As venezianas abertas deixam entrar na obscuridade do quarto as primeiras notas da manhã; o barulho se dilui em tons, em raios filtrados pelas persianas dispostas de par em par. A obscuridade vai se dissipando, os delineios, formas e cores vão se revelando. As paredes brancas realçam os objetos à entrada impertinente da luz, por um instante, parece que os móveis também dormem. No centro do quarto, numa cama de edredons beges, acorda Vanessa, a prostituta.
19h19min. Sexta-feira. 8 de junho. Rua Floriano Peixoto. Vanessa apóia a mão direita contra a parede e com a esquerda segura a cintura, tem um balançar de pernas renitente e descompassado, um riso fácil, a que muitos poderiam chamar de cÃnico; no entanto é apenas um riso fácil.
Os cabelos negros, levemente ondulados, caem sobre os ombros nus. Veste uma bermuda curta e bem acochada. Calça sandálias azuis, deixando evidente a coleção de calos novos sobre a coleção de calos antigos. Uma camiseta branca encerra o figurino.
Com as amigas o riso cai solto; contudo, quando é para falar de si, há como que uma convulsão interior, cheia de gradações, até atingir um desses tons opacos do cinza.
“Fui casada, tive dois filhos e há cinco anos meu marido me deixou por outraâ€, diz secamente sem nenhuma inflexão nas palavras. A voz esforça-se para ser um tapume, para não demonstrar o que interiormente o corpo sente; mas os olhos revelam tudo, inclusive o que as palavras não dizem.
“Tentei trabalhar em casa de famÃliaâ€, prossegue “tentei, mas as patroas humilham muito a gente. Depois fiquei desempregada, aà comecei a trabalhar aqui. Agora tá bom, chega de perguntas, bebê!â€
“Não, não só mais uma pergunta?â€, peço. Ela deixa cair sua mão direita sobre o meu ombro “Você não quer mesmo fazer um ‘programinha’?â€. “Nãoâ€, respondo um pouco intimidado. “Então faça a sua pergunta, bebê!â€, diz ela. “Você sente prazer no que faz?â€, pergunto, esperando uma resposta agressiva.
“Não!â€, responde. “Faço só pelo dinheiro, não dar para ter prazer nissoâ€, diz baixando os olhos.
“Você tem filhos?â€, continuo.
“Sim, tenho dois meninos.â€
“Eles sabem o que você faz?â€, insisto.
“Não!â€, ela responde secamente.
“E se eles vierem a saber?â€. Ela emudece, pára por um instante, retendo os olhos sobre mim e volta para o grupo de amigas sem nada dizer.
São 19h52min. Passam poucos carros na Floriano Peixoto. O céu está claro e estrelado. As prostitutas riem e acenam aos transeuntes.
*Nome inventado pela garota de programa. Também não me permitiu tirar fotos suas. Nas ruas de qualquer capital, esse é um quadro comum: cai a noite e as falenas adejam suas asas - luxúria e desejo -, são moedas de troca!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!