Quem imaginaria que uma rádio comunitária poderia tornar-se um fórum social? Na Rádio Digital tem cartaz de arrocha e de pagode, mas tem também a indignação do povo. Porque esse povo não pode ir ao carnaval. Aliás, pode sim. Basta pegar um ônibus que demora mais ou
menos duas horas pra atingir o centro da cidade. Um não, dois, a depender da localização da pessoa. Estamos em Cajazeiras, um dos maiores complexos habitacionais do Brasil, com cerca de 600 mil moradores.
Eles moram a aproximadamente 25 km do centro de Salvador. São muito mal servidos pelo transporte coletivo. São gente da periferia, que é humilhada quando passa mal e vai ao hospital, ou junta os trocados para pegar o ônibus. Eu estava lá para ouvir suas reclamações sobre o sistema de saúde e me perdi nos cartazes de EdÃlson Trovão, a estrela da seresta.
Enquanto gente como Valdir Santos, diretor da Rádio, transmite notÃcias e músicas pelos alto-falantes, a uns 60km dali, no balneário-sensação de Praia do Forte, uma dondoca diz ter comprado um sapinho de brinquedo para a empregada doméstica. ?É igual a você?, fala na pilhéria. A mulher, ignorante, ri junto. ?Eu gosto das mais bobinhas, mas não tão bobinhas que afete o serviço?. Sim, são justamente essas que têm a menor consciência da luta de classes.
E não podem ir à Praia do Forte, para o alÃvio de muita gente. Não se apaga 400 anos de escravidão com 100 anos de exploração. A mentalidade prossegue, imunda.
Tudo bem, seu Valdir toca o que o povo quer ouvir. O povo nem é muito exigente. Enquanto subia e descia os morros de Cajazeiras, zona Ãngrime de casas barrentas, fiquei imaginando aquele povo todo descendo o morro e invandindo a BR-324. A parca produção industrial seria
paralisada. Eles seguiriam em cortejo até o primeiro shopping, onde promoveriam um quebra-quebra magnÃfico. AÃ, então, as forças da ordem acusariam a multidão de saque. E o conflito social estaria armado. Mas para isso existe carnaval. Pelo esquecimento da miséria e a felicidade momentânea. Prometo que, durante a festa, estarei embriagado o suficiente para ser mais feliz com a mercantilização da felicidade. Mas até lá, um pouco de senso crÃtico ajuda a não enlouquecer.
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