(Re)Carregando as baterias

1
Cury · Salvador, BA
2/4/2008 · 61 · 0
 

Uma vez, ainda nos anos 90, fui com uma banda que eu tinha, Dinky-Dau, tocar em Aracaju. A comunicação com os produtores do evento foi feita via telefone. Era um festival que seria feito em uma universidade de lá. Pegamos a estrada e no início da noite chegamos à cidade.
Sempre que se vai para um evento desses, todos da banda ficam moleculando, concentrando que vai ser tudo lindo, que o evento vai ter gente, som bom, que vai ser divertido. Mas, em 99% das vezes, a frustração vem com tudo. Ao entrarmos no recinto e olharmos o palco, todos pensaram, mais uma vez, “devia ter ficado em casaâ€. Observando os equipamentos, percebemos que não tinha amplificador para o baixo.
– Vamos ligar diretamente na mesa – disse o técnico de som do local.
– Quem é o produtor do evento? – perguntamos a ele.
– Aquele cara ali.
O cara que ele dizia ser o produtor estava de costas. O cutucamos e, quando ele virou, nos deparamos com um menino de 14 anos. Isso já era um problema por si só. Ou vários. Mas o pior de todos é que ele vestia uma camisa branca com os dizeres “Destruction Productionâ€.
E com letras iguais à da banda Metallica.
Todos perceberam na hora que seria inútil reclamar e só perguntamos onde era o hotel. Ele nos ensinou, dizendo que em uma hora iria chegar uma pizza pra gente.

Ao dobrarmos a esquina onde ele tinha ensinado, nos deparamos com o Destruction Plaza Hotel.

Em Salvador, existia um hotel na praia de Stella Mares que nunca foi concluído. Por anos ficou lá na praia, inacabado, com sua carcaça macabra. Era uma visão bizarra. Foi implodido. Mas ele era um resort perto do Destruction Plaza Hotel.

Entramos na escura recepção. Nosso quarto era no último andar e tivemos de subir de escadas. “Os elevador tem dois anos que não funcionaâ€, disse o recepcionista. Doze lances de escadas. Com malas e instrumentos. No escuro.

Nos acomodamos e ficamos lá, tentando suportar o rock. Nossa sorte é que sabíamos rir de nossas situações. O rock ensina isso.
PÉM, tocou a campainha.
– É a pizza – gritou o cara.

O entregador, todo suado e ofegante, nos entregou a embalagem. Agradeci e fechei a porta. Ao abrirmos a embalagem, tinha uma triângulo perfeito faltando. Um triângulo isósceles.
Até hoje não sabemos se foi o dono da Destruction Production quem comeu ou se foi o motoboy, que deve ter pensado que tinha esse direito, após constatar que teria de subir doze lances de escada para entregar uma pizza. Certo ele.

Voltamos pro local do evento e tudo estava pior. A primeira banda, que deveria começar às 21h, estava começando às 23h. Aí foi demais. Ouvindo as súplicas de “Por favor, não façam isso, toquem†por parte do produtor-destruidor, fomos indo embora do local. Voltamos ao hotel para dormir e descobrimos que alguém reservou uma suíte no quarto ao lado do nosso. A TV dele estava ligada. Por que um cara iria se hospedar logo do nosso lado, em um hotel vazio?
As respostas começaram com piadas, mas, com o tempo e a imaginação, terminou com a banda toda correndo pelas escadas do hotel, tendo a certeza de que se tratava de um cruel e sanguinário assassino.
Nos hospedamos em um outro hotel e voltamos pra casa no dia seguinte.

Depois do lançamento do livro, tenho ouvido algumas coisas:
– Porra, você não colocou aquela história no livro, aquela do “haribô no Capãoâ€, e nem aquela do “Tá dividindo†– disseram alguns.

– Ouça essa aqui, essa é pra você colocar no livro – dizem outros, se esquecendo que o livro já saiu e não tem mais como mudá-lo, a não ser em uma suposta segunda edição.

Tenho tocado com uma banda, Aguarraz, e fizemos um show nesse sábado, onde teve a participação especial do guitarrista Morotó. Nos ensaios e passagens de som, em todo momento, Morotó tinha alguma história incrível para contar. Se tivesse um silêncio, Morotó começava a contar. E todas as histórias são fantásticas. A esmagadora maioria envolvendo o rock baiano. Várias vezes ele dizia “essa é pra você colocar no livroâ€.
– O livro já saiu, Morotó – insistia eu.
– Tô falando do outro, porra – insistia ele.
Disse a ele que então era ele quem devia escrever um livro. Sugeri que poderíamos até fazer uma parceria. Ele daria os depoimentos e eu anotaria.
Eu já tinha uma idéia parecida, a de pegar depoimentos de personagens do rock baiano e fazer, em referencia ao famoso livro com depoimentos de personagens do rock americano, chamado “Mate-me, por favorâ€, o “Mate-me, na moralâ€.

Uma boa história de Morotó é que ele tocou rock a vida toda e, nesse ano, ele ganhou o prêmio Dodô e Osmar 2008 como melhor instrumentista do carnaval.
Ele tocou durante a folia, porém tocando rock, com sua banda Retrofoguetes, no carnaval do Rio Vermelho.

Premiação Dodô e Osmar 2008:

Melhor música: Toda Boa – Psirico
Melhor Cantora: Ivete Sangalo
Melhor Cantor: Bell Marques
Cantora Revelação: Katê (Voa Dois)
Cantor Revelação: Fred Moura (Voa Dois)
Banda Revelação: Voa Dois
Abadá mais bonito: Eva
Melhor instrumentista: Morotóóóóóó Slim (Retrofoguetes).
“Quem?â€, se perguntaram todos, no lotado Teatro Castro Alves.

