Samba de véio do Rodeadouro-Juazeiro-Bahia

Por Gabriela Cruz
Instrumentos do Samba de Véio.
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Gabriela Cruz · Juazeiro, BA
28/12/2007 · 47 · 2
 

RESUMO

Este trabalho buscou compreender os aspectos sócio-culturais, construtores da identidade dos moradores participantes do Samba de “véio†da comunidade do Rodeador localizado no município de Juazeiro-BA. Buscou-se focar a origem do Samba de “véio†até os dias atuais, como ele era praticado antigamente, como se deu o resgate desta forma de expressão cultural nos dias de hoje e como os moradores estão encarando esse ressurgimento. Devido ao pouco material a respeito do tema, realizou-se um exercício de observação na comunidade, buscando estudar os aspectos definidores das relações de identidade. Esta pesquisa resultou na promoção de uma integração maior entre os membros do samba de “véio†e com isso concluímos que existe um forte sentimento de pertença sobre esse símbolo, tornando um ícone da cultura local.

INTRODUÇÃO

A tradição de uma dança, ressurgida há pouco, veio abrilhantar e animar os moradores da comunidade do Rodeador, localizada a 13 km da sede de Juazeiro-Ba. O samba de “véio†teve origem no fim da escravidão. A palavra samba vem de semba e significa umbigada na língua dos escravos de Luanda que aqui chegaram no Brasil; é um samba batido com os pés, em ritmo sincopado com as palmas e o requebro dos dançarinos. Ele nasceu nos quilombos e hoje tem diversos focos pelo país, mas foi no povoado do Rodeador que ele teve suas primeiras manifestações.
Buscou-se estudar os aspectos definidores das relações de identidade entre os envolvidos no samba de “véio†e como eles conseguem manter esta cultura ainda viva. Analisou-se também como estes moradores vivenciam seu cotidiano junto a esse símbolo de identidade levando em consideração o sentimento de pertença que fortalece a união do grupo para manter tal tradição.
Sendo o samba de “véio†uma das mais antigas manifestações do folclore juazeirense, por muitos anos esteve às margens do esquecimento. Recentemente foi percebido o seu ressurgimento e por meio deste veio a curiosidade de saber o que o seu ressurgimento trouxe para a comunidade do Rodeador. Afinal, o que é o samba deâ€véioâ€?
Essa pesquisa teve como relevância documentar esse movimento a fim de oferecer à comunidade um registro da sua cultura, e para mim, desenvolver um estudo a respeito do grupo e conhecer mais dessa dança tão bonita e envolvente.
A pesquisa se deu no período de agosto a novembro, sendo utilizada, a observação, o estudo do contexto histórico e cultural, entrevistas, filmagens e fotografias.
É possível observar a tradição que eles mantêm naquela comunidade, mesmo entre os que não fazem parte do grupo samba de “véioâ€. O desejo de preservar as lições do passado coloca os mais idosos bem próximos dos jovens e é possível ver até crianças mostrando com entusiasmo os primeiros passos do samba. Há uma constante preocupação de preservar o que vem dos escravos, mesmo com as influências de novos costumes.
Na medida do possível os fatos aqui relatados são reproduções exatas de nossa pesquisa visando a compreensão de todos os envolvidos através dos tempos.


