Cabisbaixo, caminhava pensativo...
...a vida errante, a famÃlia se dissolvendo e os amigos, distantes.
Procurava uma resposta, algum sinal
em meio ao turbilhão de pensamentos invasores. Ia ao âmago, em busca da causa dessa angústia consumidora e depressiva.
Trespassava os portais[1] e, mesmo assim, não encontrava solução.
As idéias, outrora visitantes, sumiram. Quase pisava numa carta enquanto andava em direção a um portal. Porém, antes de adentrá-lo, as cartas do baralho de Frode[2] ascenderam na memória. Um lampejo surgido no giro do tufão mental. Parou! Pensou. Uma carta esquecida e perdida, do jeito como se sentia. Voltou vacilante para apanhá-la. Só pode ser um curinga, desejou...
Um baralho possui 52 cartas (13 por naipe) mais um curinga. O curinga é carta fora do baralho, não pertence a nenhum naipe e na maioria dos jogos é descartado, não faz falta.
Virando-a recebeu uma descarga de satisfação e alÃvio. Um homenzinho com chapéu e roupas coloridas, cheio de guizos. Sentava-se na concavidade da lua crescente e olhava através de um binóculo. Era um curinga!
Segurando-o firme, atravessou o portal. Do outro lado, caminhava sem parar de olhá-lo. Seria apenas mais uma carta para a maioria das pessoas, menos para ele.
Um tipo de “bobo da corte†sentado na lua e olhando além, com um binóculo, não poderia ser uma mera cartinha. Cada baralho possui o seu curinga. É uma carta única e diferente de todas as outras, é Ãmpar! Parece não pertencer a nenhum naipe, mas pertence à todos.
É um ser diferenciado. Enxerga aquilo que os outros não vêem, com distanciamento, amplitude e profundidade. Questiona sobre a razão de sua existência, do lugar onde vive e das relações sociais.
A busca pelo conhecimento é constante, não cessa.
Ele quer ser curinga. Ele é um curinga. Essa foi a resposta, o sinal (geralmente)...
“... pouco percebido pelas mentes não sintonizadas com o processo universal da interrelação nos movimentos quânticos, dentro da inquietação vibrante do Cosmo.â€[3]
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[1] Espécie de passagem para outra dimensão onde a pessoa se sente livre das impurezas, avarezas e opressão presentes na sociedade. Essa dimensão é qualquer lugar onde a pessoa se sinta verdadeiramente bem e despreendido. Esquece dos problemas, encontra soluções e tem idéias boas e criativas.
[2] Personagem de Jostein Gaarder em O dia do curinga. Leia o livro e saiba mais.
[3] Gusmão, Ernane N.A. Sincronicidade e acasualidade – uma visão holÃstica da vida. In: URSA MAIOR: ensaios. Salvador:_____, 2004. p.51.
Olha, um dos bons textos que li esta semana no blog.
- O elemento comparativo, baralho, facilitou muito, enormemente o entendimento do texto, um abraço, andre
oh, André...!!! Fico feliz em tê-lo agradado, muito mesmo. Mas, tenho uma dica que considero legal. Como vc gostou da comparação, o livro que cito na nota de referência, traz um desenvolvimento muito bom tendo as cartas como figuras "centrais". O cara desenvolve até um calendário com o baralho...
Guigo F.G. · Salvador, BA 4/9/2007 14:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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