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700 metros para baixo

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Ja Fagundes · Porto Alegre, RS
10/9/2010 · 0 · 0
 

A notícia na imprensa me deixa vulnerável e a perplexidade me ofusca o entendimento. Tento inutilmente calcular uma distância de 7oo metros. A que altura já estive e me dei conta da distância em que me encontrava do solo? Não acomodada na poltrona de um avião, nada disso. Mas posicionada, eu e meu corpo, a 700 metros acima do nível do mar, por exemplo. Vivi uma que outra experiência dessas. Lembro de uma em particular. Foi quando conheci a Serra do Rio do Rastro. Lá de cima, a 1400 metros do nível do mar, eu descortinava maravilhada a praia de Laguna.
Minha tentativa, levada pela comoção e pelo medo, é como uma fuga da realidade. Minha matemática está errada. Não se trata de 700 metros para cima, a questão não é a altura, mas a profundidade. Os operários chilenos estão a 700 metros para baixo, soterrados na mina de San José, no deserto de Atacama. Estão lá há pelo menos 30 dias e não permanecerão por um par de horas descortinando a paisagem e almoçando num bom restaurante, mas por 3 ou 4 meses; significa que viverão o inferno presos no interior da montanha por 120 dias, se tudo der certo. Se o abrigo onde se encontram não sofrer abalos, se não forem acometidos por doenças nem físicas nem emocionais ao extremo, se o resgate acontecer de forma humanamente responsável e eficaz, se...
Se tudo der certo, os trinta e três mineiros passarão, um de cada vez e ao cabo de 120 dias, por um canal de 66 centímetros de largura que vem sendo perfurado no local. Desta vez a informação me embaralha a mente a ponto de emburrecimento: 66 centímetros pode ser o comprimento do canteiro no meu terraço onde plantei sementeiras? Ou talvez seja o diâmetro daquela piscina para bebês que achei uma gracinha na loja do shopping? Céus, como o corpo avantajado de um homem, o corpo de um mineiro, passar por um canal de 66 centímetros de diâmetro na extensão de 700 metros? Como?
Tenho buscado palavras, além de números, que me ajudem a dimensionar essa estranha realidade. Clausura é uma delas, e ainda silêncio, paciência, fé, esperança, força, impotência, energia, humildade, coragem, tolerância e união, principalmente, serão palavras de ordem para os 33 homens nestes 120 dias de confinamento.
O Brasil acompanha anualmente o reality show dos Big Brother; também para aqueles jovens serviriam as mesmas palavras de ordem. Há toda uma exposição de seus pequenos sonhos, reais ou inventados; há todo um cenário propício a discórdias, insultos e disputas acirradas. Porém a casa onde os participantes ficam instalados oferece total segurança e há um pequeno exército de coadjuvantes que permanecem fora de cena, incumbidos de garantir as regras pré-estabelecidas para a realização do programa nacional de maior audiência.
Os 33 mineiros no deserto de Atacama, no Chile, apresentam ao mundo seu drama, pungente e doloroso. O pequeno exército formado pelos operários chilenos que perfuram o solo diuturnamente para abrir passagem aos soterrados, ou lhes enviam alimentação e água pelos canos de comunicação, ou entram em contato, são os coadjuvantes deste reality drama.
Para nós, brasileiros, distantes pelo espacial, mas próximos pela solidariedade, resta a torcida, receptáculo de energia ou de oração. Que, diferentemente dos realitys shows, nenhum dos homens soterrados necessite enfrentar um “paredão” e ser “eliminado”, ao contrário, que todos os 33 enfrentem com sucesso a passagem pelos 66 centímetros de diâmetro na extensão de 700 metros, sim, desta vez para cima, de retorno à vida.

Sobre a obra

A crônica 700 metros para baixo, traz a visão perplexa da autora para a cena dantesca dos 33 mineiros soterrados no interior da montanha no deserto de Atacama. Em contrapartida aos reality shows televisivos, os 33 homens descortinam um reality drama.

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informações

Autoria
Jacira Fagundes
Ficha técnica
Crônica
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