COMPONDO UMA TRADIÇÃO

Samba, é resultado de contribuições rítmicas predominantemente negras. Segundo Luís da Câmara Cascudo, um dos veículos da umbigada foi o Lundu, Landum, pai do Fado português, dança popular no Brasil, indispensável nas reuniões familiares. Com ritmo saltitante, acompanhado de viola, possuía um caráter irônico e brejeiro.
Cultura popular está ligada à tradições, costumes, ações do cotidiano e valores, é uma cultura de origem histórica, portanto natural, aparece associada ao povo, às classes excluídas socialmente. Ela não está ligada ao conhecimento científico, pelo contrário, diz respeito ao conhecimento vulgar ou espontâneo, ao senso comum. Segundo AGUILAR (2000, p.64-75) “A obra de arte popular constitui um tipo de linguagem por meio da qual o homem do povo expressa sua luta pela sobrevivência. Cada objeto é um momento de vida. Ele manifesta o testemunho de algum acontecimento, a denúncia de alguma injustiçaâ€
Por isso, também, a arte popular é sempre contemporânea ao seu tempo. O mais importante nela não é só o objeto produzido mas também o artista, o homem do povo, do meio rural ou das periferias das grandes cidades. É o que acontece com o Samba de “véioâ€, um grupo de uma vila periférica, de pessoas simples que dão extremo valor ao ato de produzir o samba.
A historiadora Nilza Botelho Megale (2001) afirma que a origem das festas está no uso que se encontra em todos os grupos humanos, de dividir o tempo em fases distintas, havendo ritos especiais para marcar o dia que assinala a passagem de um período para outro. Assim, entre os povos primitivos as principais festas coincidem com o início da primavera, a colheita dos frutos e o fim dos trabalhos agrícola.
E acrescenta: “A tradição é a alma do povo. Povo sem tradição é como árvore de raiz doente. Quando a raiz da árvore está doente, suas folhas murcham e caem, os ramos apodrecem e a árvore morre.†“...toda a cultura tem uma dignidade e um valor, que devem ser respeitados e protegidos em sua fecunda variedade, em sua diversidade e pela influência recíproca que exercem uma sobre a outra.â€
Através da educação e como resultado de trabalhos escolares, é possível observar o envolvimento de crianças e jovens em busca de proteger suas raízes. A pesquisa vai enriquecer todos nós pelas implicações antropológicas, sociais e também psicológicas que nos tem levado a um conhecimento mais profundo de uma tradição tão próxima de nós.
Segundo o difusionismo, que foi uma escola antropológica que tentou entender a natureza da cultura, em termos da origem da cultura e da sua extensão de uma sociedade a outra. O empréstimo cultural seria um mecanismo básico de evolução cultural, ele defendeu que as diferenças e semelhanças culturais eram causa da tendência humana para imitar e a absorver traços culturais.
A diversidade cultural explica-se pelas relações de empréstimo e não pela invenção independente. Franz Boas defendia que a difusão não se processava, apenas, do centro para a periferia, mas em qualquer direção, entre os diversos grupos humanos.
É resultado de contribuições rítmicas predominantemente negras.
A umbigada é uma pancada com o umbigo nas danças de roda, como um convite intimatório para substituir o dançarino solista e tem a maior documentação para dizer-se de origem africana. Em Portugal ocorre no fandango e no lundu, como uma invitation à la dance, como vemos na punga do Maranhão, nos cocos de roda ou bambelôs e em certos sambas.
Atualmente o Samba de véio é formado por um grupo basicamente descendentes de negros de religião católica. Não existe faixa etária, contata-se a presença de jovens, acabando-se com o preconceito de antes existente em relação à idade, com as mesmas formas de instrumentos e batuques dos seus antepassados. A animação é feita com tamboretes produzidos por eles mesmos com o couro de bode, pandeiros e triângulo.
A marcação do ritmo é forte, feita através dos sapateados e das palmas. Sua origem africana está intimamente ligada à formação de quilombos. Os negros que ao fugir das senzalas se reuniam em locais distantes e para passar o tempo ocioso, cantavam. Segundo a historiadora Maria Isabel – Bebela (2006), o Samba de “véio†surgiu em 1766 junto com a cidade de Juazeiro, trazido pelos escravos que se instalaram na vila do Rodeador que antes era um quilombo.

DA ESTAGNAÇÃO AO RESSURGIMENTO

Um fato interessante observado entre os membros do samba de “véio†foi que, por alguns anos, essa prática foi esquecida pelos seus moradores da comunidade pois seus membros antigos foram morrendo e não houve um interesse dos mais jovens em perpetuar essa forma de cultura.
O samba de “véio†já era considerado uma tradição quase extinta, ressurgindo graças aos esforços da professora Lucimeire, que, no ano 2000, passou a dar aulas noturnas para os adultos da comunidade. Ela perguntou a respeito das tradições do lugar, conheceu o samba de véio e passou a estimular os adultos a relembrarem seus cantos e batuques. O trecho abaixo reafirma esse contexto:

É o samba de véio, como eu já tinha falo né, que era assim, só uma aqui coisa da comunidade, mas com a chegada de uma professora aqui na comunidade, ela fez um trabalho né, sobre a cultura com os alunos e aí com esse trabalho, e aí apareceu... falaram do samba de “véio†e como era, e ela começou a trazer pra sala de aula, fazer uma apresentação pra ela ver, e ela gostou e aí então nós ficamos como que fosse um trabalho, e aí nós com a continuação do tempo, nós construimo assim... formamos uma associação né, tem a associação com o documento e tudo (Dona Ovídia- membro do grupo de samba de “véioâ€.)


