Ventos de Valls

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DF5 · São Paulo, SP
22/1/2013 · 2 · 0
 

Desvelando a constituição da personalidade, pela ventania dos primeiros anos.

A primeira infância é formadora dos principais norteadores da construção da personalidade do ser humano. É nisso que se reside a construção da história da família Panadés no trabalho de Pablo Lobato. Enquanto aparato cinematográfico, o cineasta constitui uma profusão situacional que condiz com a corriqueiridade e com a inconstância da infância em detrimento de uma segmentação de encontro. O encontro aqui, assim como em Tarkovsky e Bresson, condiz com um compromisso de peso sobre a aparente aleatoriedade, que constrói um retrato pelas mãos da pesquisa e dos pesquisadores.

Ventos de Valls é parte da Mostra Aurora e marca uma movimentação na carreira da produção da Teia em veredas fugazes que transcrevem uma história a partir da vontade de contar. O cineasta e o montador servem aqui como chaves para fundamentar o encontro da intenção com a não-intenção assim como a formula constituinte de um cinema bressoniano. Bresson entra aqui, não como guia consciente da obra, sim como parte dessa não-intencionalidade do autor em moldar sua história a partir do registro da câmera olho, assim como em Vertov.

A dimensão aqui é de fazer o homem agir como seu próprio senhor, mesmo ante a câmera. Ela não é invisível no processo do filme. Ela se coloca enquanto personagem e interlocutor da forma da inconstância de surgir uma performance que não é performance. Enquanto debate na segmentação documentarista, a câmera registra a imagem como uma mosca na parede, ao se tornar um dos personagens da narrativa. Ela é tão natural e ao mesmo tempo racional que se torna parte da família aqui retratada pelas mãos do cineasta que se coloca enquanto artista. Ela está lá, o objeto de seu olhar está consciente de sua presença e agrega-a a sua lógica interna e torna intimo, desvelando mais de sua própria faceta enquanto ser.

No que tange à construção de um discurso, o longa de Pablo se profusiona em não ser discurso pela intenção. O importante e o ponto de encontro e de choque é acarretado pela própria aleatoriedade do instrumento instintivo do jogo de filmar e ser filmado, de se imprimir na película enquanto parte da observação. Na instituição de um observador, Pablo se torna parte do que é observado e figura enquanto participativo e ativo, na passividade de sua forma de registro.

E é nessa ambiguidade que reside a formulação do artista que a cada linha desenhada pelo processo de montagem, constitui um retrato de uma história, de uma família, de uma infância.

Na infância então encontramos o ápice dessa construção.
Com um olhar infante descobridor de uma história e construtor de uma nova, seu discurso anti-discursivo se figura na visão da criança. Ela observa, ela corre, ela cai, ela volta a se levantar, e ela se preocupa apenas com o descobrimento do mundo em toda a construção desse processo. Subindo na família em um esquema piramidal, ela se apoia nos progenitores e nas gerações passadas e se torna um ser pleno, construindo a face de sua vida adulta, norteada pelo que é memória. O registro de Pablo nada mais é que algo permeado com essa preocupação de construção desse passado infantil. Em sua despreocupação, ele consegue, mais pela não-intencionalidade da criança, desvelar essa memória e fazer crescer e resolver os traumas que permeiam essa personalidade destituídas de norte.

Os Ventos de Valls, são então essa coisa, constituinte de uma lógica familiar à esse período precoce que derruba e fundamenta as mazelas do ser, e que se fazem enquanto construção da vida.

Por Julio Cruz

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