A VIDA PRA JOGAR FORA

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gilbert daniel · Internacional , WW
17/12/2013 · 0 · 0
 

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Algo que faça a minha garganta arder, acordar os mortos e enterrar as ilusões alienígenas.

Estou aqui, rodeado de livros e me fudendo cada vez mais. Cambaleando com uma garrafa na mão. E sozinho.

Eu nunca consegui me matar. Virei um bunda-mole. E não tenho amigos.

A merda dos quinze anos. O fiasco aos trinta. E, aos cinqüenta, uma corda apertada no pescoço.

Transformaram Auschwitz em um parque temático. Suásticas douradas e shows da Ivete Sangalo.
Ou do Chico Buarque.

Não entra na minha cabeça. Como alguém pode se derreter diante de uma criança. Fiz vasectomia aos dezesseis anos e abortei qualquer possibilidade ilusória de esperança. Quem não tem vida precisa mesmo de uma renca de filhos para dar sentido a sua bosta mental.
Como eu gostaria de andar despreocupado, sem me aborrecer com a banalidade. Achando o máximo os gols da rodada e as eliminações do Big-Brocha. Ou ter muito que exclamar com entusiasmo sobre a doçura de um recém-nascido. E comentar com gozo os bailes de formatura da família. Uma conversa arrastada. Sobre as empregadas que não limpam, lavam ou cozinham direito. As negrinhas sacanas que passam Bombril até no cu dos periquitos. Conversas arrastadas. As que animam os almoços de domingo. Merda!
Não entendo todo o alvoroço em torno dessas coisas mortas. Perco o fio da meada logo nas primeiras palavras ou anedotas familiares, os diálogos não tardam em me entediar. E caio em um sono acordado, um desinteresse, uma anticuriosidade fatal e irremediável.
Qualquer comoção nacional me provoca uma falta de chão. Eu não comungo com ninguém nenhum espanto ou entusiasmo. Afasto-me e me isolo.
Como viver sem a constatação para mim irrefutável de que sempre é final de festa? E que, outra vez, não consegui dançar com Jussara Sweetheart?

Não me aborreçam. Não, pelo amor de Deus. Rodriga cismou de me contar sua vida em 1968. O pai e a família que a abandonaram, seus dias em Curitiba e o retorno à Belo Horizonte. Não quis saber dos detalhes. Não quero me aborrecer. Já bastam os meus deslocamentos diante da TV. Faustão e Casas Bahia. As finais do Brasileirão. E a fatalidade perturbadora dos vendedores da TV Polishop, os Shoptime’s da vida, dos condomínios imperdíveis. Dos televisores de última geração. Não preciso de nada disso. Tampouco me interessa a carnificina das pequenas ou grandes tragédias. Ou as convenções familiares. Detesto todas as solenidades. Ou formalidades. Não suporto festas ou formaturas. Mesmo um simples aniversário de criança pode me matar, um tédio furioso. Sou afastado. Olho o vazio e encho a cara.
Foi sempre assim, olhando o vazio e me sentindo sem chão, sem comunhão com nada. E outra vez enchendo a cara.
Mal-estar fudido ao assistir novelas da TV ou seriados americanos bacaninhas. Eles me aborrecem, me fazem virar os olhos pro vazio. Não participo da comoção ao meu redor. O entusiasmo incompreensível para mim daqueles que se comovem com recém-nascidos ou mulheres grávidas. Isso me aborrece, mulheres grávidas e recém-nascidos, bebezinhos. As crianças, por que elas não crescem logo e morrem? Também não suporto as grávidas. Sonhei que esfaqueava uma grávida. Igual na cena da banheira do Psicose. Outra eu enforquei dentro do Banco 24 Horas. Deslocamento fudido é ter que engolir a família e suas manias de querer ser classe-média, a loucura pelo dinheiro, o mal-gosto e a conversa mole dessa gente besta e sem vida. Reclamam de futilidades. Do carro que arranhou, do forno microondas que não funciona. Por que eles não vão ler um romance e, quem sabe, descobrir algo além das vitrines da Riachuelo e das promoções das Casas Bahia? Sonham com o carro-zero e a prestação da cobertura bacaninha. Fazer filhos rinocerontes e pagar as mensalidades das escolas particulares etc. Casas de estantes vazias e taras inconfessáveis. O programa dessa gente é juntar a família e ir ao shopping aos sábados à noite. Não querem nada mais do que passear pelas galerias entupidas de gente igualzinha a eles. Não têm outro lugar para ir. O shopping e as compras ordinárias, o cheque-especial e os cartões de crédito (que mentira esse nome, ninguém tem crédito nenhum nesse mundo!). Eu não quero participar desse alvoroço. Pro inferno todos eles.

Que se dane o conforto dessa gente.

Aprendi a desconfiar de qualquer cartão-postal e das ofertas das Casas Bahia. Só desejo uma dose de qualquer uísque vagabundo, a liberdade de falar o que der vontade e, de vez em quando, assassinar alguns babacas que cagam regras e modelos de viver e morrer. Que se fodam junto com suas coberturas, carros novos e pacotões de viagens da CVC Turismo. Eu não quero nem preciso de férias na Bahia e nem em lugar nenhum.
Minha única condição; o alcoolismo. É o que sei fazer e mais nada. Não espero de mim outra coisa além do fundo do copo. Minha família, com o tempo, sacou isso. Só sirvo pra enxugar uma garrafa em uma noite. Assumo todos os riscos. Que se dane a vida.
As piranhas dos meus quinze anos. Vagabundas que não quiseram dar pra mim.

Eu só quero que me esqueçam.

Sobre a obra

CRONICA VADIA

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Autoria
Gilbert Daniel
Ficha técnica
crônica vadia
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