Reality Show, Reality choro

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Almeida · São João do Sabugi, RN
17/3/2006 · 0 · 0
 

- E você aceitará, ficará noiva e casará com o pretendente que seus familiares escolherem?
- Claro que sim, eles sabem o que é melhor para mim.
Isso escutado há tempos atrás: normal demais. Uma jovem imaculada, pura, aceita os pretendentes que lhe convenham à família. Simples assim. O amor, o companheirismo se adquire com o tempo. Aparecem. Senão, ao menos se têm cumplicidade da vida infeliz.
- E você aceitará, ficará noivo e casará com o pretendente que seus familiares escolherem?
- Claro que sim, eles sabem o que é melhor para mim.
Isso escutado hoje por um telespectador, no momento em que o apresentador de televisão faz a dita pergunta a um participante de um provável concurso para a escolha de sua noiva: simplesmente de se chorar copiosamente.
Chorar choro de criança estatelada no chão. Nem tanto pela falta de senso de ridículo dos participantes. Nem tanto pela falta de criatividade dos produtores. Nem tanto pelo completo ócio e descaso do telespectador. Nem tanto por nada.
Chorar por ver pintado por elétrons que se chocam contra um tela de sei-lá-o-quê um retrato panorâmico, detalhista, profundo e certeiro de nós. Isso sim. Um retrato em bilhões de cores, tão disformes e confusas, que um papel em branco representaria tudo.
Chorar porque a maresia não é mais motivo de contemplação, mesmo que venha acompanhada da praia, do mar, do céu, das garotas na praia. Isso tudo é tão acessível hoje. Chorar por ver que um banquinho, um violão e uma poesia já não fazem mais música. Chorar por não se ver mais Vinicius (no plural), nem Toms, por Ipanema, nem Copacabana, nem canto nenhum – primeiro porque não existem mais, segundo porque não saímos mais para nos ver.
Chorar, pois o companheirismo, o amor não se adquire mais com o tempo, é tão falso e fácil que é imediato. Compra-se em qualquer esquina. Chorar porque a cumplicidade está em falta, não fabricam mais.
Chorar porque nós não só retrocedemos, mas além de retroceder – muito, aliás – nós pioramos a situação. E como, meu Deus, pioramos.
Chorar. Mas nem tanto, podemos queimar algo que nos auxilia.

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