Veterinária de Alma, de Coração

Foto de Matheus Magenta
Dona Ivone, com a fé inabalável exposta em seu sorriso
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Isa Lorena · Salvador, BA
10/5/2008 · 43 · 2
 

Por Isa Lorena


De domingo a domingo a mesma rotina: ela sai de casa às seis, seis e meia da manhã e só volta ao meio dia. Com ela, um carrinho de feira, muita ração, água e uma caixinha de medicamentos. Ela é Yvonne Reesink Gomes, uma holandesa de 58 anos “muito mais brasileira na verdade” e sua missão diária, é a de alimentar e cuidar de cerca de 60 cachorros e uns dez gatinhos, que vivem abandonados nas imediações da Pituba.

Nascida em 18 de janeiro de 1950, Yvonne veio ao mundo num inverno holandês, junto com a irmã gêmea – que hoje mora no Rio Grande do Sul - prematura de seis meses e meio: “eu era minúscula!”. Hoje esguia, com seus cabelos longos e os olhos levemente esverdeados e muito brilhantes, saiu da Holanda pequenina, com seis anos e foi morar no Rio de Janeiro, em Niterói, onde ficou até os 18, vindo com a família para Salvador em 1968, em meio ao golpe militar que assombrou o país durante 20 anos. “Meu pai trabalhava com comércio exterior, numa empresa Belga. Ficamos assustados com o golpe de 64 e meu pai recebeu uma proposta de trabalho por aqui e viemos morar em Salvador”. Antes de casar e ir morar na Pituba, cerca de 24 anos atrás, Yvonne morava com a família nos arredores da Estrada Velha do Aeroporto. Ela já alimentava esporadicamente os animais nas ruas, mas só há seis anos isso virou uma rotina, de fato.

“Ideologicamente vegetariana desde pequena”, ela explica que comia carne na infância obrigada por sua mãe, devido a problemas de anemia por conta do parto prematuro. “Não me agradava o gosto da carne e também não gostava pela questão mesmo de matar os animais. Desde muito pequena que tenho esse amor por animais, principalmente os abandonados, os bichos que moram nas ruas”. Seus pais não deixavam que cuidasse de animais dentro de casa, pois moravam em apartamento. Então, na tentativa de suprir esse amor pelos bichos domésticos, ganhou aos 13 anos um cavalo e freqüentava o clube de hipismo em Niterói. Da infância ela relembra também as férias em que ia para a colônia holandesa, com os pais e a irmã, no oeste do Paraná. No decorrer da vida, já foi algumas vezes na Holanda, mas se considera muito mais brasileira, além da questão do contato humano, que ela julga bem diferente: “Aqui há mais calor humano, a relação entre as pessoas é diferente, a maneira de se comunicar é diferente”, diz sorrindo.

Dona Yvonne nomeou todos os animais que cuida e conhece cada um deles. Em casa tinha três fêmeas, todas castradas. A mais velha tem 12 anos. Uma outra - mistura de pastor alemão com husky siberiano - foi morar em Lauro de Freitas, na casa da sogra “que tem uma área maior para brincar” e outra, que estava com ela há quatro meses, morreu no dia 17 de novembro do ano passado de morte súbita: “De manhã antes de sair ela veio brincar comigo, estava bem, feliz da vida e aí de repente…” conta emocionada.

Ela gosta tanto do que faz que já aprendeu, inclusive, a dar a injeção de sarna nos caninos. A despesa com a alimentação, vacinação e castração dos cachorrinhos é quase toda tirada de seu orçamento. Ela conta que já teve problemas sérios no orçamento doméstico por conta disso e hoje recebe a ajuda de dois mercadinhos locais, o Vonfa, que fica perto do antigo Clube Português e o Minasmar, localizado na Rua Amazonas. Eles contribuem com pelancas e um pouco de ração também. Há também a ajuda de uma médica veterinária, que faz por um valor mais em conta, a castração das fêmeas. O valor da castração, que gira em torno de R$ 600, sai por R$ 100, com o valor do antibiótico incluído. “O ideal é que a fêmea seja castrada e não entre mais no cio. Por isso a castração tem que ser completa, tirando útero e ovário”, explica.

Iniciativas como a de Dona Ivone não são comuns, infelizmente. Sua vida é um grande exemplo. “Não faço mais porque não tenho tempo”, ela diz. Perguntei se havia pensado alguma vez em ser médica veterinária. Depois de uma sonora gargalhada ela disse que não sabe lidar muito bem com “essa coisa de ver sangue”, e que se afeiçoa muito aos animais e isso não seria bom. Coincidência ou não, conta que a irmã gêmea seguiu o caminho acadêmico da medicina, mas que ela preferiu levar a vida de outra maneira. Pois para mim ficou a certeza de que Dona Yvonne é uma grande médica sim, uma veterinária de alma, de coração.




*Perfil publicado na edição de fevereiro/2008 do jornal A Voz da Pituba

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IZA COSTA
 

Parabéns!
O sentimento puro diz tudo...

Feliz dia das mães!!!

IZA COSTA · Guaratinguetá, SP 10/5/2008 11:58
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alcanu
 

Aqui em Sampa, tá cheio de donas Ivones, diplomadas na Faculdade do Amor, médicas, veterinárias e psicólogas de gatos e cães abandonados, com seus pãos que se multiplicam milagrosamente, carnes que nem sei onde arranjam...
Bondade não tem limites !
Um beijo, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 12/5/2008 00:27
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