Autor: Victor Hugo Neves de Oliveira
Titulação: Bacharelando em Dança
Filiação Institucional: Universidade Federal do Rio de Janeiro
UMA PEQUENA ANÁLISE DA RELIGIÃO COMO PROCESSO CULTURAL
Visitador: Branca, estamos aqui para ajudá-la. Mas é preciso também que você nos ajude, a nós que temos por ofício defender a fé.
Branca: Não creio, senhor, que esteja no momento em condições de ajudar quem quer que seja, mas no que depender de mim.
Visitador: A Igreja, Branca, a sua Igreja, está diante de um perigo crescente e ameaçador. Toda a sociedade humana, a ordem civil e religiosa, construída com imensos esforços, toda a civilização e cultura do Ocidente, estão ameaçados de dissolução.
Branca: E sou eu, senhor, a causa de tanta desgraça?!
Visitador: Não é você, isoladamente; são milhares que como você consciente ou inconscientemente, propagam doutrinas revolucionárias e práticas subversivas. Está aí o protestantismo, minando os alicerces da religião de Cristo. Estão aí os cristãos-novos, judeus falsamente convertidos, mas secretamente seguindo os cultos e a lei de Moisés.
Branca: Se alguém converteu-se, sem estar de fato convicto, é que foi obrigado a isto pela força. (Repete as palavras do pai) O ódio não converte ninguém.
Padre: É uma acusação injusta e falsa. Nunca empregamos a força para converter ninguém.
Branca: meu avô foi convertido à força.
(...)
Padre: Branca, há um gesto que seu avô costumava fazer quando você era criança. Você me disse lembra?
Branca: Lembro-me.
Padre: Pode repetir esse gesto?
Branca: Posso, mas... precisaria fazê-lo em alguém. Posso fazê-lo no Senhor?
Padre: (Fica um pouco constrangido, mas concorda) Pode!
Branca: Era assim. Mas o que tem isso?
Padre: Você me disse também que não gostava de lembrar do dia da morte de seu avô. E que toda vez que o fazia tinha a impressão de sentir aquele mesmo cheiro marcante e peculiar. Quer repetir que cheiro era esse?
Branca: Cheiro de Azeitonas
Padre: Nesse dia, seu pai lhe deu uma pataca e mandou que você a pusesse sobre os lábios de seu avô.
Branca: Ele mesmo havia pedido antes de morrer.
(...)
Visitador: Tudo isto quer dizer, Branca, que seu avô, cristão-novo, continuava fiel aos ritos judaicos. E que os praticava dentro de sua própria casa.
Branca: É possível. Se o batizaram à força é justo...
Notário: Era justo?!
(...)
Branca: Uma pessoa deve ser fiel a si mesma, antes de tudo. Fiel à sua crença.
Padre: Isto basta para alguém se salvar?
Branca: Devia bastar, penso eu...
Padre: Então seu avô, que continuou intimamente fiel à sua crença, conseguiu salvar-se! E todos os judeus e todos os mouros, fiéis à sua religião e a seus deuses, estão salvos!
Branca: Como posso saber?!
Padre: Você tem que saber! Porque o cristão sabe que só existe um Deus verdadeiro e não pode haver mais de um. (GOMES, 1999: 76-80)
Esta citação tão extensamente recortada do livro Santo Inquérito de Dias Gomes nos introduz àquilo que avaliamos ser o principal objetivo da pesquisa proposta: analisar o relacionamento fundado entre cultura e religião. Tarefa que consideramos árdua por não se organizar como uma linha, predeterminada, de pensamento. Por isso, em busca de uma metodologia que explique os fenômenos sociais em estruturas locais de saber adotamos a hermenêutica cultural como ferramenta para observar os “objetos” em questão.
A hermenêutica consiste no entendimento do entendimento, ou melhor, na tentativa de entender como “entendemos entendimentos”. Assim, abraçamos como estratégia a visualização e avaliação de alguns “depoimentos registros” de como os povos compreendem a religião de outros povos. Propomos-nos, para abordar o tema em toda a sua complexidade, a elaborar não uma tese, mas sim um ensaio teórico pelas vantagens mencionadas a seguir:
Para utilizar desvios, ou enveredar por ruas paralelas, nada é mais conveniente do que o ensaio. Pode-se iniciar um ensaio indo em qualquer direção, seguros de que, se aquela não der certo, poderemos voltar e começar tudo uma vez mais, em outra direção, sem grandes custos em termos de tempo ou de desapontos. Correções a meio caminho são relativamente fáceis, pois não temos uma centena de páginas de argumentação prévia para defender, como acontece com uma monografia ou um tratado. Passeios por ruas paralelas ainda mais estreitas, ou desvios mais amplos, também não causam muito dano, pois não esperamos encontrar progresso ao fim de uma estrada reta, onde se anda incansavelmente para frente, e sim através de caminhos sinuosos e improvisados, onde o resultado aparece onde tem que aparecer. E, quando não se tem mais nada a dizer sobre o assunto, seja por enquanto ou para sempre, pode-se simplesmente deixá-lo de lado. Como diz Valéry: ‘Não se terminam trabalhos, eles são abandonados’ (GEERTZ, 2006:14).
