... deu um toque driblou o goleiro” ¹
Vi uma recente propaganda do Nike T90 Laser. O texto dizia exatamente isso:
“Chute com mais agressividade. Faça cada passe ser decisivo. Controle a distância e a velocidade do chute com anéis de precisão da T90 Laser e mostre o que você é capaz de fazer com a bola.”
Ou seja, cerveja, a solução está numa Nike T90 Laser. O presidente do Vitória devia comprar uma pra cada jogador. O time seria campeão do mundo. A chuteira faz tudo.
Vou comprar uma para meu sobrinho para ele ir fazer um teste no Milan. Vou virar seu agente.
Quando eu era da quinta série, a frase mais dita na quadra de futebol era “rápido antes que os caras da sétima cheguem”. No turno vespertino, os caras da sétima eram os mais velhos do Colégio Anchieta. Se a bola saísse pela lateral, caísse do outro lado ou qualquer outra coisa que não fosse com a bola em jogo, dizíamos “rápido antes que os caras da sétima cheguem”. E quando os caras da sétima chegavam, já era.
– Cabaôôô, cabôôô... – diziam eles ao entrarem, de galera, na quadra.
Alguns de nós ainda tentavam lutar pelo direito de jogar, mas não restava muitas opções a não ser resignar-se e esperar chegar o dia de ser um cara da sétima e poder, enfim, bradar o grito de liberdade “cabôôô”.
Eu nunca fui, digamos assim, um craque... sempre estive no nível de um jogador mediano, que pelo menos corria... Mas também não era o último a ser escolhido. Porém, sempre gostei do jogo e de jogar.
Uma época, meados dos 90, tinha um baba toda segunda e um outro todo sábado. Jogando sempre, é natural que a cada jogo haja uma melhora, porém, subitamente, parei de ir a esses encontros. Não tinha mais vontade. Quanto maior a faixa etária do baba, mais violenta eram as confusões no gramado. E, muitas vezes, chegavam as vias de fato.
“Vá tomar no cu, mermão, vá se fuder, você que não voltou pra marcar” é a frase mais dita e ouvida.
As pessoas entram numa espécie de transe futebolístico e passam a acreditar que estão jogando no Santiago Bernabéu, e não na quadra do prédio onde mora um colega de trabalho, com imagens televisionada para o mundo todo.
A diversão estava diminuindo e parei de ir.
Uma vez, estava andando pela orla do Barravento e fiquei vendo o jogo de futebol da praia. Já vi algumas brigas ali, mas nesse dia vi um menino de aproximadamente oito anos, do lado de uma das traves, assistindo o jogo dos adultos. Num contra ataque, a bola passou pelo gol e parou longe. O chute foi forte. O menino foi correndo buscar a bola e voltou com ela nos pés, driblando zagueiros imagináveis ao mesmo tempo em que narrava o próprio jogo e fazia a sonoplastia de torcida de futebol:
– Lá vem ele, passar por um, passar por dois, a torcida vibra “aaaaahhhhhh”...
Ele foi driblando e quando chegou na hora de devolver a bola para que o jogo fosse recomeçado, ele entrou no campo e chutou pro gol do tal goleiro que esperava a bola. Na verdade, deu só um toquezinho, pois ele entrou no campo rente a trave. Saiu comemorando com os braços abertos como se fosse voar, fazendo zigue-zigue, imaginando que o mundo inteiro o assistia e que o mundo todo era dele. Isso durou pouco mais de um segundo, quando o goleiro, que estava com pressa, gritou com raiva “porra, você é viado, é? vou te dar um cascudo, seu porra”, fazendo o menino acordar e voltar pro seu lugar ao lado da trave. Não sabia ele que eu estava assistindo. Me arrependi de não estar com uma câmera e me arrependi de não ter perguntado seu nome pra imortalizá-lo aqui.
Quando eu estava no 3º ano colegial, estudava no PhD e, num sábado, ao sair tardiamente de uma prova, fui interpelado por um dos donos do colégio e também professor de biologia, Caio.
– Porra, vai ter que ser você – disse ele ao me ver.
– Hein?
– Tá tendo o campeonato dos colégios e nosso goleiro não veio. Sumiu. O jogo é cinco e meia, daqui a meia hora, aqui na quadra – disse ele, jogando uma camisa verde, azul e branca, as cores do colégio.
Eu estava fudido em biologia e com esse jogo podia me dar bem. Ou não.
Achei melhor não arriscar, a chances de me dar mal eram maiores... Ia inventar um compromisso qualquer:
– Pô professor, não vou poder não, tenho...
– Nada, porra nenhuma... Luiiiiisss, já achei um aqui. Cury vai ser nosso goleiro – disse ele me interrompendo e gritando a Luis Freitas, também dono do colégio e professor de física, que já tinha encontrado um goleiro.
Luis saiu de sua sala empolgado. Uniforme completo. Short, tornozeleira, meião, chuteira... Eu também estava fudido em física e a única coisa que fiz foi rezar. Para minha sorte, o colégio estava vazio.
O jogo era Professores do PhD X Funcionários do Oficina.
