. Sem ao menos ver as imagens, disseram que agora querem cenas de ação, de guerra mesmo. O Senador não é importante.

Interesse barato

Sérgio Kalili evidencia sua frustração e indignação ao contar que, após a negação da primeira rede de televisão, ele tentou vender as gravações a outras empresas. Uma delas chegou a dar uma oferta: 500 reais. Nesse momento eu me lembrei da irmã da Britney Spears. Aqui está a segunda contradição.

Um jornalista se arrisca numa viagem perigosa, é o único a filmar cenas importantes que evidenciam a participação do Brasil na ajuda ao Iraque e não consegue nem cobrir o valor que gastou pelas passagens aéreas. Uma menina engravida na adolescência e as empresas brigam para ter o direito exclusivo de tirar fotos da criança. Desembolsam felizes um milhão de dólares por alguns retratos do bebê.

Aos estudantes de jornalismo que pensam em ganhar algum dinheiro, é melhor escolher com cuidado sua área de atuação. É por essas e outras que dá pra dizer sem medo: no jornalismo não basta ser bom.

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Kleomar Carneiro
 

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Obrigado!

Kleomar Carneiro · Campo Grande, MS 4/10/2008 10:01
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O poeta oculto
 

bom texto!
um abraço

O poeta oculto · Teresina, PI 4/10/2008 13:21
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