Ao divisar a micro-região seridoense, temos a impressão de contemplar terras do Oriente. Mas, apenas a impressão. A diferença está na alma do homem serrtanejo – seus desejos e desesperanças; seus saberes e crenças; seu amor e desamor.
Aos nossos olhos, sua paisagem agressiva de cactus espinhentos, arbustos ralos e secos contrastam com o pouco verde de árvores maiores, conferindo-lhe uma beleza singular. O ipê amarelo e roxo; as tamarineiras; os umbuzeiros; as craibeiras e mangueiras oferecem ao caminheiro sombra e frescor o ano inteiro. Pedras multiformes formam tapetes coloridos, desde a chã até os pÃncaros das serras.
De longe, as serras azuis parecem abraçar as cidades. Essa beleza é serpenteada, no inverno, por pequenos córregos ou riachos e rios, que depois se transformam em açudes, barragens e cisternas. Poços artesianos, perfurados pelo homem, possibilitam vida em tempo de seca. Dos cactus brotam flores alvas - como a flor do cardeiro, parecendo estrelas no anoitecer sertanejo! Faxeiros assemelham-se a dedos de um amarelo aveludado, em gestos que apontam para os céus como a pedir o milagre da chuva. As gitiranas, boa-noites, e resedás campesinas perfumam e colorem a paisagem em tempos de chuva. A visão de árvores mortas, ressequidas são temas para a criação de poetas, pintores, escultores e fotógrafos, que as registram com seus múltiplos olhares.
Ao amanhecer, borboletas coloridas dançam ao sol; pererecas e pássaros oferecem uma sinfonia, num espetáculo que parece nos dizer da sua liberdade e beleza, anunciando ao homem do campo que é tempo de começar suas lides. Dos currais, ouve-se o mugido das vacas e bezerros, atendendo ao chamado da voz/aboio do vaqueiro, ao cumprir a missão/legado da vida. Após esse ofÃcio, porteiras e cancelas escancaradas, o vaqueiro devolve os animais aos cercados, onde a rama e a babuje são suas frugais refeições. Mas isso acontece no inverno. Na seca, os campos verdejantes são permutados pela refeição no cocho - a comida de “hotelâ€.
Será verdade que o homem do Seridó é, “antes de tudo, um forte� Sim. É verdade que somos um povo diferente, fundamentados em valores que nos distinguem pela mistura da herança dos que primeiro pisaram este solo. Em nossas entranhas há uma força oculta - um misto do entusiasmo, da coragem dos povos que desbravaram nossas terras; e uma ternura paradoxal, uma alegria contagiante, um desprendimento, um amor sempre pronto à doação. Nosso coração é sempre receptivo a um abraço, um aperto de mão. Somos da paz. Somos um povo que abre as portas da casa aos visitantes.
Na ação de recepcionar, oferecemos a simplicidade e o melhor dos nossos verdadeiros alimentos sertanejos: rapadura, feijão macassar, batata doce, cuscuz, bolacha, paçoca, carne assada, farofa de bolão e água do pote. Um tamborete, um simples banco de madeira, uma espreguiçadeira, uma rede gostosa no alpendre são os sinais de nossa augusta tradição, marcas da gente e da terra.
À noite nossa conversa no alpendre ou na sala é franca, comprida, contando “causosâ€, estórias, anedotas. No terreiro, um sanfoneiro sozinho faz a festa. A cachaça esquenta o corpo, anima a alma, a palavra. E, noite a dentro, as alegrias, os bons momentos vão se misturando à s histórias de seca, de doenças, de botijas e de desejos nunca alcançados, transformando o grupo, tornando-o homogêneo nos pensamentos, emoções, sofrimentos e alegrias. E, ao raiar de um novo sol, as lides do campo retornam. E o homem do sertão repete o seu fazer ao calor de um dia escaldante. Limpa o suor da testa; olha pro céu e reza sempre: pede a Deus saúde e proteção para a famÃlia, e que mande chuva no dia de São José!...
E, depois, olha pro céu!...
Maria José Mamede Galvão.
Professora Aposentada da UFRN/Campus de Currais Novos
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) ·
S E R I D Ó: marcas do homem e da terra.
o homem do Seridó é, “antes de tudo, um forte�
Trabalho muito bonito.
Parabéns pelo texto fácil de entender a viagem pela famosa regiáo do S E R I D Ó.
Parabéns pelo transcurso feito de modo atraente mesmo sem uma foto, mapa ou ilustracáo. Seu texto superor essanecessidade.
Parabéns pela Sra Maria José Mamede Galvão.
Professora Aposentada da UFRN/Campus de Currais Novos.
Parabéns por sua capacidade incrivel de criar sem deixar pendéncias para trás.
Trabalho especial merece toda louvacáo
Abraco fraterno
Azuir, a dona Maria José, no caso, é minha avó. E pode deixar que eu vou colocar algumas fotografias da região para ilustrar melhor o texto. Obrigado pela visita antecipada. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/3/2008 16:14Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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