Amor resolvo agora

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Rotaleatoria · Cascavel, PR
5/4/2015 · 1 · 0
 

RENATO ESTAVA SENTADO em frente ao aparelho
de televisão e nem chegou a perceber que já era de madrugada e a emissora já havia encerrado sua
programação. Na tela, apenas uma profusão monótona de chuviscos.

Certa vez, Tânia havia ido embora para a casa
da mãe e levara três bolsas, duas com roupas e calçados e outra cheia de cremes, shampoos, desodorantes, perfumes, batons... O banheiro ficara um deserto. Três dias depois, Renato fora buscá-la, prometera não chegar mais tarde, reduzir as saídas de casa e ser mais atencioso
com as coisas ligadas ao relacionamento dos dois, até anotara em uma agenda o dia do aniversário de Tânia e de seu casamento. Naquela vez, Tânia voltara.

Desta vez, Renato tinha certeza que ela não iria
voltar. Tânia resolvera morar com uma irmã que fazia faculdade em uma cidade do interior. Saiu de casa levando caixas, livros, CDs, disquetes, fotografias e muitas bolsas e praticamente todas as roupas, sapatos, cosméticos e bijuterias.

Uma amiga de Tânia havia flagrado Renato
saindo de um motel com uma menina que, se não tinha idade para ser a filha dele, tinha idade para ser filha de seu irmão mais velho. A amiga de Tânia acertara na mosca. Renato confessou que estava no motel com Paulinha, sua sobrinha.
Tânia não perdoava aquela traição. Paulinha
frequentava sua casa, era uma menina e tinha apenas dezesseis anos, Renato tinha trinta e dois. Você é um tremendo safado! Safada é a Paulinha, ficava me provocando. Pô, eu sou homem. Mulher não entende que transa de homem não tem nenhum sentimento. Foi só uma sacanagenzinha, coisa à toa, sem importância.
Eu nem me dei conta da besteira que eu estava fazendo.

Você sabe como é, na hora a gente nem pensa.
O diabo é que Renato amava Tânia. Ele pensava
nela, sentia falta dela, queria ter filhos com ela. Eles eram casados há três anos e não era justo todos os seus planos de ser um pai de família desmoronarem assim, por causa de uma besteira qualquer.

Renato aterrissou no sofá novamente, desligou a
TV, coçou os olhos que ardiam, olhou o relógio. Já são três e meia e não estou com sono, dormi a tarde inteira. Folhou uma revista, um jornal de domingo. Páginas Policiais, Esportes, Horóscopo, Classificados, anúncios de massagens, acompanhantes, detetive particular, Oração de Santo Expedito e um anúncio que, em especial, que chamou a sua atenção: “Amor Resolvo Agora. Trago seu amor de volta em poucos dias. Pagamento do trabalho somente após o resultado”. Será que esse negócio funciona mesmo? Nunca acreditei nessas bobagens. Mas, também, o que que eu tenho a perder? Só pago se tiver a Tânia de volta mesmo.

No outro dia, Renato encontrou Armando. Sujeito
estranho aquele, nem tirou os óculos escuros. Armando ouviu toda história, fez anotações, levou fotos, número de telefone, endereços... Será que o sujeito iria até onde a Tânia estava para fazer um trabalho? Sei lá, pode ser que assim, de perto, o efeito fosse mais garantido.

Três dias depois, Renato atendeu o telefone, era
Armando às onze e meia da noite. Tânia está comigo! O quê? Com você? Aonde ela está? Assim, tão rápido? Ela está comigo aqui no carro, em frente ao seu prédio.

Renato desceu os cinco andares pela escada mesmo, não tinha tempo para esperar pelo elevador. O coração queria sair pela boca, mal podia acreditar que Tânia estava mesmo de volta. Tânia provara que era mesmo uma mulher fantástica. Ela tinha entendido a sua fraqueza, aquele momento de bobeira. Mas, no fundo, aquilo era justo, ele sabia que merecia outra chance.

Puxa, Armando, onde ela está? Armando dirigiu-se
para a parte posterior do carro, olhou ao redor, a rua estava deserta. Ele abriu o porta-malas e mostrou um corpo imóvel e sem vida, enrolado em um plástico preto. Afastou uma ponta do plástico e iluminou um rosto de mulher com uma lanterna. É ela mesmo, não é?

Renato não respondeu.

Sobre a obra

Conto, história ficcional onde o inesperado e o imponderável fazem parte da trama cafajestamente alinhavada.

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informações

Autoria
Carlos Alberto Coelho,
Ficha técnica
Conto, publicado em Testemunha Ocular, Ed. Confraria Terra dos Poetas, 2012.
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