You are here, there and everywhere

Orlando da Rosa Farya
"Almoço na relva", por Orlando da Rosa Farya
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Erly Vieira Jr · Vitória, ES
4/10/2006 · 171 · 2
 

Orlando da Rosa Farya, o Lando, é pintor, fotógrafo e videomaker. Em atividade desde a década de 80, talvez seja o artista residente no Espírito Santo com maior repercussão internacional hoje em dia. Embora utilize suportes tão diversos para seu trabalho, dá pra se perceber um forte diálogo entre as três vertentes da obra de Lando.

Podemos falar aqui de uma identificação de seu trabalho com uma atitude semelhante à do expressionismo: “um sensibilidade forte, uma intuição forte, uma relação com o imediato, não-premeditado, um embate com o momento, com o inusitado”, justifica Lando.

Ele ainda aponta essa identificação em seus vídeos, nos quais ele aproveita exatamente esse acaso, essa maneira de organizar o caos urbano, dentro das limitações da câmera: uma imagem estourada, uma câmera muito incisiva que “entra na pessoa”, nervosa, incômoda, resultante do momento, da situação em que o registro se desenrola.

Em diversos momentos, um zoom in extremo, que poderia soar a olhos desavisados como um “defeito” (segundo a cartilha clássica da imagem), pode revelar a riqueza escondida numa imagem de baixa definição, em que o contorno azulado, esverdeado e as cores estouradas que surgem nesse momento jamais se assemelhariam às de uma imagem naturalista. Chega a parecer com uma pintura, penso eu. E Lando completa: “É como se fosse um confrontamento com os limites da máquina, ela impõe suas limitações e eu dialogo com elas”.

No documentário Brilhantino, dirigido por Ériton Berçaco dentro do projeto Revelando os Brasis, do Ministério da Cultura, Orlando assumiu a captação de imagens. O resultado é uma sucessão bastante instigante de ângulos de câmera inusitados, uma luz estourada e diversas câmeras baixas buscando enquadrar o franzino “protagonista”: “A figura dele impunha isso”, afirma. Buscou-se aqui interagir diretamente com a paisagem, com a mata ao redor da caverna em que o velho Brilhantino reside sozinho há muitos anos.

O mesmo podemos observar nas fotografias. Lando desregula as configurações da máquina digital, explorada em seus extremos de resolução. Enquadra uma parcela da realidade, levando em conta a composição, luz, cores, e clica. Em seguida, ele acompanha uma a uma as impressões em jato de tinta, observando a maneira como a máquina interpreta essa informação obtida pelo olhar do artista através da câmera. Para Orlando, tudo isso também é pintura.

E Lando costuma fotografar pinturas, nas mais diversas acepções do termo, sejam elas cascos de navios enferrujados, paredes descascadas, fachadas de prédios, colagens, grafites em espaços urbanos, ou até mesmo telas em exposições de arte — quase sempre com a presença do público, no momento das vernissages. “Enquanto a máquina imprime, ela está refazendo esse mesmo processo de aplicação da tinta em determinadas superfícies”, afirma.

Uma série que chama bastante a atenção dos espectadores é composta de diversas releituras de obras de arte canônicas, como o Retrato do Papa Inocêncio X, de Velásquez, reproduzido com 3 metros de altura (ou seja, em dimensões muito maiores que as originais). Nela, a luz do flash assume a forma de uma massa branca em grandes dimensões, denunciando a presença do fotógrafo no momento da execução da foto. Outra apropriação bastante interessante é a do Almoço na relva, de Manet, que ganha a participação de mais um elemento durante o evento retratado: um espectador que observava a obra, e que agora é parte da fotografia produzida por Lando. Essas e outras obras foram apresentadas no Museu Ferroviário Vale do Rio Doce (Vila Velha, ES), dentro da exposição Passagens e itinerários da arte, em 2005.

