Reggae, a resistência da periferia

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Adriel Diniz · Porto Velho, RO
27/10/2006 · 162 · 2
 

Bob Marley, Jamaica, Roots, liberdade e, é claro, periferia. Foi nos guetos de Kingston, depois da independência da ilha, no final dos anos de 1960, que surgiu o reggae. Dizem os regueiros, que num verão extremamente quente, o ska, outro ritmo nativo, foi desacelerado, pois os músicos teriam ficado com pena do povo, que mesmo com o forte calor, não parava de dançar. Das favelas da Jamaica para a Jamaica Brasileira. São Luis, capital do Maranhão. Daí, mais 4.434 quilômetros até Rondônia. Mais especificamente em Porto Velho. Para ser ainda mais preciso, na zona leste, onde há a maior concentração de gente na cidade. Onde tem mais maranhense e onde tem mais reggae.

Essa pequena introdução ao ritmo de Marley foi feita pelo regueiro Jhony Jamaica. Nenhum sobrenome seria melhor para este maranhense de 35 anos, que desde os 14 se sente fascinado pela batida preguiçosa e envolvente do reggae. Ele é presidente do folclórico bloco Jamaica. É, isso mesmo. Porto Velho tem um bloco carnavalesco que só toca reggae. Essa, aliás, é a única vez no ano que o reggae deixa a periferia para dar as caras no asfalto. O bloco surgiu há seis anos, da necessidade de organizar o movimento na cidade e dar opção para os chegados curtirem o carnaval com o ritmo jamaicano. Deu certo.

Mas enquanto o carnaval não chega, são as cinco radiolas espalhadas pelo bairro JK que fazem a diversão da galera. Radiola? Tudo bem, tem alguém aí que sabe o que é, mas eu tive que perguntar: é o equipamento de som, com enormes e coloridos auto-falantes, mais uma parafernália da qual ainda não aprendi o nome e um dj, que toca reggae nacional e internacional. Quanto mais potente a radiola, mais público e daí mais moral entre os regueiros. Mas Leo Turbo, que para variar também nasceu no Maranhão, garante que não há competição entre as radiolas. “A nossa maior luta é pela valorização da nossa cultura”. Léo é um dos responsáveis pelo Clube do Regueiro, na rua Benedito Inocêncio, no JK. Essa é a caçula das casas de reggae de Porto Velho. Aliás, esses clubes abrem e fecham muito rápido. Quer dizer, não é tão rápido assim, elas vão no ritmo do reggae.

No início, a intenção do movimento regueiro da Jamaica era levar os negros de volta para a África, mas acabaram ficando lá pela ilha caribenha mesmo. Os regueiros de Porto Velho também não querem sair do gueto. Jhony, que já foi discriminado pela família pelo envolvimento com o ritmo, conta que ainda hoje a associação de Marley com a maconha faz algumas pessoas pensarem que nas casas de reggae tudo é liberado. O que não é verdade, “pelo menos aqui”, garante ele. Muita gente ainda tem medo de ir a uma casa de reggae, porque todas estão na periferia. E quando se fala que é na zona leste, a primeira imagem que vem à cabeça é da criminalidade, da violência, do perigo de andar nessas quebradas.

Mas Jamaica garante que não é bem assim. “Você pode vir aqui, tomar uma cervejinha com a gente, ninguém vai lhe bater, não vamos roubar seu carro nem mexer com sua mulher”. O convite não foi só pra mim. Foi para todos que ainda têm alguma dúvida em relação à camaradagem dos regueiros. Preço também não é problema. Em geral não se paga mais que R$ 5 para entrar nessas casas. Se você tiver a carteirinha do bloco Jamaica, não paga nada.

O som é sempre mecânico. A única banda de reggae da cidade, a Leão do Norte, preserva um estilo mais ligado a outro traço da cultura jamaicana: a religião Rastafari. A banda faz do som uma expressão religiosa e cultural. “O reggae é nossa vida”, afirma PV, líder e vocalista do grupo.

Marinalba dos Santos, de 21 anos, que curte reggae há dois anos, mora bem perto de uma dessas casas. Ela garante que o ritmo é a melhor maneira de se liberar dos problemas do dia-a-dia. É com a galera do reggae que ela esquece das ruas sem asfalto, da falta de emprego, de escolas e segurança para irmãos do gueto. No ritmo da Jamaica, a zona leste mostra para o outro lado da cidade que fazer cultura é mais do que fazer festa, é resistir, mesmo com o preconceito, com a falta de apoio e oportunidade.

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Erika Morais
 

Oi,
Bem legal conhecer, através de seu texto, a cena regueira de Porto Velho. Antes de vir para São Paulo morei grande parte da minha vida em Maceió (terra querida do meu coração) e consigo perceber muitas semelhanças com a cena rondoniense (é assim que escreve né?). Em Maceió, como já foi dito em algum texto do Marcelo aqui no Overmundo, o reggae é um fenômeno. Algumas bandas como a Vibrações Rasta possuem os maiores públicos do Estado. Em qualquer lugar que se apresentem é garantia de casa cheia. Mas é na periferia que o bicho pega, onde eu morava uma casa sim outra não tocava em alto e bom som os “melôs” que não tocam nas rádios (a não ser nas comunitárias) e as danceterias lotam nos fins de semana. Os riscos de uma briga ou um assalto são os mesmos do que em qualquer outra parte da cidade. O ingresso, na última vez que estive lá, há uns 4 anos, era R$ 0,50 – mulher e R$ 1,00 – homem (um pedaço de cartolina rosa e azul, respectivamente). Gente boa, DJ responsa e pra quem gosta de dançar, não falta nunca um par.

Erika Morais · São Paulo, SP 31/10/2006 16:40
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ministereo publico
 

êah mom, aqui na Bahia passamos pelos mesmos perreios, mesmo o reggae sendo uma música forte na cidade, capaz de incomodar os empresários da "axé-music".
Somos um Sistema de Som, uma "radiola" como foi citado no seu texto, que tem a música jamaicana como sua maior expressão. Tocamos roots, ragga, jungle e Dub, de forma intinerante percorrendo as ruas da nossa babylônia ambientando e informando os transeuntes.
Força na luta.
MiniStereo Público - Sistema de Som Perambulante.
Fayaka!!!

ministereo publico · Salvador, BA 13/11/2006 23:53
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