Foi um belo gol de honra. Depois de anos de goleada.

Seria bom poder mudar algo no livro. Já encontrei alguns erros irritantes. Um que me irritou muito é que em um rodapé diz que o disco Loaded, do Velvet Underground, foi lançado em 1970 (o certo). No rodapé ao lado, do mesmo disco, diz que foi em 1979 (errado).
Em um trecho, tem um parênteses que fecha sem ter sido aberto. Ou abre sem ter sido fechado. Nem lembro, só consegui ver uma vez.

Assumo todos os erros. Tudo foi digitado por mim.
Lubisco disse que tem um caso de uma professora dele, de letras, que, ao concluir a tese de doutorado, ela própria fez a correção, afinal é sua especialização, e ainda contratou uma revisora.
Ao receber a tese impressa, depois de todas as revisões, abriu em uma página qualquer, no meio do calhamaço, e “PLIMâ€, deu de cara com um erro. Fechou na hora e não quis mais olhar nada, tentando controlar os nervos.
Hoje é professora de literatura na UNB.

Meu avô, já muito falado aqui nesse blog, vai fazer 90 anos em outubro. Gasta o seu tempo, exclusivamente, lendo e relendo os seus versos. Tá sempre mudando uma palavra por outra, tentando atingir, sempre, a perfeição de Olavo Bilac e Castro Alves, seus preferidos. Sempre encontra algo. Ele foi um dos revisores do meu livro. Persegue a perfeição a todo o momento. Mas, só uma semana depois que recebeu o meu livro, no exato momento em que estava dentro do seu carro, indo para o lançamento do meu livro, ele achou um erro. Até aí tudo tranqüilo. O problema é que foi um erro justamente na poesia dele que transcrevi no livro.
Ele foi um dos primeiros a chegar à livraria e já chegou com o livro aberto.
– Tem um erro aqui – dizia ele apontando pro livro.
“Fudeuâ€, pensei.
Ele queria que eu comprasse uma gilete e raspasse naquele momento o “A†maldito de cada livro que estava de intrometido na palavra “venturaâ€, transformando-a em “aventuraâ€.
Além da mudança do significado e da interpretação da poesia, o “A†maldito fazia com que o verso deixasse de ser o perfeito decassílabo.
Jurei que na segunda edição, se tiver, esse erro estará corrigido. Se você, leitor do blog, tem o livro, releve esse “A†maldito da palavra “venturaâ€. Página 58.

Tomara que tenha uma segunda edição. Mas para isso preciso controlar um outro problema da arte: a cortesia. Um dos principais motivos que estraga qualquer produção independente, a impedindo de uma possível segunda edição e/ou retorno do investimento, seja show, teatro, fanzine, livro, vídeo, é a maldita cortesia. Mais maldita que o “Aâ€. Conhecidos dos envolvidos na produção que pedem para “liberar†desde um couvert artístico de 5 reais, um disco de 10 e até um livro de 30.

Ter que negar é horrível, mas tenho me empenhado e estou conseguindo ser irredutível. Não posso dar. O investimento foi alto e já tenho uma cota reservada para ser dada (editoras, jornalistas, pessoas envolvidas...) que não pode ser ultrapassada.
– Porra, man, vai cobrar do seu brother? Um livro?
PQP. Tenho vários amigos donos de lojas de roupas, lanchonetes, estúdios... e nem por isso deixo de pagar uma camisa, o meu suco de laranja com beterraba e cenoura ou as horas que a banda usou ensaiando.
Um amigo disse que esse problema sociocultural é porque a arte, supostamente, não serve pra nada, pois não dá pra comer nem se vestir com ela.

Um dia encontrei com um conhecido diretor de teatro de Salvador. Ele estava estreando uma peça e me perguntou se eu queria que ele colocasse meu nome na bilheteria do teatro. Disse que não, que preferia pagar, e comecei a minha tese/discurso sobre o problema da cortesia. Foi uma boa conversa, entusiasmada de ambas a partes, mas eu devia ter aceito a porra da cortesia que ele me ofereceu. No fim da conversa, imagino eu que do posto de pessoa famosa, ele se achou no direito de dizer “e esse livro, posso ficar, né?â€.

Uma vez, eu disse aqui no blog que ia largar o rock e blá, blá, blá, mas logo percebi que não dava pra se separar da fonte de inspiração e, duas semanas depois daquele texto, eu já estava em quatro bandas. Hoje estou (efetivamente) só em uma.
E foi muito bom, ao fim do show desse sábado, depois de tocar com Morotó, enquanto carregava a bateria para o carro, ouvir a velha e boa frase “baterista é o que mais se fodeâ€.

Em tempo: Recebi um e-mail da leitora Karina (ver “Em tempo†do texto "Maurição"), me mandando o seu e-mail para que eu pudesse mandar as fotos que eu, supostamente, achava que eram dela, no dia do lançamento do meu livro. Mandei as fotos e recebi a resposta:

“Pôxa, Cury, apesar de eu saber que não tinha tirado foto nenhuma, fiquei até com esperança de ter aparecido no cantinho de uma...rsrsrs
Pois é, a sua busca pela menina da foto continua, não sou eu, apesar de que ela até que parece um pouco comigo, quero dizer, tem o mesmo tipo físico: morena de cabelos castanhos e compridos.

Por favor, avise quando for tocar rock nessa Soterópolis.

Beijos
Karinaâ€

Portanto, a saga continua. Se você estava no lançamento do livro, vestida com uma blusa marrom, uma bolsa de couro marrom, acompanhada de um cara que vestia uma camisa azul da marca Mizuno com a palavra Running escrita, envie um e-mail pra paracolorir@gmail.com para que eu possa te enviar a foto.





compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados