Os editores da Harper Collins World Reader (edição de volume único) diligentemente informam que o Enuma Elish chegou ao conhecimento dos modernos devido a seis tábuas de argila que datam de algum tempo no perÃodo excepcionalmente longo do primeiro milênio A.C. A história neles contada, no entanto, foi elaborada provavelmente entre os anos 1500 a 1200 A.C., sendo que alguns dos seus elementos são ainda mais distantes.
As primeiras linhas da tábua um do Enuma Elish descreve o Caos - não o Nada. No Caos tudo existe, porém indiferenciado. Essa falta de diferenciação tem três elementos importantes. O primeiro é a ausência de nomes. A primeira linha do poema diz precisamente Quando os Céus acima não tinham nome. Nem o céu, nem a terra, nem os deuses possuÃam denominações. O segundo é a água. A presença do elemento água nos mitos de indiferenciação é recorrente em várias culturas (lembrar a história de Noé). Na narrativa babilônica as águas estão misturadas com todo o demais e entre si mesmas, as águas do Céu e as da Terra. O terceiro é a presença de uma entidade soberana no Caos, sempre feminina.
No Enuma Elish, antes do mundo (Cosmos), havia o Caos. A enorme serpente Tiamat reinava sobre essa massa indistinta. Alguma coisa tinha que acontecer e aconteceu. O guerreiro Marduk filho do deus Ea desafiou a serpente. Armou-se com o Mau Vento, a Tempestade, o Tornado e quatro cavalos chamados Matador, Impiedoso, e Corredor e Voador e com essa formidável entourage matou Tiamat com uma flecha. Da metade do corpo de Tiamat o herói fez a cobertura do céu e separou as águas do céu daquelas do solo, da saliva da cobra vieram as nuvens, com seu fÃgado foram fixadas as trajetórias da lua e dos demais astros, de sua cabeça porejou a água que formou o Tigre e o Eufrates. As tabuinhas que continham o destino dos homens foram tiradas por Marduk de um aliado da serpente, e Babilônia foi convenientemente proclamada o centro deste mundo recém-criado.
O povo babilônico lia esta narrativa em sua festa de ano novo, a qual afirmava sua superioridade divina e, portanto, não deve ter sido isenta de um efeito de vaidade. O que nos leva ao problema de terror. Mircea Eliade fala do Terror da História, que não é mais que o terror dos fatos. Mas, e se a história em si não existisse? De outro modo, se Marduk não matasse Tiamat? As possibilidades para isso são infinitas: Marduk poderia ter tido medo. Poderia ter caÃdo doente. Marduk poderia ter feito algum acordo com Tiamat, a qual, apesar de cobra, era sua antepassada. Tiamat poderia ter-lhe partido a cabeça com uma faca.
Havia muito mais possibilidades do Caos existir que o mundo, o Cosmos. Nestes muitos casos, eu, você, esse computador, Marilyn Monroe e a Antigona de EurÃpides ainda existirÃamos, mas massa indiferenciada de água e javalis e dialetos samoiedos, tudo sem nome e sem tempo ou por outra, o tempo poderia ser um do elemento na mistura. A possibilidade do Caos existir sempre existiu, e não a conhecerÃamos se tivesse existido. Saber disso é como saber que a ponte que atravessamos ontem caiu no rio vinte minutos depois da nossa passagem - calmante, mas não sem certo efeito de pavor.
O mundo podia não ter existido - bastava Marduk não ter matado Tiamat.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!