Um trabalho desta natureza foge aos conteúdos normativos, entretanto, possui as mesmas responsabilidades que um de alcance e caráter mais formais. Seu suporte está tanto para A quanto para B e é só à medida que ele começa a ser edificado que adquire não só forma como também estrutura sua base e alicerce, estreitando assim a visão e, posterior, discussão.
Ruth Benedict em seu livro O Crisântemo e a Espada escreve que a cultura é como uma lente através da qual o homem estreita sua visão para observar o mundo. Homens de cultura diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas, o que explica o fato de a nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionar “a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade” (LARAIA, 2006: 67).
A visão de mundo do homem, portanto, é condicionada pela cultura e o universo simbólico ao qual ele pertence, tanto quanto o são os vários segmentos que constituem sua vida ordinária: comércio, moral, tecnologia, ciência, política, lazer, direito, e religião; o que o leva a valorizar estritamente seus costumes e procedimentos culturais próprios para o entendimento dos fenômenos do mundo que o circunscreve.
Em verdade, cada povo (re)cria seu mundo no centro do Universo, o que já é um exemplo de etnocentrismo, desde a Antiguidade, fundado, ironicamente, por um sentimento e comportamento religioso, como expressa Eliade:
Comecemos por um exemplo que tem o mérito de nos revelar, de imediato, a coerência e a complexidade de um tal simbolismo: a Montanha Cósmica. Acabamos de ver que a montanha figura entre as imagens que exprimem a ligação entre o Céu e a Terra; considera-se, portanto, que a montanha se encontra no Centro do Mundo. Com efeito, numerosas culturas falam-nos dessas montanhas – míticas ou reais – situadas no Centro do Mundo: é o caso do Meru, na Índia, de Haraberezaiti, no Irã, da montanha mítica “Monte dos Países, na Mesopotâmia, de Gerizim, na Palestina, que se chamava aliás “Umbigo da Terra”. Visto que a montanha sagrada é um Axis mundi que liga a Terra ao Céu, ela toca de algum modo o Céu e marca o ponto mais alto do mundo; daí resulta, pois, que o território que a cerca, e que constitui o “nosso mundo”, é considerado como a região mais alta. É o que proclama a tradição israelita: a Palestina, sendo a região mais elevada, não foi submersa pelo Dilúvio. Segundo a tradição islâmica, o lugar mais elevado da Terra é kâ’aba, pois a estrela polar testemunha que ela se encontra defronte do centro do Céu. Para os cristãos, é o Gólgota que se encontra no cume da Montanha Cósmica. Todas essas crenças exprimem um mesmo sentimento, que é profundamente religioso: “nosso mundo” é uma terra santa porque é o lugar mais próximo do Céu, porque daqui, dentre nós, pode-se atingir o Céu; nosso mundo é, pois, um “lugar alto”. (ELIADE, 1992:35)
O sagrado, elemento essencial da religião, é, pois, vivido, apreendido e representado com alguns temas centrais e semelhantes por todos os povos do mundo, o que o confere um caráter ubíquo. Assim também, portanto, o é com a religião.
Obviamente, cada cultura possui um sistema particular, ou seja, uma lógica própria que não deve ser analisada a partir da lógica sistêmica de uma outra cultura. A religião, como segmento cultural, também é condicionada pela lógica cultural adquirindo significado dentro de uma determinada comunidade, assumindo-se assim como processo local. As semelhanças, porém, que encontramos entre as mais diversas religiões do planeta faz-nos crer que exista algo em essência que estruture e conecte todas as religiões, o que torna a sensibilidade à existência de um Ser Ignoto um elemento universal.
