"Um Affair Passageiro"

Rafael Pesce
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Rafael Pesce · Porto Alegre, RS
30/8/2006 · 80 · 1
 

Ela é francesa. Ele é inglês. Ela é loira, com o cabelo nos ombros, olhos azuis e o inconfundível charme francês. Ele é alto, um tanto quanto desengonçado, cabelo médio e levemente bagunçado. Ela usa vestidos, seja no inverno ou no verão. Ele não foge do básico: sapato, calça jeans, camiseta com estampa legal e casaco de terno com risca de giz. Ela gosta do Godard. Ele gosta dos Kinks. Ela mora em Nova York. Ele mora em Londres. Ela vai para Londres. Ele vai encontrá-la por acaso. Sim, eles vão ter um affair!

Era uma típica tarde Londrina, Mark deixava a Marc & Spencer (famosa cadeia de lojas de roupas) rumo a parada de ônibus. Seu humor não era dos melhores. Havia dois anos que ele trabalhava no mesmo lugar, e seus colegas de trabalho continuavam a importuná-lo com trocadilhos referentes ao seu nome e o da loja. Para piorar a situação, era inverno. Seus dedos estavam congelando, e apesar de serem cinco da tarde, a noite já se fazia presente. Flocos de neve começaram a cair junto com o cortante vento que gelava a todos na rua. O ônibus 149 demorava a chegar, e Mark escutava em seu I-Pod o BBC Sessions dos Kinks. Enquanto seus ouvidos eram entretidos por Ray Davies e companhia, seus olhos não se desgrudavam de uma bela moça que tentava atravessar a tumultuada Essex Road, carregando sacolas de compras das mais diversas butiques inglesas. Atraído por aquela figura angelical que aparecera em seu caminho, Mark não pensou duas vezes ao oferecer ajuda para a linda mulher.

- Olá! Parece que você não comprou o suficiente hoje...
- O que???
- Hum...perdão, estava só sendo irônico. Na verdade eu ia te oferecer ajuda com todas essas sacolas. (Pelo visto ela não gosta de ironias, mau começo).
- Ok! Sabia do popular senso de humor britânico, só não imaginava que seria vítima dele logo no meu primeiro dia aqui. Vou aceitar a sua ajuda, se pudermos ir até a próxima quadra, estou no Hilton aqui de Angel.
- Claro! Será um prazer te acompanhar. A propósito, meu nome é Mark.
- Sophie!
- Prazer!
- Prazer!

Eles chegaram ao Hilton. Ela subiu com as compras. Ele ficou na recepção. Ela demorou alguns minutos. Ele viu algumas mulheres nuas no The Sun e leu as notícias esportivas do The Guardian. Ela desceu. Ele ainda estava lá. Ela o convidou para tomar um café no bar do hotel. Ele aceitou imediatamente.

Uma das primeiras coisas que Mark percebeu foi o sotaque peculiar de Sophie. E a pergunta foi inevitável:

- Você não é daqui, certo?
- Não...moro em Nova York, mas nasci na França.

(França...uma francesa!? 10 milhões de pessoas circulando por Londres e eu encontro logo uma...uma....uma francesa!! Meus antepassados certamente não aprovariam).

Mas era tarde demais. O charme e exuberância de Sophie impediam qualquer tentativa que Mark pudesse ter de querer odiá-la. Trocaram mais algumas palavras, onde ele contou sobre a sua rotina diária de trabalho e ela falou da estressante vida de uma artista plástica que está passando alguns dias na Europa na esperança de relaxar um pouco. Ele aproveitou a deixa, e pediu se ela gostaria de ir com ele a algum pub ou boate. Ela já conhecia Londres de uma outra viagem, roteiros turísticos não se faziam necessários nesse caso. O inglês então propôs:

- Eu gostaria de te levar para um dos meus lugares preferidos, o 100 Club, ali no centro de Oxford.
- Hum...mas o que tem lá?
- Um grupo novo vai tocar. Chamam-se Pipettes.
- E o que eles tocam?
- Ah...na verdade são elas. Três meninas com vestidinhos de bolinha que emulam girl groups dos anos 60, aquela coisa meio Motown, acho que você vai gostar!
- Confesso que é um programa nada usual para mim.
- E se estivéssemos em Paris, para onde você me levaria?
- Ah, para uma corrida no Louvre, como no Bande a Part do Godard!!

Sophie não sabia o que era Motown. Mark não tinha idéia de que filme e diretor a francesa estava falando. Os dois pegaram um metrô até Oxford Street e rumaram para o número 100. Compraram os ingressos (como um bom cavalheiro, ele pagou), desceram as escadas, assistiram ao show, subiram as escadas e voltaram para a estação de metrô.

- Bom, acho que nos despedimos por aqui. Quero acordar cedo amanhã para aproveitar meu último dia em Londres. À noite pego meu vôo de volta para os Estados Unidos.
- Bem, acho que isto é um adeus.
- Você quer que seja?
- Hum...não sei, você quer?
- Acho que não.
- Concordo com você.

Era quase meia-noite, por sorte conseguiram pegar o último metrô para Angel. Foram para o Hilton e subiram para o quarto de Sophie, onde tomaram champagne francês, se embebedaram como ingleses, e passaram uma noite inesquecível juntos. Acordaram por volta das duas da tarde no outro dia. Ao sair do hotel, pararam no primeiro restaurante que encontraram e pediram por um Fish & Chips. Enquanto as mãos engorduradas pegavam as batatas, Mark disse para Sophie que havia um último lugar em que ele gostaria de levá-la. Pegaram um ônibus e foram para Waterloo.

- Sei que não vai fazer muito sentido para você, mas eu precisava ver o pôr do sol aqui em Waterloo.
- Realmente não faz muito sentido. Mas eu já desisti de tentar te entender...agora eu apenas estou tentando passar esses últimos momentos ao seu lado da melhor maneira possível. (risos)
- E está conseguindo?
- Pode apostar que sim.

Com um último beijo, selaram o derradeiro encontro, enquanto o sol ia se pondo vagarosamente ao fundo. Em dois dias, finalmente o caminho dos dois toma um rumo diferente. Mark pega um ônibus de volta para casa, mas durante o trajeto recebe uma mensagem no celular: “Oi amor...a mamãe já está melhor, estou voltando para Londres amanhã. Me espere com a janta feita. Te amo”. Sophie pega um metrô e volta para o hotel. Chegando no hall de entrada, pede para o recepcionista se há algum recado para ela. O funcionário entrega um bilhete para a francesa com os seguintes dizeres: “Onde anda a minha esposa linda que não dá notícias? Te pego amanhã no aeroporto, um beijo. Te amo!”.
Mark e Sophie estavam cada um de um lado da cidade, mas o pensamento deles era o mesmo – “Quando será o meu próximo affair?”

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Ana Cullen
 

Gostei bastanta...o texto me prendeu a atenção. Mas...essa mesma história podia se passar no Brasil, ou na América Latina...ah, sei lá....tá bom assim!

Ana Cullen · Brasília, DF 29/8/2006 11:49
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