Após esse trabalho a coordenadora do grupo, Maria Perpétua Batista Miranda, com seus amigos componentes, tomaram a resolução de revitalizar o grupo, oficializar e hoje ele está estruturado. Fazem participações em desfiles, apresentações para TV e eventos da comunidade.
O grupo hoje é constituído de 32 membros sendo 20 mulheres e 12 homens, 05 que tocam tamborete, 02 pandeiristas e 02 cantores, que são a professora Ovídia Izabel de Sena e Laudilino Adolfo de Miranda, basicamente descendentes de negros, de religião católica. Não existe faixa etária, constata-se a presença de jovens, acabando-se com o preconceito de antes existente em relação à idade com a mesma forma de instrumentos e batuques dos seus antepassados.
O Senac - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, em parceria com a FAO/ONU - Food and Agricultural Organization/Organização das Nações Unidas e o Ministério da Integração Nacional, lançou, no dia 14 de dezembro de 2005 na cidade de Juazeiro, o Programa PRODUZIR - Organização Produtiva de Comunidades. O Programa teve por objetivo capacitar as pessoas envolvidas na área de turismo e hospitalidade, (no caso o samba de “véioâ€) e, conseqüentemente, promover a melhoria da renda e da qualidade de vida das pessoas.

A comunidade do Rodeador e os membros do Samba de véio, apesar de desenvolverem atividades ligadas ao turismo, necessitavam melhorar os serviços oferecidos. Participaram do evento representantes do poder público local, um Técnico do Ministério da Integração Nacional, e a equipe do Senac/ Centro de Unidade Móvel, composta pela Gerente e a interlocutora do Programa, Graça Rocha, pela coordenadora do PRODUZIR, Vânia Ribeiro e a técnica Greth Carvalho.
Para desenvolvimento das ações, as técnicas do Senac, foram fundamentais e imprescindíveis parcerias, não só do instrutor, mas da comunidade local. O trecho abaixo diz respeito a fala do instrutor do curso na comunidade:

A gente começou a trabalhar com eles, primeiro, resgatando historicamente o que é que eles tinham de lembrança. Eles não têm quase nada escrito, e aí a minha preocupação é o que se perde com o tempo, então você fica na base da oralidade, a gente fez um resgate, eles fizeram painés, e hoje teve uma mudança[...] (Hélio José Amorim Gomes – Instrutor do Senac).


Segundo Fernando Carvalho, presidente do Conselho Regional do Senac,o Projeto Produzir vem contribuindo para a redução do desemprego e melhorando a qualidade de vida de sua população, proporcionando seu progresso por meio do desenvolvimento econômico e sustentável no município.
O curso durou até o mês de fevereiro e foi de muita valia tanto para os instrutores como para os membros da comunidade do Rodeador.

EM RITMO DE LIBERDADE

Samba de “véio†é feito a base cantos, com voz solo e coro, palmas, pandeiros, triângulos e, como percussão principal e um dos elementos de identidade, tamboretes feitos de couro de bode, que, em dias normais, servem como assento mesmo. Aparentemente, só existe samba de “véio†na região de Juazeiro. Dona Ovídia Isabel de Sena, professora aposentada que agora organiza o samba e faz o solo junto com Laudelindo Adolfo, diz que a expressão samba de “véio†surgiu para nomear um tipo de samba em certa época somente por velhos.
A música Izabé é um samba de roda de uma estrofe e um refrão. Nas gravações realizadas por Nélson de Araújo em Pequenos Mundos (Capim Lelê, Juazeiro, 1986), aparece esta estrutura, também encontrada nos sambas de esmola cantadas no Recôncavo: um solista lança versos improvisados, alternando com o coro que faz um refrão fixo. Via de regra o samba de véio se inicia com a quadra: “Ou dono da casa/ Ele é bom ele dar/ Se não der hoje/ Amanhã ele dar†. A tradição é característica da região do Salitre, principalmente no povoado de Gangorra, desde os tempos dos avós dos atuais participantes. Alguns moradores antigos afirmaram que o Rodeador é a povoação mais antiga que a própria Juazeiro, uma espécie de quilombo. Alguns versos do samba vêm dessa época, outros foram compostos depois e alguns podem ainda surgir de improviso.
Com indumentária adquirida com recursos próprios, o samba sai no período de Reis, na festa de São José, padroeiro do Rodeador, em festas juninas e natalinas.
A apresentação do samba de “véio†é iniciada com louvação ou pedido de licença aos donos da casa ou espectadores com a cantiga O dono da casa. Com a licença dada, o batuque se inicia. Forma-se um círculo de dançarinos ficando em redor o público, cada um em seu momento vai ao centro dançar. Num bamboleio sereno do corpo, marcado por um pequeno movimento dos pés, da cabeça e dos braços, mas sempre com um toque de singularidade.
Estes movimentos aceleram-se conforme a música se torna mais viva e arrebatada, e em breve admira-se um prodigioso remelexo de quadris, que chega a aparecer impossível poder se executar. Quando os primeiros pares se sentem extenuados, vão ocupar os seus respectivos lugares no círculo e são substituídos por outros pares através de um movimento de convite ao centro da roda conhecido como umbigada. Descrito no trecho abaixo:
Em Luanda [...] constitui também o batuque, num círculo formado pelos dançadores, vindo para o meio um preto ou uma preta que, depois de executar vários passos vai dar uma embigada (o que chamam de semba) na pessoa que escolhe entre os da roda, a qual vai pro meio do círculo substitui-lo.†(Alfredo Sarmento, Os sertões D’Africa, Lisboa, 1880 apud Dicionário Sesc).



