Estou no DF, na casa de José Arimatéia Mendonça e Josiane Gomes, mais uma vez desfrutando da hospitalidade brasiliense. Ele é motorista do carro de som do SindSer - Sindicato dos Servidores e Empregados da Administração Direta, Fundacional, das Autarquias, Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista do Distrito Federal, filiado à CUT-DF. Ela trabalha no Centro de Saúde da Vila Planalto, onde moram, a uns 600 m do Palácio do Planalto, ao lado do setor destinado aos clubes.
Assim, fui ontem cedo com ele, divulgar um debate, realizado pela manhã, sobre a paridade na representação do sistema que indica candidatos a reitor para escolha do governo. Docentes, funcionários técno-administrativos e alunos teriam cada categoria igualmente representada na comissão, cada um com um terço dos votos.
Não resisti a tentação de assistir ao evento e lá fiquei, recebendo uma atenção especial da parte dos diretores do SINTFUB - Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de BrasÃlia. Calorosa também foi minha recepção na séde da CUT-DF, em função do CÃcero Rola, Secretário de Comunicação da entidade ser também Coordenador Financeiro da Abraço - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária, da qual também participo.
Acabei indo jantar na casa dele, anteontem, no CondomÃnio Verde, Lago Sul, onde se concentra grande número de jornalistas, ao lado de uma área de preservação ambiental. E por lá fiquei, após uma lauta refeição e alguns copos de vinho, desfrutando da simpatia de sua esposa Soraia e de seu filhinho João Gabriel.
Voltando ao debate sobre a paridade, a mesa foi coordenada por um representante do DCE, um representante da corrente favorável à paridade e outro, da contrária, defenderam suas posições.
Após, houve participação dos presentes, tendo por um de seus pontos culminantes a colocação da Profa. de Antropologia da UnB, Rita Laura Segato, que defendeu a paridade, alegando que os alunos merecem ter a mesma representatividade que tinham quando FHC resolveu acabar com ela, dando aos professores 70% dos membros da comissão e 15 % para funcionários e alunos.
Ela argumentava sobre a capacidade de produção de resultados das universidades brasileiras que estava sendo relacionada com a forma de eleição dos reitores.
Também estava em foco um exemplo que o prof. Carlos Pio, do IREL - Instituto de Relações Internacionais da Universidade de BrasÃlia, deu, citando o fato de que alunos bêbados jogavam totó e faziam concurso de arroto, perturbando o ambiente adequado à uma universidade. Tal colocação foi interpretada por muitos como sendo uma tentativa de desqualificar os discentes, elevando ainda mais o calor do debate, ainda que ele afirmasse não ter sido esta a intenção.
"Estudantes da UnB produziram resultado
que seus professores foram incapazes de conseguir:
botar para correr uma administração corrupta!"
Iniciada a luta dos estudantes com a ocupação da reitoria da UnB, a eles se agregaram, posteriormente, funcionários e professores, mas a iniciativa foi dos alunos, isoladamente. Tive experiência menos vistosa na ocupação da reitoria da UFRGS e transmitia, ao vivo, pela internet, o que lá ocorria.
Outra pérola desta honorável mestra:
"A corrupção do reitor é muito mais relevante
que o estudante bêbado que jogava totó
e fazia concurso de arroto!"
O prof. Luiz Henrique Schuch, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e secretário-geral do ANDES-SN defendia a paridade, como membro da mesa, tendo vastas citações na rede mundial de computadores como proeminente defensor de causas educacionais mais arrojadas, sendo preletor consagrado entre os movimentos sociais.
Causou certo mal estar a afirmação do prof. Pio sobre o método que Schuch utiliza em seu trabalho com animais, por ser veterinário, questionando se ele tem curso de pós-graduação e doutorado. Pareceu um deboche disfarsado de comparação do método cientÃfico que defendia e questionava se era adotado por seu interlocutor ao cuidar de seus pacientes.
O prof. Schuch afirmou que, mesmo com a paridade, o problema não será resolvido, já que ela ofereceria uma lista sextupla de candidatos para escolha do Ministro da Educação, impedindo a independência da UnB em traçar seu destino, conforme alega a Constituição Federal, no que foi contestado pelo prof. Carlos Pio, defensor da posição oposta, que interpreta a autonomia como limitada. Uma polêmica que ainda vai render por muito tempo!
