Revolução de Brinquedo

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Téo Ruiz · Curitiba, PR
19/3/2011 · 2 · 0
 

1964: golpe militar e início da ditadura no Brasil. Junto com 1968, talvez esse seja um dos anos mais importantes na história recente de nosso país. Até hoje temos consequências diretas desse período, positivas e negativas. Ainda repercute na mídia, por exemplo, a chegada da geração da resistência ao poder, protagonizada por Dilma.

Como todos os segmentos da sociedade, a arte foi diretamente atingida também. Mais especificamente sobre a música, meu campo de estudo e atuação, podemos dizer que houve uma participação ativa do setor no processo de redemocratização do país. Músicos e compositores que hoje são considerados grandes nomes da MPB sofreram perseguições e foram inclusive exilados.

Todas essas constatações são, acredito, óbvias e de compreensão geral. Entretanto, vale analisarmos também a consequência direta da ditadura na música, que vai desde a própria estética até a política. Na visão de muitos, a mobilização política dos artistas ou é inexistente ou é caótica. E realmente durante muito tempo foi e, de certa forma, ainda é. A música brasileira passou muito tempo preocupada em driblar a censura, fugir das perseguições, representar a juventude, enfim, ser uma voz contra o regime militar. De fato, várias de nossas melhores canções segundo muita gente são frutos da luta contra a ditadura. Talvez com exceção dos jovens militantes políticos, os artistas tenham sido a classe mais perseguida pelo regime. A mobilização política nunca foi um ponto forte dos artistas, e durante a ditadura os músicos, apesar de imersos em um ambiente político intenso, parecem ter ficado um pouco a margem do processo político em si. Por mais paradoxal que pareça, por esse fato, acaba sendo compreensível a “organização política caótica” que alguns analistas enxergam, somado a outros fatores como a boemia que sempre contribuíram para o estigma de amadores, despreocupados e “porra-loca” que os artistas têm perante a sociedade.

Mas hoje em dia precisamos ver os acontecimentos recentes sob uma outra perspectiva. A revolução digital veio para transformar de vez nossa sociedade. Até mesmo no mundo árabe, tradicionalmente contrário as principais práticas ocidentais, não se pode negar o inegável avanço da internet e outras tecnologias. E mais uma vez a música, por ser um setor extremamente flexível e frágil, absorveu diretamente os efeitos da digitalização, o que transformou profundamente suas estruturas de produção e até mesmo de criação. No Brasil mais ainda, sendo criada diversas alternativas de produção, divulgação e composição. De fato essa pode ser uma das razões pela qual a música está tendo tanta atenção da mídia nesse início de governo sendo, para alguns, inexplicável como uma área que ocupa uma parcela tão insignificante do orçamento da união (leia-se Ministério da Cultura – MINC) esteja gerando uma quantidade enorme de propaganda negativa para o governo Dilma. Essa distorção pode estar, finalmente, em cheque. Muito poucos estudos se dedicaram a medir efetivamente o impacto da música e da cultura como um todo no PIB nacional. E talvez agora muitas visões equivocadas, inclusive econômicas e mercadológicas, que foram sendo estimuladas durante décadas contribuindo ainda mais para o estigma mencionado anteriormente, estejam realmente com seus dias contados. Há pelo menos 20 anos que essa realidade vem mudando, e os músicos e a música estão exercendo, na prática, um papel mais ativo na sociedade. As profundas transformações do setor atingiram também a atuação política dos músicos, que passaram a estar cada vez mais atentos e dispostos a reivindicar sua fatia do bolo, mesmo que ela seja, para alguns, somente uma cobertura. E essa talvez seja a questão: será que é mesmo somente uma cobertura?

Ainda que seja aos trancos e barrancos, os músicos estão tendo que participar cada vez mais do processo político brasileiro. Muito longe ainda de ser um setor extremamente mobilizado, a música possui hoje uma interlocução real com o governo e com a sociedade. Principalmente desde 2005, com as chamadas Câmaras Setoriais, da qual a atual ministra da cultura foi uma das formadoras, diversos segmentos do setor musical vem se organizando politicamente para buscar seus espaços.

O inimigo comum que era representado pela ditadura era por si só um motivo que unificava todos os segmentos da sociedade. Sem esse ingrediente a bastante tempo, enfrentamos um processo natural de desmobilização que ocorre de maneira generalizada no ocidente capitalista. Cada classe entende seus problemas de uma forma e age de uma maneira diferente. A música, talvez mais atrasada que outros setores, titubeou e ainda busca se organizar frente aos inúmeros problemas que enfrenta em nosso país. Como não há mais contra o que lutar e se organizar, cada parte da sociedade foi se adaptando e se organizando da maneira que podia. A música teve seu grande impulso após a revolução digital, e a consequência dessa escalada é a repercussão que suas questões vem tendo perante a sociedade.

Vivemos hoje uma grande revolução de brinquedo, na qual mesmo que tudo mude para alguns, na prática, nada muda. Aliás, qualquer discurso de revolução, hoje em dia, parece muito vazio. Simplesmente não há revolução, e precisamos considerar que vivemos um novo período, com novos obstáculos a serem superados, sem um grande inimigo a ser vencido com armas, pedras e foices.

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