Em determinado momento da dança, no calor da festividade, uma dançarina vai ao centro da roda equilibrando maestramente uma garrafa na cabeça, numa desenvoltura descomunal. Segundo a historiadora Bebela esta garrafa era com água que simbolizava o sonho de liberdade pelos escravos.
Hoje o que representa a antiga garrafa com água é uma garrafa de cachaça que depois dos batuques é bebida pelos participantes.
Os moradores da comunidade se orgulham muito de suas raízes, a grande maioria, até os que não participam, admira e prestigia muito o samba de “véioâ€, excetuando apenas alguns jovens que segundo eles “não vêem graça†no movimento.

DE PAI PARA FILHO

O esforço exercido pelos integrantes do grupo para reestruturação do samba de “véio†na comunidade do Rodeador corre risco de novo desaparecimento. Essa tradição local, que sempre foi passado de geração em geração, sofre hoje com o pouco interesse dos jovens em aderir a essa cultura.
Pela ausência de investimentos e a própria necessidade de um meio financeiro, os jovens perdem o interesse por tal cultura, sobrecarregando também, o fato da diversidade de movimentos culturais, fazendo com que haja a identificação e a atração dessa nova geração por essas novas manifestações. Eles afirmam, inclusive, que sentem uma certa “vergonha†em dar continuidade ao Samba de “véio†pois julgam ser uma dança para idosos e adultos, e que não despertam neles o desejo de participarem.
Mesmo com tal rejeição dos mais novos, os integrantes mais velhos do grupo buscam sempre incentivá-los no esclarecimento do real valor histórico, cultural e na própria satisfação/realização íntima ao participar e se integrar no samba de “véioâ€; por conseguinte conseguiram atrair alguns jovens para participação. Segundo o relato abaixo:
É, sempre a gente tá estimulando porque, a gente num é eterno né, é, a gente já têm uma idade avançada então é, tem que estimular os mais novos pra que essa manifestação não morra né, e a gente, no grupo da gente nos já tem, nós já temos alguns jovens né, que já tão participando, e às vezes até criança que acompanha a gente aonde a gente vai... (Dona Ovídia – membro do grupo Samba de “véioâ€.)

Assim, fica estabelecida a certeza da continuidade de uma tradição antiga, mas ainda pouco conhecida.

CONCLUSÃO

A pesquisa que se encerrou, possibilitou ampliar sobremaneira, a visão em torno de um tempo tão amplo e complexo como o da cultura popular do samba de “véioâ€. Viu-se como o conceito de altura sofreu uma ampliação no sentido de abarcar as sociedades fora do mundo ocidental, compreendendo a partir do estudo, a possibilidade de pensar a cultura popular para além de sua materialização em objetos, ou modelos culturais. A intenção, era de estudar as estratégias de um grupo, cuja prática musical se inscrevia dentro do que convencionalmente se chama de “cultura popularâ€. Objetivou entender, por exemplo, como a prática do samba de “véio†, realizado naquela comunidade, ocorria dentro de um cenário contemporâneo sujeitos ao impacto da globalização e de sua própria manutenção.
Por fim nos pareceu bastante útil pensar em embates simbólico e materiais que ocorrem na comunidade do Rodeador em torno do samba de “veioâ€, a luz das conceituações que estudamos para realização do trabalho.

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Andre Pessego
 

Gabi,
Sou um apaixonado das histórias, da cultura que desenolveu em torno de Juazeiro e vizinhança, deixa ir no Parque correr já volto e vou ler. um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 29/12/2007 07:48
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Cintia Thome
 

Texto e informação das mais importantes que li no Over. Salvei para mandar para amigos.Parabens ela colaboração. Voto.
abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 29/12/2007 10:07
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