Reconhecemos, entretanto, que estes pontos que apóiam a universalidade do sagrado se desdobraram a tal ponto que cada ato religioso possui sua peculiaridade. Hoje, a participação no segmento cultural que chamamos de religião só se dá, portanto, através da participação em um sistema mais geral que denominamos cultura. Por isso, manifestações e objetos religiosos só são (re)conhecidos dentro de um contexto cultural: o monte que é sagrado para os cristãos, não é o mesmo pra os indianos ou pra os jovens no Irã.
Certamente, a necessidade de exteriorizar os sentimentos e elevá-los a um Ente Supremo através de formas religiosas é universal. Mas o que explicaria a variedade de manifestações para um tema central presente em todas as religiões? A esta diversidade de exteriorizações há o resultado de processos culturais, conscientes ou não. Ou seja, se considerarmos a religião um evento geral (presente em todas as sociedades humanas) os variados modos de re-ligar são produtos de uma herança cultural. É neste caminho, que investigamos a religião como resultado da operação cultural, favorecendo a compreensão e visualização de que as atividades humanas são um quadro dentro de um mais geral: a cultura.
Há um ritual descrito pelo dinamarquês L. V. Helms que nos revela em muito a reação depreciativa do autor a uma representação religiosa balinesa o que nos proporciona compreender o “entendimento do entendimento”.
Quando estava em Bali, houve um desses sacrifícios revoltantes. O rajá do Estado vizinho morreu dia 20 de dezembro de 1847; o corpo foi queimado com grande pompa, e três de suas concubinas se sacrificaram nas chamas. Foi um dia importante para os balineses. Há vários anos não tinham a oportunidade de presenciar um daqueles espetáculos horrendos, um espetáculo, que para eles, representava um feriado com um certo ar de santidade; todos os rajás do Bali fizeram questão de comparecer, trazendo consigo um grande número de seguidores.
(...). Duas das mulheres não demonstraram, nem no ultimo momento, o menor sinal de medo; apenas se olharam para certificar-se de que ambas estavam prontas, e depois, sem nenhuma pausa, deram o mergulho. A terceira pareceu hesitar, e saltou menos decididamente; vacilou por um instante, mas depois seguiu suas companheiras, e todas três desapareceram nas chamas sem emitir nenhum som.
Este espetáculo assustador não pareceu causar nenhuma emoção na multidão imensa que o assistiu, e a cena encerrou-se com uma música barbárica e tiros de canhão. Era uma visão que não seria jamais esquecida por aqueles que a presenciaram, e que nos deixou no coração uma sensação de alívio e gratidão por pertencer a uma civilização que, por maiores que sejam seus defeitos, é piedosa, e cada vez mais tende a livrar suas mulheres da ilusão e da crueldade. Cabe ao governo britânico na Índia extirpar esta praga abominável que é o sati, e sem dúvida os holandeses já fizeram o mesmo em Bali. Trabalhos como este são credenciais através das quais a civilização ocidental faz valer seu direito de conquistar e humanizar raças bárbaras e de substituir as civilizações antigas.
Pouco mais tenho a falar sobre Bali que seja interessante... (Helms In GEERTZ, 2006: 58-62).
É em produções como estas que o Ocidente ganha suas habilitações para conquistar e transformar o Oriente, afinal:
A hegemonia compreende as tentativas bem sucedidas da classe dominante em usar sua liderança política, moral e intelectual para impor sua visão de mundo como inteiramente abrangente e universal, e para moldar os interesses e as necessidades dos grupos subordinados (...). A hegemonia não é força coerciva. Ela é plena de contradição e sujeita ao conflito (Carnoy In CAMPOS, 2005:65).
Desse modo, percebemos que o estudo da religião e seus fundamentos pela hermenêutica nos possibilita não só a descrever e analisar histórias, mas também nos permite compreender como o processo de análise nos conduz, não raro, a um estado de manipulação e gerenciamento do poder, onde nossas lentes são consideradas as mais bem preparadas e equiparadas para olhar o mundo. Se for certo que toda pesquisa consiste em afirmar ou refutar situações já há muito preservadas pela sociedade, cabe a nós, estudantes e trabalhadores de um novo tempo rever conceitos e cultivar, com isso, um entendimento solidário do entendimento alheio.
Neste ponto, o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda – pois uma compreensão exata sobre a religião como processo cultural significa a compreensão da natureza divina e sua relação com a natureza humana, e este relacionamento além de perene fomenta desdobramentos cujas reflexões são incansáveis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPOS, Andrelino. Do Quilombo à Favela. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
GEERTZ, Clifford. O Saber Local. Petrópolis: Editora Vozes, 2006.
GOMES, Dias. O Santo Inquérito. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro, Zahar, 2006.
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