Sente-se o rescaldo do sol

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Os Retiranres
1
Paulo Silas · Fortaleza, CE
4/2/2011 · 14 · 0
 

Palavras que retratam minhas impressões sobre o livro “A Fome†do autor cearense Rodolfo Teófilo.



O dia findava-se, as ondulações crepusculares esmoreciam nas cristas dos outeiros, e as sombras, se elevando da terra, dominariam tudo.
Rodolfo Teófilo, A Fome - pág. 40.

Ah ... Que sol traiçoeiro a queimar a pele! Que tristes estradas poeirentas! Que macabros corpos alquebrados pelo sofrimento! Que ventos secos a bater nos rostos já tão abatidos pelo descaso dos céus! Ah... Quantas florestas de espinhos! Quantos arbustos de galhos ressecados! Quanto abandono! Quanta sequidão...

Até as plantas sentem a falta do líquido da vida. Caem as folhas e apenas restam as ramas a bracejar nos ares deste torrão. Os animais correm desesperados pelos matagais. Gritam as vozes da natureza que pressentem os dias vindouros. Chora o animal e o humano...

Por que os céus esqueceram estas terras e as deixaram nestas tão desastrosas turbulências? Aonde foram as águas? Terão se escondido bem abaixo da terra? Por que fugiram destas redondezas? Que fizeram as pessoas para serem tão impiedosamente castigadas?

Sente-se a dor e sente-se o calor. Vê-se que sobre a terra o vulto da desgraça paira e espera os momentos dos últimos desesperos. Os urubus riem ante aos infelizes e aterradores prognósticos. A terra suspira insatisfeita porque logo terá de engolir os corpos que cairão sem forças. As casas começam a chorar o silêncio da ausência de seus moradores. Estão abandonadas porque abandonados foram todos... Restou aos habitantes do quentíssimo interior do Ceará de 1877 uma única e alucinada decisão: Caminhar longas distâncias até Fortaleza e lá buscar ajuda! Mal sabem que pouco ou nada obterão...

Assim vão as pobres almas deixadas à mercê das inquietações do clima: cabisbaixas, curvadas pelo dias de infinda caminhada, menosprezadas, preteridas à fome e à sede avassaladoras, desprezadas por quem poderia estender ao menos as mãos do compadecimento...

E encontram sobre as ruas da Fortaleza de 1877 tudo aquilo que pensaram ter deixado para trás. Pois é ali que acaba a vida da pobre alma: sob uma árvore, no acampamento improvisado, nas ruas inclementes, ao pé de alguém que a enxota com vil comportamento... Pois é ali. É ali que só começa o mal e que rápido termina a vida. É ali que tudo acaba...

Um inclemente sol turva a visão:
Triste dor vai subindo de manhã...
Todo o ardor que cai sobre o duro chão,
Pois tão-somente sobrou a mucunã.

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