Na rodinha pra dar as mãos antes do jogo começar, Luis soltou a frase de motivação “precisamos dos três pontos pra continuar no campeonato, vamos dar raça, hein”.
“E eu que tô precisando de nove pontos em física e 8,5 em biologia pra continuar no campeonato?”, pensei.
Caio, que levava o campeonato tão a sério quanto o ensino, botou a mão em meu ombro, olhou no meu olho e, de alguma forma, respondeu minha pergunta:
– Dê raça.
Tremi. Até hoje não sei se ele ouviu meu pensamento e falou isso em relação ao jogo ou aos estudos.
O jogo começou calmo e até os dois minutos eles não chegaram do nosso lado. Quando chegaram, fizeram um ataque meeiro, sem sucesso, que saiu pela linha de fundo. Coloquei a bola em jogo e no ataque seguinte, gol de Caio. Ele comemorou com socos no ar, fez aquele gesto “yeah” e bateu na mão de Luis e dos outros professores que eu não conhecia. Eram das turmas do ginásio.
Passou o tempo e o time da gente dominava, a bola não chegava perto de mim, o que era bastante satisfatório. Rolou um escanteio que a zaga tirou e só. O nosso meio campo dominava, mas o ataque perdia os gols. Acabou o primeiro tempo. 1 X O.
No intervalo, todos comentavam as jogadas, os defeitos, o que tava bom, o que devia ser feito para que o time melhorasse em campo... Negócio profissional.
– Você tem que entrar mais pela meia esquerda, pois os zagueiros estão marcando por zona e assim Luis pode ficar como um volante armador... – disse Caio pra um professor.
E eu pensando que os próximos 15 minutos decidiriam a minha vida.
Recomeçou o jogo. De primeira, o cara soltou uma bomba, a bola veio vindo, vindo... “me fudi” foi o que pensei nos milésimos da trajetória da bola, mas ela explodiu na trave.
– Goleiro bom tem sorte – gritou um cara que estava assistindo. O jogo dele era o próximo.
Era incrível como o nosso time perdia gol. O time deles estava fraco. Antes do jogo eles ficaram conversando em voz alta, dizendo que Beto e Formiga estavam contundidos e não puderam ir ao jogo. Faltando dois minutos pra acabar, o nosso meio campo falhou pela primeira vez em toda a partida. Contra ataque fulminante. Três deles vindo em minha direção. Corriam com raiva, vontade... o que estava com a bola tocou de lado pra outro que estava mais a frente e ele veio vindo e quando chegou perto, deu um chutão... pensei de novo no clássico “me fudi” e me joguei. Se jogar é o canal numa hora dessa. Se for gol, você se jogou. Ninguém pode reclamar. E se você defender, melhor ainda. E melhor ainda se for no time dos seus professores.
PUTAQUEPARIU.
Milagrosamente, eu espalmei a bola e PUTAQUEPARIU, ela parou nos pés do que vinha pelo meio e PUTAQUEPARIU, ele já chegou chutando. Me joguei de novo (fazer o quê?) e PUTAQUEPARIU, eu, inacreditavelmente, espalmei de novo e PUTAQUEPARIU, caiu no pé do mesmo cara, que chutou com mais raiva ainda e PUTAQUEPARIU-VA-TOMAR-NO-CU-NINGUÉM-VOLTA- PRA-MARCAR NESSA-MERDA-NÃO, É?
“Putaquepariu, vá tomar no cu, ninguém volta pra marcar nessa merda não, é?” foi o que eu disse, com toda autoridade a mim conferida, desde o instante em que eu, ao me jogar ao léu no terceiro chute, não sei como, encaixei a bola.
Após esse brado cheio de moral, ouvindo os aplausos dos que estavam de fora, junto com um “esse goleiro é bom, goleiro bom’ do mesmo cara que disse que eu tinha sorte, eu vi Caio gritando “boa Cury” e pedindo a bola efusivamente, pois queria que eu tocasse rápido, pra pegar o time adversário de surpresa e ainda abalado pelo ataque perdido.
Toquei rápido em sua direção, mas, sem querer, inacreditavelmente, eu toquei um tanto fraco... a bola parou no pé do cara que tinha chutado duas vezes. Ele não aceditou. Mesmo me jogando, o placar da minha moral marcava menos um. O jogo acabou 1 x 1.
O time somou um ponto no campeonato e ficou de fora das finais.
Já eu, fui pras finais de física e biologia. Passei, mas tive que dar uma raça da porra.
Ultimamente, tenho recebido diversos convites pra jogar bola. Sempre as mesmas pessoas, que jogam em um mesmo baba. O Baba do Rock. Desde meados de 2006 que digo que vou e nunca vou. O jornalista Tiago Ramone; Dudare, baixista da Vinil 69; Ted, guitarrista da Starla; Gil, baixista da Los Canos e baterista da Cissa Guimarães, o também jornalista Luciano Matos... todos, sempre nos dias de jogo, me mandam mensagens, e apesar das minhas constantes desculpas, eles não se cansam de me convidar.
