Sertão da Bahia: artes visuais modificam paisagem

Franklin Carvalho
Alan Damasceno conduz oficina no Centro Cultural
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Franklin Carvalho · Salvador, BA
19/8/2014 · 0 · 0
 


O festival de artes visuais “Arte por toda cidade” encheu de cores a paisagem tradicionalmente cinza do sertão da Bahia nos últimos dias 9 e 10 de agosto. Um projeto que atraiu artistas de Salvador, Feira de Santana e território do sisal utilizou os talentos de jovens locais para transformar as paredes de escolas, do Centro Cultural e outros muros do Município de Araci, nordeste do Estado, em grandes painéis, pintados ou grafitados. O ponto alto ocorreu no domingo, quando um videomaker nativo, Danilo Victor, reuniu educadores, donas-de-casa, crianças e idosos para assistirem a uma projeção de Video Mapping (animação com fotos e grafismos) sobre a fachada da cinquentenária capelinha da cidade.


Todo o projeto vinha sendo concebido há aproximadamente três meses pelo professor e produtor cultural Pedro Juarez Pinheiro, que conseguiu financiamento da Fundação Cultural do Estado da Bahia, através do edital Calendário das Artes e teve apoio da Secretaria de Cultura local e do Centro Cultural de Araci. Segundo ele, a ideia foi transformar o ambiente urbano em galerias de artes a céu aberto, tornando-o mais sensível e belo, para que isso possa provocar nas pessoas reflexões sobre os temas apresentados através das intervenções, além de promover um encontro entre artistas da cidade e da região.

Compareceram integrantes do coletivo MUSAS (Museu de Street Art de Salvador), grafiteiros de Feira de Santana, artistas da cidade de Serrinha, Teofilândia e Barrocas.

A comunidade reagiu positivamente: “Vai ter gente querendo tirar foto em frente ao carro de boi que fizeram na antiga batedeira de sisal”, disse um morador. “Desenharam um coração perfeito em frente à Secretaria de Educação, com todos os detalhes”, exclamou outro, com apenas uma ressalva: “pintaram um pássaro de três olhos, não entendi o porquê, deve ser pra olhar pra vários lados”. Num parquinho em praça pública, crianças paravam para ver o trabalho dos grafiteiros e gritavam “vem ver os pichadores”. A secretária de Cultura da cidade, Gauba Rejane elogiou a dinâmica do grupo: “Eles não param nem quando a noite cai!”.

O artista plástico araciense Gerdson Santos, que dedica a vida a trabalhos de arte-educação, à restauração de imagens sacras e à decoração de festividades, orientou crianças, jovens e alunos na produção de um painel na frente do Centro Cultural. Enquanto não termina, no local, a construção do esperado teatro da cidade, a alegria das cores toma conta do lugar. “Gosto de desenhar à mão livre, sem régua, sem limites. Isso para mim é uma terapia”, afirmou Gerdson. Entusiasmado, ele citou as vantagens que vê no projeto “Arte por toda cidade”, o despertar do interesse na arte, a preservação da juventude contra as drogas e a descoberta de novos talentos. Como educador, ele entende que, mesmo os jovens relegados à marginalidade e às drogas possuem talentos, e necessitam somente de incentivo para darem vazão à sua criatividade.

Enquanto os artistas pintavam pela cidade, uma oficina de Graffiti com Alan Damasceno, artista de Serrinha, ensinava uma turma a fazer, no papel, seus primeiros rabiscos, no caso, letras (“tags”), que depois levariam aos muros. Alan reconhece que o grafite acaba sendo uma forma de arte cara, devido aos preços dos sprays, por isso repassou também outras técnicas para os alunos da oficina que conduziu.

Acostumados a intervenções em comunidades carentes, os membros do MUSAS (veja mais informações em www.ilovemusas.com) fizeram questão de usar em Araci as mesmas regras que aplicam em outras localidades: talento, utilização de tintas mais baratas e temas modernos, sempre ligados à realidade local.

O fotógrafo Edson Machado, que tem 25 anos de atuação, mora em Feira de Santana e já atuou em outros projetos culturais em Araci, ministrou uma oficina para 20 jovens que conheceram noções de estética fotográfica (composição, enquadramento, contraste etc.) e sua relação com a história da arte. Na tarde de sábado, depois da aula e durante um passeio fotográfico com a turma, Edson ainda não sabia o que podia esperar, mas na manhã do domingo, ao ver, com os alunos, os trabalhos que eles produziram, estava empolgado. “Vamos fazer uma exposição. Continuem produzindo e enviando para o nosso e-mail. Quem sabe a gente faça outra e mais outra exposição na cidade”, arrematou.

Video Mapping - O agricultor octagenário Zezito da Chã, que se tornou mais conhecido na cidade depois que seu livro de poemas rurais foi publicado pelo Centro Cultural de Araci, enfrentou o frio da noite de domingo (19º C, com sensação térmica de 17º C, no sertão é como neve) para assistir a uma maravilha do mundo moderno. Não se arrependeu. A projeção do videomaker Danilo Victor alternou fotografias em preto e branco dos antigos moradores, paisagens da história da cidade, registros da cultura popular e outras animações bem ao gosto do húngaro Victor Vasarely, e juntou tudo isso com uma mixagem que ia desde o forró à techno music.

A exibição ao ar livre, que começou e foi concluída com a projeção de estrelas, tema preferido de Danilo Victor, conquistou o público. Não faltaram convites para que ele repetisse a mostra ou levasse o trabalho para outros espaços. Victor explicou que para cada ambiente é preciso uma produção diferente, e não se fez de rogado: “Mas pode agendar, eu faço de novo, quero investir nessa técnica”. No fim da noite os integrantes do “MUSAS”, foi fazer um novo grafite nas paredes de Araci.

Por Franklin Carvalho

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