Toda tarde, entre quatro e quatro e quinze, a esperávamos.
Sempre um grupo de vinte garotos em media, todos moradores locais.
Alguns quilômetros antes, o maquinista puxava a pequena corrente de metal da buzina a ar e o trem soltava um enorme urro, anunciando estar próximo.
Dali alguns minutos o grande dragão aparecia numa curva a direita, um enorme cargueiro da cor do ferro, carregado de matéria-prima. Ia rumo ao grande porto.
Nesta altura diminuía a velocidade devido ao pequeno aclive da estrada férrea.
Era neste ponto que começávamos a correr ao seu lado, em uma estreita e longa rua de terra ensaibrada, paralela à suas linhas.
Corríamos descalços por uns dois quilômetros, após esta distancia o aclive acabava, o grande dragão pegava velocidade novamente e desaparecia, serpenteando pelas colinas arborizadas, entre as lufadas da chaminé e o ecoar de suas rodas comendo os trilhos.
Deixava no lugar apenas um gostoso odor de óleo cru queimado, expelido do escapamento de sua maquina.
Inexplicavelmente, um dia, o velho maquinista não apareceu, sendo a velha locomotiva ocupada por um novo operador. Este, dado ao desdem, nunca percebera a molecada a correr.
Ele também nunca abrira o ar para a velha e poderosa buzina.
De nosso lado um pouco nos entristeceu o fato acontecido, o novo maquinista operava a velha senhora sem nenhuma alma.
Muito mais nos entristeceu, o dia em que arrancaram os velhos trilhos e em seu lugar construíram uma rodovia.
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