No dia 18/07/07, eu recusei dizendo “porra, hoje tava perfeito pra eu ir, mas estou sem carro, o baba é no Imbuí, moro na Ondina, e blá, blá, blá...
Passaram 15 minutos e Dudare ligou dizendo que me daria carona.
Quatro anos sem jogar bola. Nem roupa eu tinha. Fui de bermuda jeans e um tênis que escorregava mais que a pista de Congonhas.
“Ah, é o Baba do Rock, todo mundo amigo, só diversão...”
Mas ao chegar lá, já avistei um cara, que eu não conhecia, de shorts, tornozeleira, meião e chuteira.
Se no baba tem um cara de tornozeleira, meião e chuteira tudo fica diferente. Alguém ali leva a coisa a sério.
A quantidade de pessoas era suficiente para dois times e meio. Três pessoas ficariam de fora, esperando pra enfrentar o vencedor da partida que seria de 10 minutos ou dois gols.
Luciano Matos era um dos que estavam escolhendo no par ou ímpar e fiquei pirado, pois ele é o que mais insistia pra eu ir e não me escolheu, me deixando na partida de fora.
Os dois times foram escolhidos e ao entrarem no campo para começar o jogo, se deram conta que já estavam ali, jogando bola bem antes deles, “os guris”. Provavelmente, achando que não precisava, ninguém entrou dizendo “cabôôô, cabôôô”. Acharam que o silêncio e a idade já seriam suficientes. Os “guris” ficaram no campo e rolou aquele impasse, onde os mais velhos disseram algo como “e aí gurizada, vai rolar o baba aqui, beleza?”.
Nada de beleza, os guris bateram pé firme, queriam jogar também. Então, pra resolver logo o problema, um dos “velhos” resolveu a situação dizendo “vamos jogar então a primeira com eles, rapidinho, só pra eles brincarem”.
Um time teve de sair e agora eram dois times de fora. E ninguém contava que a seleção sub-15 jogava bem. Os “velhos” não conseguiam acompanhar a correria e os meninos sobraram em campo.
Na regra do futebol amador, quando o jogo está empatado, se der 10 minutos, saem os dois times, e como tinha dois times de fora, a gente entraria na partida seguinte. Porém, quando dá 10 minutos, o jogo não acaba de vez e sim, só quando a bola sai pela linha de fundo. É a conhecida “última bola fora”. Deu 10 minutos, estava empatado e a bola saiu. Acabou o jogo.
“Cabôôô”, gritamos nós, de fora.
Mas os que estavam de dentro disseram que estava errado, que não iam sair, pois ninguém ouviu a frase “última bola fora”. Realmente, saber que é a última chance faz o jogo ficar diferente. O cara disse que se ele soubesse que era “última bola fora” teria mais cuidado pra não desperdiçar o ataque... a adrenalina interfere...
Depois de algumas partidas com a seleção sub-15 dando canseira, finalmente entrei em campo e percebi que jogar bola não é como andar de bicicleta. No primeiro lance que peguei na bola, na zaga, fui em direção ao meio campo e perdi a bola pro cara que tava de tornozeleira, meião e chuteira. Gol.1 x 0. Percebi que era melhor eu ficar no gol. Nosso time melhorou com a minha alteração tática e empatamos. Numa bola que subiu e veio em direção ao meu gol, Ted gritou “é sua Cury”. A bola era fácil de pegar, mas pra que porra Ted foi gritar isso? Tive que ir na bola com o triplo de concentração. Peguei a bola, tenso, mas peguei.
Não vou contar detalhes dessa vez, mas ao repor a bola em jogo, sem querer, mais uma vez, joguei nos pés do cara do outro time. Sim, no pé dele, do de tornozeleira, meião e chuteira. 2 x 1.
Achei melhor não jogar mais. Percebi, mais uma vez, que ficar de fora assistindo é mais divertido, inclusive, faço questão de ir de novo pro Baba do Rock, mas da próxima vez vou levar uma câmera pra filmar as jogadas. Ou vou comprar um Nike T90 Laser.
O problema do Baba do Rock é que no fim do jogo ninguém discutia sobre futebol. O assunto era mais louco ainda, pois era o recorrente tema “Qual a solução do rock baiano, pra que ele chegue um dia na Série A do campeonato brasileiro?”.
Acho que vou filmar essa conversa também.
Em tempo: eu tô querendo fazer um “VT” pro livro que estou finalizando. Uma espécie de anúncio pra colocar no Youtube antes do lançamento. Pode ser que seja um curta de 30 minutos... ainda estou estudando as possibilidades e fazendo testes. Num desses testes, capturei uma imagem (link abaixo) bastante inusitada. Preste atenção, desde o início do vídeo, no cara de camisa branca. Ele recebe a bola do goleiro, passa por um, vai passar por outro mas perde a bola e aí...
Esse vídeo, de apenas um minuto e 17 segundos, ilustra, de alguma forma, esse texto. E ilustra também que nem todo Ronaldo tem um Nike nos pés.
Link do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=6grcULNEsnM
Essa imagem foi feito no dia 10/07/07.
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(1) Titulo do texto é citação de Fio Maravilha, música de Jorge Benjor.
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