A imortalidade em camadas planetárias - Promethea

J.H. Williams III
1
Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ
27/4/2010 · 2 · 0
 

* Promethea: perspectivas sobre a personagem, seu roteiro e fontes de inspiração

(texto em "História, imagem e narrativas")

Foi sob um clima de expectativa e incertezas quanto ao futuro que foi elaborada a série Promethea, do muitas vezes premiado roteirista Alan Moore e de um dos mais talentosos artistas de quadrinhos da atualidade, John H. Williams III. Seu lançamento foi quase concomitante ao do filme Matrix (1999), dos irmãos Wachowski. Ambas as obras, cada qual à sua maneira, tratam, em parte, de suposições acerca da criação de “realidades†através de códigos escritos e visuais. Em Matrix, os códigos computadorizados representam pessoas, cidades, comportamentos, circunstâncias. Em Promethea, os códigos são as narrativas que se mantêm numa dimensão imaginária que é acessada de tempos em tempos por pessoas muito criativas que terminam por trazer ao mundo esses aspectos e o transformam de algum modo.

Igualmente, os códigos imaginários referenciados pelos autores da série remetem a mitos em torno da criação do universo (mitos cosmogônicos), em crenças que têm como matrizes temas oriundos do neoplatonismo, do gnosticismo e do hermetismo renascentista, apropriados por
estudiosos de ocultismo do século XIX. Moore e Williams enveredam por um sincretismo simbólico, sobretudo através de concepções esotéricas em torno da Alquimia, da Cabalá, do Tarot e da Astrologia, cujos símbolos e correlações são representadas visualmente na série com recursos estéticos capazes de comunicar com originalidade as analogias com os mundos intangíveis e surreais descritos na narrativa.

Naquela série em quadrinhos os autores fazem uso de um recorrente arcaísmo, o
hermetismo, em meio a expectativas quanto problemas de ordem mundial, expectativas estas suscitadas por crenças difundidas na mídia acerca de eventos catastróficos na virada do milênio. Entretanto, vale ressaltar, milenarismo e hermetismo não são a mesma coisa. Qual seria, naquele contexto, a relação entre ambos? Para compreendê-lo primeiramente deve-se
considerar um outro sincretismo, aquele que Edgar Morin assevera ser um dos padrões das
obras da “Cultura de Massasâ€. Esta mescla diversos elementos originais em seus processos elementares de vulgarização (simplificação, maniqueização, modernização e atualização) daquilo que lhe chega da cultura popular e erudita, bem como de suas
matrizes, segundo aquele pesquisador. Ao fazê-lo, as menções a forças provindas de um
mundo transcendente, oculto a olhos “não-iniciadosâ€, porém em eterno devir, estariam intimamente ligadas. Hierarquicamente formado, esse mundo suprafísico agiria sobre a
matéria, o que faria haver uma razão divina para os grandes e pequenos acontecimentos.
Disso decorreria o vínculo entre o interesse no hermetismo e as várias linguagens correlatas(Alquimia, Astrologia etc.) e as atenções sobre a virada do milênio, sempre lembrando da
figura de Nostradamus e de suas famosas centúrias, entre elas a de número 72, que fala sobre o ano de 1999 e suas interpretações catastróficas. O lançamento de uma produção como aquela HQ jamais seria desconexo de sua historicidade e das expectativas do imaginário
vigente, ainda que seus autores assim o desejassem.
Moore é autor de outras séries de sucesso, algumas delas transformadas em obras
cinematográficas como “V de Vingançaâ€, “Liga Extraordinária†e “Watchmenâ€. Tal como em
seus demais roteiros, ele impôs em Promethea um de seus principais diferenciais: um final previsto. A maioria das histórias em quadrinhos de personagens fixos e outras produções midiáticas como séries televisivas são mantidas indefinidamente. À medida que continuam
dando lucro e estimulando a demanda dos consumidores destes gêneros, elas seguem sendo publicadas. O modus operandi de Moore difere substancialmente das demais produções do gênero, que recriam situações típicas e contextos repetitivos à exaustão.
Sua personagem tem como base visões pertencentes a organizações iniciáticas e entre suas inspirações encontram-se os já referidos arcanos do Tarot, que constituem grande parte da estrutura da HQ. Mais especificamente o deck de Tarot (“Tarot de Tothâ€) pintado por Frieda Harris (1877-1962), entre 1938 e 1945, sob a supervisão de Aleister Crowley (1875-
1947), mago britânico que fundou e participou de organizações iniciáticas como a Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis (O.T.O.). O roteiro privilegia o modelo de distribuição dos arcanos maiores daquele deck no diagrama conhecido como “Ãrvore da Vidaâ€16 segundo as premissas de seu supervisor, Crowley17. Este último ficou conhecido do público não-esotérico
pelo fato de que Jimmy Page, guitarrista do conjunto Led Zeppelin residira entre os anos 1970 e 1980 no castelo que lhe pertenceu. Igualmente, o roqueiro Raul Seixas, nos anos 1970, com
a filosofia da “Sociedade Alternativaâ€, baseava-se na lei de Thelema: “Faze o que tu queres, pois há de ser tudo da leiâ€, proclamada por Crowley. Por fim, outro roqueiro, Ozzy Osbourne,
lançou a música “Mr Crowleyâ€, em seu álbum “Blizzard of Ozzâ€, em 20 de setembro de 1980,no Reino Unido, tornando o nome corrente entre os consumidores de rock pesado.

