"Olha tio, um golfinho!" – chamou minha atenção meu sobrinho. Mal acabamos de por os pés na praia de Pium, onde estou morando atualmente. A comunidade fica uns trinta quilômetros distante de Natal, capital do Estado e conhecida como a "noiva do Sol". Nessa parte do litoral, o sul, é relativamente fácil avistar os golfinhos dançarem na praia. E a natureza aqui é exuberante.
Um golfinho, animal belÃssimo e, segundo dizem por aÃ, dotado de um complexo e inteligente mecanismo de comunicação. Tão ou quase tão comparado ao nosso, seres humanos. E não há quem já não tenha afirmado ter descoberto os meandros do funcionamento desse mecanismo. Não sei se seria tanta vantagem assim para os golfinhos terem uma inteligência equivalente à nossa, os seres humanos.
Pois que somos [in]justamente nós, seres humanos, que estamos destruindo não somente a nossa própria espécie, mas também [e por enquanto] todo o planeta Terra. O fato mais escandaloso e imediato que posso mencionar é o assassinato do Rio Potengi [agora um braço de mar] que corta Natal ao meio e sobre o qual em breve será inaugurada uma ponte belÃssima, facilitando o transporte de pessoas e idéias, as dos seres humanos.
No dia 28 de julho de 2007 o mangue do Rio Pontengi amanheceu enfeitado, como uma imensa e grotesca árvore de Natal, com cerca de 40 toneladas de peixe. Mortos. Afogados. Causa mortis: merda, lixo e metais. Podridão moral e fÃsica gerando suas conseqüências. O maior desastre ambiental da história do Rio Grande do Norte. Dezenas de milhares de pessoas necessitam, necessitam, direta e indiretamente daquele mangue.
O fato é um só, mas as verdades são múltiplas. O mangue foi ferido de morte e o rio agoniza, prenhe de imundÃcie. Nesse exato momento milhares de pessoas, seres humanos, sofrem as consequências do crime. Doença. Fome. Conflitos. O que infectado se comeu gera infecção. Há de se buscar outra coisa que comer. Onde agora se buscam trabalhos, outros já trabalhavam. O que aconteceu no dia 28 de julho foi a erupção de um grande vulcão de mazelas.
Estive recentemente naquele local e ainda hoje o rio está forrado, como um tapete de más-vindas, de mariscos mortos. Tanta mortandade que o rio ainda não conseguiu fazer a limpeza. Os pescadores, os que sabem conversar com o rio e seus habitantes, estimam que para o rio voltar a oferecer as condições de meses antes do desastre serão necessários mais de 15 anos [!!!] de recuperação. Isso se a gosma de merda + lixo + metais parar de fermentar no Rio Pontengi. O que era um berço, o mangue, foi transformado em necrotério.
"É a primeira vez que vejo um golfinho assim, de tão perto" – continuou meu sobrinho. Poucas pessoas na praia. Espetáculo quase que exclusivo para nós e os poucos habitantes que do alto das casas também observavam. Como não há peixes no mangue, não há alimento para eles no mar próximo. Um animal belÃssÃmo, como uma criança. No mesmo instante lembrei-me disso: uma criança. Amanhã é dia das crianças e ali estava uma...nas pedras.
Bucadantas, parabéns pelo texto. Grande informativo e exemplo para todos nós mais uma vez ficarmos cientes da degradação da natureza. Recentemente minha neta de 10 anos fez uma pesquisa sobre o mangue. Ao dar uma força para ela aprendi muito sobre a sua importância no meio ambiente. Vou já mostrar para ela o presente de natal que o Rio Pontengi e toda a população de Natal ganhou do ser humano. Agradecida. Volto para votar. Um abraço mineiro.
anamineira · Alvinópolis, MG 12/10/2007 14:04
Oi Buca Dantas, grande cineasta. Que bom receber este presente de Natal pelas suas letras. Já fui ai nesse lugar e fiquei horas e horas querendo ver os golfinhos, mas, não aprareceu nehum. Quando já estava desistindo, apareceu um lá na linha do horizonte. Maravilhosa visão!
Falando do desastre ecolólogico que sofreu o rio potengi, bem, é uma vergonha e falta de respeito com a populaçao de um modo geral e também das ribeirinhas. Sem falar que Natal inteira necessita do nosso Nilo para sobreviver, de uma forma ou de outra.
Votado!
Elizete Arantes
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