Criado por ingleses, o futebol chegou ao Brasil a mais de cem anos e, assim como o samba, se tornou símbolo de brasilidade
Esporte mais praticado no país, o futebol adquiriu um status de patrimônio cultural no Brasil, construído no dia a dia nas conversas entre colegas de escola e trabalho, nas discussões anteriores aos jogos, nas provocações feitas aos perdedores e, em um sentimento quase que familiar entre os torcedores do mesmo time de coração, um irmão na dor ou na alegria.
“O que mais me fascina é que pessoas estranhas parecem antigas amigas nos momentos de ameaça de gol, existe uma explosão de alegria contagiante. Sentia-me impelida à confraternização, a troca de abraços e sorrisos, como todos os outros. A experiência de união, de compartilhar o amor por uma mesma camisa, pelas mesmas cores, de respeitar uma mesma tradição de glórias passadas e presentes permitia que cada um de nós se reconhecesse na multidão. Na formação de uma consciência, entre os torcedores, de um nós contra os outros”, declarou a Prof.ª Dr.ª Fátima Antunes, na introdução da sua tese de doutorado “Com Brasileiro Não Há Quem Possa”.
Quando chegou ao país, o futebol era praticado apenas pela alta sociedade da época, o novo esporte passou a ser praticado e incentivado nos colégios da elite. Pouco depois, o futebol começa a ser praticado pela classe média e pelas classes populares – muitas vezes com bolas improvisadas, feitas com meias ou bexigas de boi. O esporte passou a ser muito praticado em terrenos baldios por pobres e negros que não freqüentavam a escola. E foi se tornando cada vez mais popular, atraindo um publico cada vez maior.
Para o antropólogo Roberto DaMatta, o futebol tornou-se uma instituição nacional, assim como é a cachaça, o carnaval e o samba. Segundo ele, o futebol servia como meio de integração social, onde ricos e pobres respeitariam as mesmas regras, “lá, ao contrário da experiência corriqueira do brasileiro, as leis não podem ser mudadas por quem está perdendo nem por quem está ganhando”. Assim, havia um grande interesse da população, produzindo um espetáculo complexo, mas governado por regras simples que todos conhecem.
Os anos 60 e 70 foram de extrema importância para a consolidação do futebol como paixão nacional e da imagem do Brasil como país do futebol, o país ganhou duas Copas do Mundo neste período e, começa-se a serem disputados os primeiros campeonatos nacionais de futebol. Em meio à ditadura militar, o Brasil vence a Copa do mundo de 1970 - primeira copa a ser transmitida ao vivo pela televisão. E, a partir desse período o futebol ultrapassa os domínios apenas esportivos e se torna um elemento de promoção de interesses políticos, econômicos e sociais mais abrangentes. O que leva muitos governos a utilizarem esta paixão para realizar manobras políticas.
A Prof.ª Dr.ª Fátima Antunes destaca que, nas sociedades contemporâneas, a importância do esporte, neste caso, o futebol, é cada vez maior. Pois os espetáculos esportivos têm-se revelado lugares propícios à constituição de identidades coletivas, sejam elas de grupos ou nacionais, uma vez que permitem a adaptação de diferentes arranjos e experiências de integração social.
Assim, a cada quatro anos, quando acontece a Copa do Mundo da FIFA, o país inteiro se mobiliza para os jogos da Seleção. Do comércio à administração pública, todos têm seus horários adaptados para que possam torcer, esbravejar, se emocionar e festejar com a seleção “canarinho”. A paixão do brasileiro por futebol fica ainda mais aguçada, mais empolgante e “brasileira” do que nunca. A importância dada é tanta que, Nelson Rodrigues na crônica seguinte à primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil, comentou, “Dizem que o Brasil tem analfabetos demais. E, no entanto, vejam vocês: A vitória final, na Copa as Suécia (1958), operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. Todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita, para poder ler a vitória no jornal.”.
Entretanto, uma coisa causa grande preocupação à cultura do futebol brasileiro. Cada vez mais, as classes sociais com menor poder aquisitivo, vai sendo obrigada a se afastar dos estádios. Os preços exorbitantes dos ingressos – dentre outros fatores, não “cabem” no orçamento de grande parte da população que, acaba assistindo os jogos do seu time de coração apenas pela TV. Assim, o futebol que sempre pertenceu ao povo brasileiro, tem a cada dia se afastado mais desta raiz cultural e social brasileira.
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