“Wannabee”

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andremartins · São Paulo, SP
2/5/2008 · 61 · 2
 

“Wannabee”


“Qual a essência do que fazemos e falamos? Quanto é conversa fiada, o famoso bullshit que tanto desenvolvemos?”
Ricardo Semler, “Você está Louco !”, 2006


Não, não vou fazer aqui nenhuma crítica ou apologia a um antigo (será antigo mesmo?!?) “sucesso” do grupo Spice Girls. Não, o que eu gostaria de comentar hoje é sobre a incrível mania e obssessão que nós, todos nós, temos, em diferentes níveis, de sermos “wannabee’s”. O dicionário Longman de inglês traz a seguinte definição para o termo: wannabee é a pessoa que gosta de imitar, ou até mesmo desejar ser outra, mas não alcança o resultado por diferentes razões e limitações, sejam físicas, econômicas, psicológicas, política, religiosa ou mesmo mental. O termo é uma contração gramatical para “I want to be”, ou seja, “eu quero ser”, e foi popularmente enraizado na cultura norte-america na década de 80, sendo posteriormente espalhado pelo mundo inteiro.

Dentro da gama de definições que encontrei em dicionários e na web (wikipedia), uma me chamou muito a atenção: wannabee passou a ser tão utilizado que ganhou uma notória conotação pejorativa, passando também a ser sinônimo de ambição exarcebada, vaidade constante e alto índice de pedantismo.

O que me faz trazer esse termo e esta discussão aqui é exatamente a incrível quantidade de wannabee’s que tenho visto e encontrado ultimamente. Parece que, de repente, todos querem ser alguém diferente de si mesmos, todos querem ser “cool”, mas ninguém está muito disposto a sentar e gastar tempo estudando, lendo e pensando. Aliás, pensar é algo que definitivamente não faz parte do vocabulário wannabee…

No universo da música, o termo atinge índices estratosféricos, com resultados inversamente desastrosos. Peguemos, por exemplo, um instrumento como a guitarra e vejamos o que acontece. A grande maioria dos alunos iniciantes quer reproduzir, querem simplesmente tocar igual a seus ídolos, sem tentar absorver um conteúdo interessante e partir para um desenvolvimento individual. Como resultado, temos quilos, toneladas, de clones de Malmsteen, Paul Gilbert, Steve Vai e Satriani que tentam, sempre, imitar ad nauseam seus pseudo-ídolos, repetindo lick após lick, frase após frase, melodias e até mesmo timbres de guitarra.

Mas o problema maior está no estágio seguinte. Muitos desses alunos passam a dar aulas, passar a serem músicos “profissionais”, ou seja, de alguma maneira, passam a gerar receita a partir da guitarra, e continuam a serem wannabee’s, porém agora com ainda mais rigor e técnica, ou seja, parecendo ainda mais com as versões originais. E lá vamos nós encontrar um cenário musical saturado, esgotado, recheado de Satrianis, Petruccis, Metheny’s, Hendrixs, Van Halens, Vais, entre tantos outros. Ninguém parece nem mais perceber, pois passa a ser qualidade tocar “tão rápido” quanto o Malmsteen ou ter a palhetada alternada idêntica a de Steve Morse.

Será que ninguém pára para pensar (lembre-se, um wannabee não gosta muito de pensar….) que o melhor Malmsteen que pode existir é exatamente ele mesmo? Que o melhor Steve Vai, o mais idêntico Joe Satriani, o mais perfeito Pat Metheny, John Petrucci, ou seja lá quem for, são os próprios “donos” das vozes e das personalidades? Afinal, eles conseguiram se projetar e desenvolveram carreiras a partir da originalidade de uma voz ativa e diferente do que acontecia no cenário musical da época em que apareceram. Por mais perfeito, por mais idêntico, por mais igual que você consiga tocar como um desses guitarristas, nota por nota, bend por bend, você não irá passar de um clone, de alguém que se espelha totalmente em uma figura já existente. Você não irá passar de um wannabee.

A busca pela voz própria é uma busca dura, solitária e tortuosa. E isso reflete todas as facetas da vida, não apenas em um instrumento musical. Afinal, quem gosta de imitar os outros não curte muito pensar e desenvolver posições claras e objetivas em assuntos diversos como política, cidadania, reciclagem, pobreza e respeito ao próximo. O wannabee padrão age no piloto automático, quer que o mundo ao seu redor se exploda, afinal, não foi ele quem fez o estrago, porque ele tem que pensar em soluções? É um pensamento egoísta, desumano, totalitário. Mas também é um pensamento ignorante, que retrata a falta de sensibilidade, de cultura e de educação que o permeia intensamente.

Ter voz própria, ter voz ativa, é ter uma voz que muitas vezes pode andar na contramão do que todos ao nosso redor estão acostumados à ouvir. Um pensamento, uma idéia, uma concepção original, nunca irá rumar para um consenso geral, estático e dormente. Afinal, toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues.

Que nós possamos parar, pelo menos parar um pouquinho por dia, para pensar no que estamos fazendo de nossas vidas, no que estamos estudando, no que estamos tocando. Que nós possamos exercer o livre-arbítrio de sermos diferentes, de pensarmos diferentes, de tocarmos e compormos de maneiras distintas. Que possamos nos expressar conscientemente, mesmo sabendo que minha opinião não é igual à sua, mas que também é válida e deve ser colocada em pauta. Que nós possamos, enfim, deixarmos de “querer ser”, deixarmos de wannabee para assumir com responsabilidade nossa identidade, nosso DNA musical, comportamental e criativo. Esse é o nosso maior bem. É o nosso maior dom. E é exatamente o que faz e irá, sempre, fazer toda a diferença neste mundo globalizado.


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Tita Coelho
 

A sempre vontade de ser algo que não se é, e não assumir de fato o que se quer! Sabe, toco sax e piano e ainda tento cantar... Estilos, são sempre copiáveis, e acredito muito que quem tenta copiar, as vezes o faz sem querer. Muitos sem sucesso, o quefica por demais engraçado!
Gostei do texto moço!
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 30/4/2008 14:40
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Tita Coelho
 

voltei, reli!
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 2/5/2008 12:23
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