Um país (ainda) mal educado

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WhoIsGuilherme · Rio de Janeiro, RJ
16/11/2014 · 1 · 0
 

Entra ano, sai ano e a educação continua a capengar por todos os cantos desse país. E os problemas extrapolam os limites de escolas, cursos e universidades. Algumas poucas pesquisas não ajudam a fornecer um panorama da situação nacional, e é preciso analisar diversos números para conseguir compreender a quantas anda a nossa educação.
Dentro da imensa gama de problemas, os principais estão na escola pública. Elevados índices de repetência e abandono da escola são encontrados quando o sistema público de ensino é destacado. Em uma tentativa de abarcar a todos estruturalmente, os modelos educacionais no Brasil foram sendo enxugados, divididos e tratados como meros distribuidores de conhecimentos fixos e imutáveis, e a escola pública sofreu fortemente ao adotar esses modelos. O Estado não trata a educação de forma estratégica e as secretarias estaduais e municipais usam-na como centro de trocas politicas.
O grande problema da educação pública (e não só desta) é na quantidade de dinheiro que é inserida nesta área de investimento e no pouco reflexo e retorno que é percebido. Em 2013, o Governo gastou R$ 91,3 bilhões na Educação. Porém, sem um Plano Nacional de Educação (PNE) vigente, os investimentos ficam concentrados e desvios se tornam comuns. A gestão educacional do Brasil é considerada por muitos especialistas uma das mais ineficientes do mundo.
Além de a questão financeira pesar contra o sistema de ensino, há também as questões sociais e culturais envolvendo a educação, não só pública, mas particular também. Desde a época do Império, a educação possui um caráter elitista, e ainda hoje alunos com alta renda média ocupam a maioria das vagas de colégios particulares, mas alcançam a maior parte das vagas de universidades públicas, enquanto estudantes pobres precisam batalhar por uma vaga nas instituições particulares, existente em quantidade maior que as públicas, mas cujos custos dificultam na manutenção dos cursos por parte desses alunos.
É preciso analisar em partes as deficiências do sistema educacional brasileiro para entendê-lo. No ensino fundamental, apesar do Brasil ter alcançado a universalidade de acesso, em termos de qualidade de conteúdo, os problemas continuam. A infraestrutura permanece deficiente, com muitas escolas desativadas, outras sendo de difícil acesso e poucas possuindo laboratórios e itens de infraestrutura previstos nas leis. Novamente a questão da gestão ineficiente surge, mas agora com adicional pouco retratado país afora: a má formação de professores e o desinteresse pela carreira de docente. A mesma estrutura que já carece de material de apoio ao educador, não fornece uma boa qualidade na formação superior do mesmo, além de uma igualmente baixa remuneração aos mestres. O piso nacional, que não é cumprido por grande parte dos municípios, é de apenas R$ 1697.
Por não oferecer um sistema de capacitação de professores, o Brasil vê o mesmo cenário de ineficiência e desprezo pelo magistério do ensino fundamental no ensino médio. Se no fundamental as taxas de repetência foram reduzidas ao longo dos últimos anos (95% de aprovação em 2013), no ensino médio a situação é muito diferente, pois além uma taxa de 25% de reprovação, apenas 50% dos que iniciam terminam essa fase, e quase 15% dos que poderiam estar estudando estão fora da escola. Dentre os diversos fatores que levam os estudantes a abandonar os estudos nessa fase da vida estão as dificuldades financeiras, a dificuldade de locomoção até as escolas, métodos de ensino ultrapassados aliados a um currículo desinteressante ao aluno, o alto índice de repetência e uma baixa participação dos pais na vida escolar dos filhos.
Dentre todos os problemas enfrentados, os piores são o desinteresse do aluno pelo estudo e a pouca participação familiar na vida escolar do aluno. No caso dos pais, a responsabilidade é colocada completamente sobre o Estado, quando a sociedade e a família precisam participar ativamente do processo educacional. Com esta atitude, os pais se eximem de qualquer responsabilidade e exibem um desinteresse semelhante ao dos alunos do EM. O currículo nacional, reformulado nos últimos anos, ainda é extenso demais para apenas três anos, e com professores mal formados e remunerados, a didática utilizada em sala de aula é a mais desmotivadora e desatualizada possível, com temáticas que pouco abordam a realidade e não exploram a tecnologia e a linguagem moderna a qual o aluno está inserido. O modelo brasileiro mantém as disciplinas de forma homogênea, não havendo quase nenhum espaço para a interdisciplininariedade e para o raciocínio crítico. O aluno acaba não sendo valorizado por seu intelecto e criatividade, mas por sua capacidade de armazenar o conhecimento de forma superficial e organizada de acordo com os pilares da instituição. Os professores, por sua vez, não exploram as múltiplas capacidades que seus alunos demonstram, e moldam, com o auxilio do Estado, os estudantes meramente em direção ao vestibular e a aquisição mecânica do conhecimento em aula. Outro problema desse modelo é a visão padronizada por parte de docentes em relação aos alunos e suas questões culturais e sociais.
Dentre as varias soluções que vem sendo buscadas, deve-se destacar a crescente valorização do docente e as mudanças (ainda que lentas) nos modelos de avaliação e de aplicação de conteúdo a alunos e escolas. Na tentativa de oferecer oficio profissional a alunos do ensino médio, o Governo investe há anos em Escolas Técnicas Federais (ETF) e Estaduais (ETE), além de fornecer cotas raciais, sociais nas universidades públicas e programas de inclusão de alunos de escolas públicas no ensino superior. Nada disso, porém, surtiu nem surtirá efeito imediato nas pesquisas qualitativas Brasil afora. O sistema educacional permanecerá defasado e desinteressante enquanto Estado e sociedade não se movimentarem para aliar educação e realidade.
O ensino médio deveria ter um papel fundamental nesta década, pois o país passa por uma inversão em sua pirâmide etária, quando os adultos representam maior numero que jovens e crianças, mas está-se perdendo a chance de formar a nova geração com qualidade. Com um histórico desfavorável para essa etapa de ensino, desperdiçar os milhões de alunos ingressados é contribuir para um retrocesso para o país.

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