Geralmente resultantes de visitas a espaços expositivos em grandes centros mundiais, essas fotografias primeiro surgem pela necessidade de trazer material para as aulas na Faculdade (Lando é professor de pintura e vídeo no curso de Artes Plásticas da Ufes). Foi também por uma necessidade de criar espaços para a discussão da produção artística na academia que surgiu o democrático projeto Quanto mais arte melhor, série de exposições temáticas reunindo mais de cem artistas por edição, realizadas semestralmente desde 2000.

Aqui, ali: todo lugar reserva uma oportunidade de registro, como os casebres de Milagres, no interior da Bahia, local visitado por Orlando durante o lançamento do projeto Revelando os Brasis, em agosto de 2004. Essas imagens foram reproduzidas em gigantescas lonas, instaladas nas paredes externas do galpão do Museu Ferroviário, durante a coletiva Casa: poética do espaço na arte brasileira, realizada em 2004, com curadoria de Paulo Reis. Essas fotografias, dadas suas dimensões, e a privilegiada localização do Museu à beira-mar, quase um cartão-postal em plena baía de Vitória, puderam ser observadas em diversos pontos da cidade, proporcionando uma intensa intervenção na paisagem urbana.

Esse mesmo trabalho foi exposto este ano, dentro do projeto Copa da Cultura, em Berlim, na Galeria Weisser Elefant. Prevista para terminar em julho, a exposição continua em cartaz, por conta da grande aceitação do trabalho pelo público, uma vez que ele está exposto no jardim externo da galeria, invadindo aos poucos o imaginário dos cidadãos berlinenses, já que muitas pessoas têm ido à galeria para fotografar os trabalhos: “Dia desses, uma amiga minha que mora na cidade me enviou um e-mail relatando que uma atriz bastante em voga por lá escolheu o jardim da galeria como local para dar uma entrevista para a televisão alemã, exatamente em frente às minhas fotografias”, confirma Lando.

A exposição You are here, realizada atualmente na Galeria Matias Brotas, em Vitória, consiste numa série de quarenta fotografias ampliadas em grandes formatos, doze delas retratando grafites em muros e espaços públicos de Berlim, resultado da viagem do artista para participação na mostra no projeto Copa da Cultura. Ou seja, cada viagem rende material para futuras exposições, aqui, lá, onde quer que seja. Curiosamente, a primeira máquina fotográfica que ele possuiu foi estreada numa viagem de férias, aos 14 anos, para São Paulo, exatamente fotografando pinturas no Masp.

Assumindo o papel de um flaneur moderno, em constante movimento, Lando aproveita para registrar também o movimento alheio, seja nas fotos de trens, metrôs e pessoas em se locomovendo o tempo todo, seja em videoartes como Trip, exibido no festival Videobrasil em 2001, cujas múltiplas camadas de imagens sobrepostas, que surgem e desaparecem aos poucos, sintetizam bem essa interação entre pintura e movimento. Seja na tela, na fotografia, no vídeo, aqui, ali, acolá, Orlando da Rosa Farya está em todo lugar.

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sol casotti
 

Adorei conhecer o trabalho do Orlando! Quero ver mais.

sol casotti · Rio de Janeiro, RJ 7/10/2006 10:40
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Pereira
 

É uma artista bastante eclético, mais um dos muitos valores existente no Espírito Santo. Parabéns Overmundo, pois, está possibilitando que o próprio Estado, o Brasil e o mundo, conheçam mais e melhor a arte, como também a cultura brasileira produzida no Espírito Santo (copiando aqui o Amigo Rogerinho Borges - www.espiritosantobrasil.com.br - rádio web só com musica produzida no ES) .

Pereira · Serra, ES 21/2/2007 09:31
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Fotografia de Lando, integrando a exposição zoom
Fotografia de Lando, integrando a exposição "You are here"
Fotografia de Lando, integrando a exposição zoom
Fotografia de Lando, integrando a exposição "You are here"
Convite da Exposição zoom
Convite da Exposição "You Are Here", de Orlando da Rosa Farya

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