Dou apenas dois tragos no ponto e o ônibus chega. Tento apagar o cigarro no chão e botar na carteira de volta. Em vão. Um cigarro inteiro...
SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!
“ Sinceramente. Sabe como eu me sinto ao ser filmado? Indignado por um ato de zelo.”
“Eu ando me filmando a todo instante. Se quiser dizer que todo esse lance de filmar o outro é certo também compreenderei e saberei co-existir numa boa com você”. “Sim, você mesmo. O dono de uma cabeça que chegou a pensar nisso”.
“Mas assim... não leve a mal. Coçar o saco as vezes é inevitável e ai você fica meio assim de meter a mão dentro e coçar. Sabe aquela vontade de coçar que a gente chega a fechar os olhos? Ai, tipo assim, fico meio sem tanta liberdade, entende? Não sei até que limite esse lance de filmar minha cara o tempo todo é bom.”
“Mas você promete mostrar por que presta não é? Se alguém meter a mão no meu pulso e me levar o braço e me deixar sem tempo? Promete mostrar valer essa carinha amarela redonda e sorridente? Promete?”
“Nem o motorista do buzu ri pra mim. Logo ele que está o tempo todo de frente com a cara amarelinha e sorridente. Ele me observa com um ar estranho. Eu fico lendo aquilo de novo sem entender quase nada, disperso, pensando sobre o porquê dele estar olhando pra mim. Mas entender mais o quê meu filho? A frase? Não, eu acho que isso você já entendeu. E o que falta? A certeza completa.”
Vou até o cobrador, tiro meu passe, e ele me diz:-bom dia. Mete o passe no caixa como se estivesse dando um soco no sol que o tirou da cama.
“Precisa dizer realmente bom dia? Bom dia o meu caralho que coça e que eu esfrego com a mão atrás da bolsa pra não ser filmado. Outra coisa: educação forçada é cu de heterossexual enojado de vontade em ser arrombado por um peludo escroto.( Talvez eu diga que depois entendi isso que acabo de formular. Tenho quase certeza que não. O que foi que eu quis dizer mesmo?”)
E a carinha amarela... (...)...
“ Prefiro ser bastante claro: tirar minha remela dos olhos encostado na janela, sem precisar justificar pro outro que o dia está muito lindo. Ficar olhando as ruas e as pessoas caminhando passos a frente do ônibus e depois atrás; bocejar ao som da velocidade do ônibus e do vento que asfixia minha cara; e ficar calado. Prefiro encostar-me e deixar a vontade todos que no lugar se façam presente. Se estiverem felizes, não os deixo tristes. Se estiverem tristes não vão ficar indignados como aqui estou.”
“Esqueça meu caro, esqueça. Tudo isso é grilo”.
Fico só na espera em descer do ônibus, acender um cigarro e vê-lo queimar até o fim.
“Os que me dizem bom dia podem não saber, mas muitas vezes fico vendo o sol triste, mas procurando admirá-lo com minha angústia e com o meu silêncio”.
- Faça dessa forma , faça dessa outra. Dizem. Sempre dizem.
“Que nada! Faça como quiser. Mas antes saiba se confortar sem desconfortar o outro que não está obrigado a receber a sua desculpa desumana, pois isso não tem nada de ético. ( É como eu não querer cuspir nos seus pés, humilhando-o ao cuspir perto deles).”
“Eu entendo que são problemas. Eu admito pra mim que são momentos de cada um em seus milhões de sis. Ao mesmo tempo que somos inimigos do mundo com a necessidade de abrir os braços para ele por inteiro, de abraçá-lo e de pô-lo em nossa cama e dormir sentindo serenamente seu segredo; somos seu amigo com vontade de acordá-lo num chute e pedi para ele dormir enquanto buscamos a paz”.
Cigarro. Meu coração e meu peito pedem mais cigarros.
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