Moore, o roteirista, focaliza a figura e o pensamento de Crowley mais em função das
pesquisas históricas que alicerçam as tramas que veio compondo desde os anos 1990 do que referindo-se unicamente à popularidade do nome do mago entre fãs de música. Os autores, no entanto, fazem uso de variados recursos intertextuais e intericônicos na construção da
personagem, recursos estes que pertencem ao repertório semântico e estético presente em
contos de fada, lendas de diversas culturas, quadrinhos ocidentais, séries televisivas e obras cinematográficas do século XX.

Promethea é, talvez, um de seus trabalhos mais notáveis ao lançar luz sobre a ausência
ou excesso de referenciais das sociedades de consumo e ao surgir com a temática do
hermetismo naquele período de expectativas e intensificação de um discurso pós-moderno,
com a convivência do arcaico e do futurista no mesmo espaço e narrativa. Os autores expressam a dialética entre o conhecimento científico e o pensamento mágico-mítico
que se mantém permeando as sociedades do Ocidente, discussão esta que se fez
presente com grande intensidade na mídia, nas produções artístico-culturais, justamente no período que compreende a publicação de toda a série.

Resta, então, falar sobre os elementos que compõem a trama e o perfil de sua
protagonista: Sophie Bangs, jovem estudante de literatura faz pesquisa sobre, “Prometheaâ€, uma figura literária que surge de tempos em tempos a partir de autores diferentes, em relatos,contos, quadrinhos antigos etc. Ela acessa a dimensão imaginária em que habita a personagem
e passa a manifestá-la no mundo físico. Sendo, como dito anteriormente, uma expressão dos deuses da comunicação e da escrita, a personagem viaja por níveis diferentes de realidade, tal
qual deuses com aqueles atributos o fazem em diferentes panteões, sobretudo Hermes. Esses níveis de realidade correspondem a uma idéia multifacetada de divindade, expressão ecumênica que admite modelos pagãos europeus, budismo, hinduísmo etc., e uma visão da condição humana sob a mística judaico-cristã, os arcanos do Tarot e símbolos astrológicos.

Na HQ, Sophie/Promethea alcança essa unidade divina e, ao final, promove o Apocalipse e a libertação da humanidade de maneira muito peculiar às crenças de Alan Moore20. Além de tudo isso, promove a idéia de que a realidade pode ser criada também pela escrita/código e pela imaginação, como já visto na menção a Matrix.

Tudo ocorre simultaneamente a situações mundanas, numa Nova Iorque imaginária de
1999 em que a tecnologia é muito mais avançada do que a realmente existente naquele fim do século. Os super-seres do universo de Promethea, conhecidos nas publicações tradicionais como super-heróis ou super-vilões, são denominados science heroes, algo como “heróis da ciência†ou “heróis científicos†. A troca seria, na verdade, de “super†para “ciênciaâ€, num jogo de palavras alusivo ao fato de que desde o advento do primeiro super-ser dos quadrinhos, o Superman (1938), é a noção de ciência que está na base da criação de um sem-número de
personagens com capacidades sobre-humanas. Desde as viagens interplanetárias e visitas
apocalípticas de ET’s de civilizações altamente desenvolvidas21, até cientistas loucos que por acidente geram poderes telecinéticos, raios óticos e coisas parecidas, a idéia central por trás
dos “súperes†é quase sempre a científica, com exceções para alguns heróis criados pela
magia, como Capitão Marvel e Mulher Maravilha (DC Comics). Mesmo assim, a maioria dos superes mais famosos é “científicaâ€, apesar de uma grande quantidade de personagens mágicos, que não raro atua como coadjuvante ou em publicações de menor procura.

O texto completo (39 páginas) encontra-se em "História, imagem e narrativas"
Lá, acesse este e outros textos sobre quadrinhos, arte e literatura em análises de pesquisadores de diversos campos.
Abraços,
Carlos Hollanda

Sobre a obra

Lançada no final do século XX, a série de quadrinhos “Prometheaâ€, de Alan Moore, sintetiza em suas representações visuais um grande conjunto de símbolos do imaginário ocidental a respeito da relação mundano-sagrado. Este estudo percorre algumas de suas bases míticas, associadas ao hermetismo, ao gnosticismo, à astrologia, à cabalá e ao tarot sob o forte sincretismo e influência de movimentos das matrizes judaico-cristãs do Ocidente em várias épocas, condensados nas páginas da personagem. Aqui são também estabelecidas as relações entre esse sincretismo e importantes concepções de cosmo em períodos pré-copernicanos, além de noções mítico-religiosas que permanecem em muitas sociedades contemporâneas em torno do sagrado feminino.

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Carlos Hollanda
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