Anjo do Armagedon

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Jurandir Araguaia Leite · Goiânia, GO
3/1/2007 · 19 · 1
 

Anjo do Armagedon

Dizem não haver mais bondade no mundo. Estou em dúvida se concordo com este axioma. Chegam-me notas que comprovam uma ou outra tese. Como aportam as que atestam existir o lado bom, felizmente, só irei desacreditar absolutamente da humanidade quando nunca mais ouvir nada positivo a respeito do homem. Se eu fosse o piloto do Armagedon, com meu dedo pronto para acionar a tecla que destruiria o mundo, o caso do seu José seria um bom motivo para tanto.

Homem aposentado. Alquebrado na casa dos mais de 70 anos; ele carregava todo um passado de decepções, desventuras e infelicidades. No entanto, por entre os inúmeros dentes que lhe faltavam na arcada, sabia sorrir. Tinha sempre uma história boa a contar. Andava pela vizinhança fazendo amigos, distribuindo e procurando captar atenções. Os poucos trocados que recebia do instituto de previdência acudiam-no e aos membros da família: uma filha e dois netos, que nasceram por acaso, em um descuido perante noturnas baladas. Pais? Quem precisa deles? Seriam outros a sustentar. José era arrimo de família. Não reclamava nunca. Aceitava tudo o que o destino lhe dava. Talvez tivesse pacto com Deus, se verdade, não se sabe; mas que o demônio o testava, isso sim fazia com persistência.

José voltava do mercado distante. Era uma loja grande que na noite anterior, no horário hipnótico da novela alienante, febrilmente devorada pela comunidade nacional, anunciara uma oferta irresistível. Os trocados precisavam ser muito bem aproveitados. Tempo de aposentado era para isso mesmo. Foi logo cedo. Os da sua idade não pagam passagem de ônibus naquela localidade: uma espécie de pedido de perdão da sociedade pelos maus tratos. Muito bem aceito por sinal; presente não se recusa facilmente.

Ele comprou o que pôde pagar. Carregava sozinho o peso absurdo, sem alma complacente a ajudar. Chegou ao ponto de parada do coletivo exausto. Suava. Corpo esquálido com coração disparado. Sol a pino. Nem uma nuvem seu anjo da guarda providenciou para cobrir-lhe a façanha. O veículo chega. Muitos volumes, deveria descarregá-los na porta traseira, assim o fez auxiliado por um jovem, alma bondosa, que com um sorriso afirmava:

- Deixe que eu carregue. O senhor vai pela frente, vou pôr tudo ali no fundo.
- Obrigado meu filho. Ele foi pela porta frontal, satisfeito pelo auxílio inesperado. Procurou o jovem e as sacolas. Nada encontrou. Sentou-se desolado, abatido, vencido pela vida. Sua fé na humanidade extinguiu-se por completo. A minha vacila como o pêndulo de um relógio. Ainda não sei se aperto a tecla da extinção.


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informações

Autoria
Jurandir Araguaia é escritor goiano, contista e cronista, proseando sobre o cotidiano, com incursões pelo imaginário, sempre buscando, com ironia, retratar as venturas e desventuras do Universo Humano. Auditor Fiscal pelo estado de Goiás, reiniciou suas atividades no corrente ano e publica regularmente seus textos no site: http://www.jurandiraraguaia.com.
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Marcos André Carvalho Lins
 

rapaz, você é bom!!belo conto, bela reflexão!!
(mas não aperte ainda o botão da extinção não, o homem é bom, eu juro...)
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 4/1/2007 15:35
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