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Heuber · Cuiabá, MT
22/11/2011 · 3 · 0
 



O asfalto queimava a sola gasta do sapato - gostava daquele sapato, que por sua vez já adquirira a forma do pé: é bom pisar reconfortado nos espaços moldados pelos dedos e o calcanhar. Quando novo, o sapato resistira um pouco até ganhar o formato de seu inquilino, ao qual se ajustara perfeitamente. Mas aquele sapato não era destes sujeitos de baixa categoria, que não moldam a quem emprestam elegância. Um sapato fino sabe ceder em seu interior sem perder a imponência da forma. Aparência, para um bom calçado, é tudo. Olham-no e está sempre novo, disfarça perfeitamente o estranho feitio de um pé descalço, mesmo tendo de absorver e resistir ao calor e a imundice das calçadas – e que parte do corpo lembraria mais nosso parentesco animal senão um pé desnudo.
Trataram-no como um típico caso de “estado de choque”. O que poderia ter sido um acidente grave se deu por descuido: prestasse mais a atenção no trânsito, que anda louco nos últimos tempos, e nada teria sofrido. O sol ardia no couro cabeludo de sua calva; pensava em Baudelaire sem ter a mínima ideia de como era possível fazer poesia e perambular pelas ruas de Paris. Não era poeta, não poderia ser poeta como Baudelaire pôde. Não via Baudelaire nas poesias de Baudelaire, sentia nelas muitas coisas, mas não via a pessoa por trás da poesia. Havia o poeta e, é claro, havia o espaço, o tempo e os sentimentos: havia a vida moderna. Talvez não fosse um bom leitor, quem sabe estivesse buscando na poesia mais do que ela pode dar. Queria porque queria a promessa cumprida.
É comum em tais situações, dizia o médico à filha que acabara de entrar no quarto. O paciente achegou as mãos da menina junto ao rosto e - mal podia sentir o cheiro conhecido desde muito tempo, pois a desinfecção do quarto impedia a presença de qualquer odor, exceto o insosso ar da assepsia – afagou-as. Não recorda mais o diálogo travado com o médico. Pensa na infância, no final da infância, quando estivera internado por três dias em uma enfermaria semelhante àquela.
A sensação de que o pior já passou deu aos três rostos um tom amistoso. Na saída, a menina convida o pai a fazer um breve lanche na padaria próxima. Ele não é muito afeito a refeições vespertinas, mas deve estar faminto.

Sobre a obra

Uma cena do cotidiano, um quase acidente.

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