A revista Tarja Preta prometia ser libertária quando surgiu, na forma de um fanzine muito tosco (que, na verdade, é um seqüela de outro fanzine, chamado Cucaracha Zine), em abril de 2004. Afinal, desde os tempos de Mil Perigos e Dum-Dum, duas publicações hoje extintas, não se via uma reunião de talentos tão criativos para os quadrinhos nacionais. Criativos e com o compromisso (ainda que nunca formalizado) de não se comprometerem com o que já existia antes deles.
Sediada no Rio de Janeiro e capitaneada por Matias Maximiliano Acevedo, mais conhecido pelo público leitor como Matias Maxx, Tarja Preta não tem pudor algum e fala do assunto que for, do modo que for, consciente de que sua consciência estará limpa ao fim da edição. Os quadrinhos e textos se sucedem de modo vertiginoso, ao mesmo tempo em que a qualidade de cada número melhora. Pois se, na estréia, a revista era impressa em papel jornal vagabundo e apenas em preto e branco, logo na edição seguinte a capa já tinha uma segunda cor. No quarto número, surpresa: o papel da capa já era branco e brilhante, sinalizando que a revista estava vendendo, tinha achado o seu público e que este queria mais.
O que importa, no entanto, é a revista sair. Mesmo porque os autores não ganham um tostão para fazer a Tarja Preta, fazem mesmo é porque gostam de quadrinhos. E não são quaisquer quadrinistas: no time estão, além de Maxx, relativos veteranos (como Allan Sieber, MZK, Schiavon e Adão Iturrusgarai) e nomes recentes (como Dúnia, Danilo e Leonardo). Pessoas como eles garantem a qualidade da publicação, que é assumidamente incorreta e polêmica.
Podemos dizer, por exemplo, que a revista trata muito sobre, digamos, agricultura. É que o personagem-símbolo da publicação, o Capitão Presença (criado por Arnaldo Branco e em cada edição reinterpretado por diversos artistas), é um super-herói adepto do cigarrinho de cânhamo, pronto para ajudar aqueles que necessitem de alguma ajuda em horas de aperto. Cada edição também é recheada com diversos textos sem temática definida, que podem versar tanto sobre música como sobre o Fórum Social Mundial.
A mistura — sexo, drogas, rock'n'roll e algo mais — funciona justamente porque o aspecto anárquico da publicação abre espaço para que todo tipo de opinião. E, é claro, isso torna a revista também heterogênea. Portanto, quem procura uma publicação sem altos e baixos, uniforme, que agrade do começo ao fim, esqueça. Ela pode mesmo agradar, mas não é por conta de uma visão plana do humor. Porque, no fim das contas, é disso que se trata: uma publicação extremamente bem-humorada, na boa consigo mesma.
Por conta desse bem estar é que Tarja Preta não possui periodicidade definida. Apenas em fevereiro, por exemplo, foi lançada a quinta edição da revista. É um modo de fazer com que o leitor não se canse, de que as idéias se renovem, de que os artistas envolvidos não se sintam pressionados com prazos e, sim, criem material para a Tarja com a cabeça fresca, quando puderem, como puderem. Além, claro, de sinalizar que uma nova edição só sairá se se tiver algo para ser dito — afinal, esta é a lei tácita de todos os fanzines.
A revista é saudada também pela crítica. Pudera: hoje em dia, ela é a publicação nacional mais barata do mercado, custando apenas dois reais e tendo 96 páginas (originalmente, tinha 64, mas ela ‘engordou’ sem custo adicional para o leitor, o que é louvável num país que aumenta preços a cada especulação econômica).
Geralmente lançada em festas, Tarja Preta também tem um site (http://www.cucaracha.com.br/tarjapreta), no qual há informações sobre a origem do projeto, blog e também como adquirir as edições da revista.
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