Rio de Janeiro em Liquidação

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andrecatuaba · Brasília, DF
19/7/2007 · 22 · 1
 





Em frente a Tenda Oficial dos Jogos Pan-Americanos, nas areias de Copacabana, centenas de ambulantes vendem camisetas, bonés, chaveiros e várias outras quinquilharias "alternativas" para o transeunte menos afortunado. Ao longo da orla, no caminho para Ipanema, vários hippies estendem seus trampos na calçada e traficam pequenas quantidades de maconha a um preço elevado, afinal "a gente tá na crista da raisosáite, aqui uma água com gás é dez real. Zona Sul, irmãozinho."
E não demora muito até um ambulante embriagado, que carrega no lombo dois isopores com cervejas (quentes), se abuletar no meio da roda e disparar seu conhecimento empírico sobre a macro-realidade do mercado sexual carioca. Como já bem divulgaram reportagens em todos os veículos de comunicação, se você subir o morro, vai encontrar maconha de cinco e pó de dez. Bagulho do bom. Já na praia, onde calmamente nos entamos para dar um pega e contemplar o sol que desce atrás dos prédios, a prostituição rola solta durante a noite. Nos inferninhos de Copacabana, as cafetinas oferecem suas mercadorias por cinquenta ou cem reais, dependendo da pinta do cara. Se a noite não render, às quatro da madrugada pivetes anunciam "xota de dez e cú de vinte" a plenos pulmões. Andando pelo calçadão, não é difícil pagar quinze reais por um suculento boquete à beira mar.
Kombis e Vans competem com taxis, ônibus e metrôs para transportar gente de um lado para o outro. A mítica Baía de Guanabara, por sua vez, exerce uma importante função de saneamento básico para elevar a qualidade de vida na capital: segundo esclarece André Vieira, na revista Zé Pereira, comprada a módicos dois reais na Livraria Travessa, no Centro, “O volume de esgoto que chega à Baía é de 470 toneladas por dia, o equivalente a um estádio do Maracanã transbordando de dejetos.”
Ainda assim, o Rio continua lindo: é a síntese do Brasil. Na Lapa, centenas de pessoas bebem, fumam e cheiram abertamente a poucos metros de viaturas policiais. A precária estrutura local não suporta a quantidade de gente que circula pelo reduto malandro. A macacada, de bexiga cheia, urina pelos vãos e pelas calçadas. Ao contrário de Salvador, famosa pelos seus saudosos “becos do mijo”, o Rio inteiro é um sanitário a céu aberto. As cariocas, sempre emancipadas e desencanadas, levantam as saias e batizam as ruas com suas urinas aquecidas pelo mormaço do “purgatório da beleza e do caos.”
No centro, um boleiro incrivelmente talentoso faz embaixadinhas de chaleira, de chapa, de peito do pé, de coxa, de peito, de ombro e de cabeça. Equilibra a bola no nariz enquanto samba e apita “Aquarela do Brasil.” Pipoqueiros vendem pipocas velhas. O passeio cultural, desta vez, foi vetado: funcionários da Biblioteca Nacional, do Iphan e dos museus estão em greve. Cruzam os braços, erguem faixas vermelhas e decretam que ninguém pode fruir pela história da cultura brasileira.
O Rio, sujo e emporcalhado, apinhado de gente, lotado de mendigos que circulam pelas ruas, elegeu um deputado de vanguarda, o Gabeira, do PV. Outro dia, foram dezenove presuntos em um só baculejo de responsa no Alemão. O rap alienado de D2 vende como água. O futebol carioca nos brinda com figuras do naipe de Eurico Miranda. Pelas ruas, não há nostalgia pelo Rio antigo de Tom e Vinícius. No caldeirão de suor e lixo, não há tempo para saudosismos. Monstruosas plataformas de petróleo não param no mar aberto. Pivetes vendem canetas, balinhas e panos de prato. A Rede Globo tenta convencer os incautos adolescentes brasileiros de que a juventude carioca é responsável, bronzeada, rica e antenada com o mundo globalizado.
No Rio de Janeiro, tudo está em liquidação. É a cidade mais corrompida e, ironicamente, a mais pura do Brasil em sua selvageria. Não há espaço para hipocrisias. Se não for, já é.













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Andre Pessego
 

Andre, belo retrato, sem retoque; quando muito lente de pouco alcance; céu sem horizonte. um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 21/7/2007 13:34
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