Sobre a bossa nova

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absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ
26/5/2007 · 132 · 1
 

Trabalhar com projetos culturais tem lá suas vantagens. Neste fim de semana, por exemplo, fui incumbido da missão de ir à Conservatória, distrito de Valença (RJ), para acompanhar a 6ª edição do evento Noite da Bossa Nova, que acontece anualmente por lá e que, neste ano, teve show de Roberto Menescal e Wanda Sá.

Conservatória, apropriadamente conhecida como capital da Seresta, é um ótimo lugar pra quem gosta da música de nossos cantadores e seresteiros. Suas casas emplacadas com nomes de músicas, seus restaurantes com comida caseira e música ao vivo, suas serestas semanais que agregam locais e visitantes numa espécie de procissão musical, enfim, são fatores tão aconchegantes que acabaram dando a este parágrafo uma cara de matéria de revista de viagem e turismo.

Mas minha intenção era falar da bossa nova, estilo musical surgido no berço da classe média carioca dos anos 1950 a partir de uma apropriação do samba por estes segmentos, e com alguma pitada do jazz norte-americano – ou, como querem os que compram o discurso elitista, uma “sofisticação” do samba (este sim música popular, pois que produzido pelas chamadas “classes populares”).

O nascimento da bossa nova está registrado nos sulcos do vinil Chega de Saudade, de João Gilberto, mais precisamente no jeito de tocar violão que este músico desenvolveu: enquanto o dedão faz, nos bordões do violão, a marcação mais forte do segundo tempo do compasso – característica magna do samba –, os outros dedos puxam as cordas agudas em ritmo sincopado. Ou seja: as notas graves reproduzem o tempo do surdo, enquanto as agudas fazem as vezes de tamborins. Esta adaptação do ritmo percussivo do samba para as harmonizações violonísticas foi essencial para a consolidação da bossa nova como estilo ímpar de execução musical, influenciando praticamente todos os gigantes do violão que surgiram posteriormente, como Baden Powell e seu também ímpar estilo (aproveito para recomendar, veementemente, especial atenção ao violão dos afro-sambas de Baden e Viníncius de Moraes).

Mas há um elemento extra, bastante arraigado ao estilo bossanovístico de se tocar e também importantíssimo para marcar a identidade sonora do estilo: trata-se de cantar e tocar o violão bem baixinho, quase sussurrando. O motivo disso é explicado por Carlos Lyra ou Roberto Menescal (não lembro qual dos dois) no filme Coisa Mais Linda: é que naquele tempo a explosão da especulação imobiliária deu início a uma onda de construções de edifícios (que perdura até hoje) com apartamentos menores e com menos isolamento acústico. A solução, para evitar as reclamações de vizinhos e chamadas policiais, era tocar e cantar cada vez mais baixo, o que logo se transformou em característica marcante.


Ou seja: nada mais avesso à bossa nova do que o furdunço provocado pelas rodas de samba nos botequins e lares da zona norte e dos subúrbios da cidade – as mesmas rodas de samba que outrora serviram de argamassa para a construção do estilo musical que, ironicamente, ficaria conhecido como Música Popular Brasileira.

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Gabriele
 

Gabriele · Rio de Janeiro, RJ 25/10/2008 23:08
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