Outro ponto ali explicitado foi a possibilidade de participação da comunidade externa na administração da universidade. Imagino eu que representantes dos empresários e dos trabalhadores seriam uma alternativa. Deixo minha sugestão de que, a eleição direta para reitor, poderia ser realizada, agregando-se à comissão, representantes do governo, paritariamente às outras categorias.
A paridade foi defendida também para todos os nÃveis de decisão da universidade, como departamentos, sem o que seria insuficiente para merecer a condição de democrática.
Outro argumento forte foi a defesa da redução do poder de corromper que hoje se encontra, graças ao FHC, nas mãos dos professores. O prof. Carlos Pio testemunhou, no inÃcio de sua apresentação, que há professores que não dão aula e pesquisadores que recebem verba para fazer seu trabalho, mas não o fazem.
Foi mencionado também que há um limite máximo para que docentes se ausente da universidade para fazer cursos fora, mas que isto não é respeitado, em função do baixo padrão ético existente.Tudo isto merece uma séria investigação, visando criar mecanismos para destruir o corporativismo desta categoria.
Hoje, o voto de um professor corresponde ao de 90 alunos e, com a paridade, valeria apenas o de 13, conforme um dos que tomaram a palavra.
Pouca repercussão teve a tese do voto universal, onde cada aluno, professor ou funcionário técnico-administrativo teria um voto, dando maioria absoluta aos 18.000 alunos, que permanecem apenas uns cinco anos na universidade.
Acompanhando o argumento de que devemos descolonizar nossas mentes e a da universidade, ensinando os alunos a pensar e não a decorar conteúdo, motivo de uma aluna defender ali o uso da cola durante as provas, colocando à prova nossa capacidade de controlar a testosterona e agitando o ambiente dentre os machos e machistas ali presentes.
Mesmo não sendo membro das categorias em questão, ousei ser o último a oferecer contribuição ao debate, dizendo algo assim:
Esta universidade ensina a seus alunos a diferença
entre uma democracia, plutocracia, cleptocracia e corporocracia?
O que é uma república e uma reparticular?
Uma democracia de fato e uma de direito?
Se o Brasil é realmente uma democracia?
Ou eles tem de aprender tudo isto no DCE?
Esta questão vale para quaquer universidade ou faculdade do paÃs ou do planeta...
O prof. Carlos Pio classificou-me de revolucionário, não me parecendo, com segurança, se estava me elogiando, criticando ou simplesmente registrando o fato.
O certo é que, por minha experiência, jornalistas, historiadores, geógrafos, sociólogos e outros profissionais saem da universidade acreditando pela fé absoluta na universidade, no sistema e no Estado, que estamos em uma democracia e que é o povo quem governa este paÃs, ensinando tal disparate aos seus alunos ou veiculando-o na grande mÃdia.
Meu querido leitor e minha querida leitora! Tu já encontraste algum destes profissionais afirmando que estamos em uma ditadura do poder econômico ou algo assim?
Seja como for, o ilustre professor Carlos Pio assegura que tais coisas são ensinadas ali... Não custa nada verificar.
Após o término do debate, propus a alguns alunos e a um diretor do DCE criarmos uma universidade aberta, para analisar diariamente o que é ensinado pelos acadêmicos, como já tinha sugerido na UFRGS e na UFMG. Quem sabe um dia isto pega? A proposta é contribuir para a verdadeira universalização do conhecimento dos estudantes, restrita pela privatização do Estado, da educação e das universidades.
POR UMA FAXINA ÉTICA NA UNIVERSIDADE BRASILEIRA,
CADA VEZ MENOS UNIVERSAL E MAIS PARTICULARIZADA!
QUE NEM O ESTADO QUE RESTRINGE SUA AUTONOMIA...
(*) Heitor Reis é engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org). Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos: (31) 3243 6286 - heitorreis@gmail.com
Heitor,
v ale a pena continuarmos batendo na tecla de sermos contra o nada. Infelizmente é Ãsto. Isto é verdade. Infelizmente o Estado Brasileiro foi pensado para isto. Os códigos com seus empregos criados; municpios criados para dar emprego, etc. etc.
valeu,
andre.
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