virada

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Eder Fonseca · Cândido Mota, SP
7/1/2007 · 33 · 1
 

virada

horizontar-me-ei...
não para que sempre,
tanto,
e assim,
a mirar-me estejas.
mas para que a mim seja concedido
os quatro cantos do infinito
onde estar a correr em busca de ti
sempre possível seja.

Na virada... O título surgiu numa virada, com uma virada. E talvez sempre seja assim: com viradas. O poema antecipou o futuro, previu-o. Faltava o título, mas ele não tardou a vir. E com o título foram-se os incômodos, e ficaram as palavras. Ou foram-se as palavras e ficaram os incômodos? Depende, na maioria das vezes se descreve o que as coisas aparentam ser, e não o que elas são. Em tempos de ausência de diálogos, as palavras servem ao nada. Somos corpos, sem tempo. E na ausência de tempo, não cabem palavras, apenas o espaço onde somos serotoninas temporárias. Palavras que servem de caixinhas para guardamos nosso tempo, nossos desejos elaborados, pensados, imaginados. Pelas palavras, tentamos mitigar o pequeno burburinho que nasce em nós quando nos colocamos a conhecer o outro. São elas que nos permitem carregar o que somos ao outro, e trazer o que o outro é até nós.
Mas as vezes só nós é dado permanecer extáticos.
Não se sofre por ser indiferente, nem por não ter um corpo, ou um cotidiano do qual gostariamos de fazer parte. Mas pelo incômodo de tentar, tentar e tentar, dialogar, e por regras que existem - como se descobrir o outro fosse, suas mágoas, decepções, fosse torná-lo inferior a nós.
Como ignorar o que somos, e passar em branco? O que entregaremos ao outro? O que queremos que o outro entregue a nós?
Uma pequena sutileza, um gesto de delicadeza que não é possível. Tudo tornou-se tão difícil como o próprio ato de escrever. Ter idéias, ter quereres, mas por uma pressão do cotidiano, da rapidez, da volaticidade, não ter onde e nem como colocá-los. Não dá pra saber se excluir o tempo da vida, jogá-lo num canto, e fazer apenas recortes de pessoas, sem seus pensamentos, vale mais do que permanecer assim, incompreendido, como se as palavras não estivessem carregadas de sentimentos, sendo tão-somente palavras.
Não quero a dinstinção, mas sim que me seja digno ser indiferente de maneira diferente. E não assim, uma indiferença que é indiferente, como outra qualquer, como coisa qualquer, por qualquer coisa, por qualquer pensamento, como se a garantia da felicidade estivesse relacionada ao acúmulo de "experiências" (contatos) singulares e que possuem o início e o fim sejam um só ato. Uma indiferença tornada depois de um simples ato de dizer: "Foda-se, cansei". Mas não se cansou de nada, apenas se quer mostrar aos outros que se é superior a eles porque não se precisa de elos. Assim, quanto menos elos, menos vínculos, a tão sonhada superioridade está posta na mesa. Garantia de ausência de sofrimentos, insegurança. Mas o acúmulo de sentimento fica, somos seres humanos, e não há como escarparmos dele, embora tentemos o tempo todo. E quando ele vem à tona, sai por aí, a mirar qualquer um, até aqueles que como nós, passávamos por aí medindo felicidade com corpos.
E o ciclo recomeça...

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brigitte
 

Suas indagações são dificeis de ser respondidas.Num mundo cada vez mais consumista e materialista, a maioria das pessoas quando pensam em dar algo, logo se lembram de bens materiais. E os pretensos recebedores contabilizam aumentos patrimoniais. Mas não é isso que faz a diferença. Precisamos, urgentemente, reconstruir o conceito de SER. Ser feliz, ser livre, ser respeitado, SER HUMANO. Se a sociedade permanecer no TER acima do SER, corremos o risco de nos tornarmos SERES DESUMANOS.

E viva a VIRADA.Será que virou?

brigitte · Goiânia, GO 5/1/2007 23:46
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