um dia na vida de um EDUCADOR QUE, dinossauricamente, AINDA ACREDITA NESSES ARCAICOS MECANISMOS –e talvez únicos e menos ineficazes- DATADOS DO SÉC. XIX: AS MANIFESTAÇÕES E AS ARTES
“Participei no último mês da passeata em comemoração dos 17 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Muitas foram as reflexões e sensações que aquele momento se suscitou:
1º não é muito comum ver tanta criança junta no meio da rua . Estamos acostumados a acompanhar manifestações estudantis, gritos dos excluídos, Parada da diversidade sexual ou até mesmo procissões, mas aqueles “pingos de gente”. De qualquer forma estes instrumentos de protestos parecem bem acomodados no imaginário coletivo como uma prática adulta.
2º Porque ali não estava “toda” a infância ou pelo menos não estava a infância que estamos acostumados a ver nos comerciais e programas de TV em geral. Ali estava a maior parte da infância brasileira: a pobre.
Naquelas poucas horas de caminhada refleti sobre o quanto o significado pejorativo do termo “menor” ainda é forte na nossa cultura. Inclusive dentro de Nós “peritos” e “disciplinadores de corpos e subjetividades” (para usar os termos de Michael Foucault). Durante a passeata me esforcei para ver crianças e adolescentes mas o que vi foram rostos sem nome comandados por seus “educadores”. Se a manifestação tivesse sido apenas aquela coisa excêntrica, limpinha e sem contradições o dia teria terminado sem nenhum sentido.
Contudo, o melhor estava por vir. O espírito protagonista ascenderia no momento pós-passeata, nas apresentações artistico-culturais. Não, não pensem que eu estou querendo colocar panos quentes para terminar o texto de forma bela e com uma mensagem de esperança. Para isso já existe a Globo e todo seu elenco dizendo que “na vida é tão bom ter amigo”! Passando looooooonge da política, dos conflitos, das relações de poder. Ou seja, passando longe da Realidade. Enfim, naquele momento pós-passeata foi possível ver os tais “sujeitos de direito em situação peculiar de desenvolvimento” atribuindo significado genuíno a sua ação e sendo “eles mesmo”. Ali eles não eram uma massa conduzida. Eram protagonistas.
Protagonistas até no desfecho da festa, quando duas pré-adolescentes (com toda a petulância que é típica delas/es quando estão nesta idade, deveriam ter uns 11 anos no máximo) se atracaram e esmurraram e gritaram e caíram em cima do sistema de som acabando com a festa. Para lembrar-nos, democráticos educadores, peritos da verdade, que não somos detentores de suas subjetividades.
Viva as passeatas!
Viva a arte!
Viva o ímpeto infanto-juvenil!
Viva os 17 anos do ECA!
Viva as manifestações e a participação popular! Não se pode deixar que desde cedo aprendamos que fazer protesto é arruaça! As ruas são nossas, talvez um dos últimos locais "públicos" das cidades sejam as ruas e precisamos tomá-las.
Viva o ECA. Que ele seja realmente respeitado um dia, porque hoje ele é uma grande ilusão, num país onde milhares de crianças são descobertas todos os anos sendo escravisadas, ou com seus direitos à educação, saúde e lazer violados.
Parabéns. Você teria fotos dessa passeata?
Abraço,
Lauro.
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