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CALAR

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vana severo · Porto Alegre, RS
9/2/2010 · 1 · 0
 

Deixa o cavaco chorar!

Ser humano... Que coisinha mais imbecil e burra!
Estúpido de orgulho.
Infeliz por prepotência.
Ardente para dentro.
Aparente, inconsequente, estupidamente fora de si.
Chora em mente na mente que a mente, mente, cavaco!
Mais uma vez a história de amor dolorosamente desmontado à toa se repete.
Eu disse, mas não disse. Tinhas que adivinhar o que eu disse sem dizer.
Tu disseste o que eu ouvi, mas não ouvi por que nada disseste além de teu olhar sangrento que partiu minha vida em antes e depois. Num eito de estrada estropiada. Estagnação. Marco zero. De novo?
Eu te vi. Juro que vi. Viu onde não tinha nada para ver. Eu me calei. Como pudeste ver?
Vê-se com os sentidos que não temos, mas temos. Com os desvãos. Com os silêncios feitos de gemidos magoados, de telefones desligados. Das frases de amor envergonhadas.
De uns tempos para cá, não sei... Parece que amar ficou feia ação. O medo corta o gesto, quebra a frase poética, fere e amortalha a língua que se encolhe no céu da boca. E nem sequer é no céu da boca do outro. É engolida. Saciada no pensamento. Autofágica.
Expõe teu sentimento. Serás mais fraco por isso? Deixa disso. Mergulha, vai fundo! Que se fodam os avisos, são todos desavisos. Não tranca na mão o carinho, não vela a necessidade acessa. Todos necessitamos ser necessários e necessitamos necessitar.
Geme cavaco nessa crônica cheia de ecos e redundâncias. Tomara mais redundante fosse talvez o cérebro contaminado pela imbecilidade da normalidade anormal da sociedade acordasse de seu dormir fingindo morto, que morto não está.
Se é macho é por que é macho: deve calar e ser o impávido colosso viril. Se é fêmea deve apenas chorar e ser a exemplar docilidade nem um pouco amena, mas agoniando ser no ser tão agoniado.
Fala que falar limpa, lava, destrói o que destruindo estava. Fala que a fala foi feita para ser falada. Não foi feita para ser calada. É bom? É ruim? Que se dane! Põe para fora que o ouvido e não apenas o adivinhado fica muito mais fácil de ser esclarecido pelo ouvido e sai da boca com clareza. Até então, não.
Chora cavaco, que é de chorar mesmo a soberba soberania do ego idiotizado. Rei do pandemônio e da solidão. Das coisas inaudíveis de medo e covardia de mostrar medo e covardia diante do difícil de todo o dia.
Quanto desperdício na calação! Dor jogada fora, esbanjada de alucinação. Mágoa vomitada no sofá da sala enquanto o cavaco chora de aflição, sua voz não é bastante clara quando chorada para um só que ouve chorando no calar da boca.
Tu também és meio burro, cavaco, quando aprenderás a gritar?
No fim da história tudo não passa de um conto de fadas onde mais se queria era:
“E viveram felizes para sempre.”
Então vamos viver felizes para sempre o tempo que podemos ter.
Basta! Não vou calar, eu vou dizer bem alto, gritos no infinito. Grito finito não é grito, é vagido que se perde no infinito não ter. Grito para valer.
- Eu quero te ouvir dizer qualquer coisa porque para coisa qualquer é que somos realmente presentes. A coisa especial, final, bombástica só nos contos de fada onde a Branca de Neve nunca acorda depois de comer a maçã.
O adequado, que normal é anormal demais para sua qualidade, é perder o medo de falar.
Eu preciso precisar de ti e que precises que eu te precise. Precisamos precisar um do outro. E eles precisam que nos precisemos para podermos dar quando precisarem.
Conjugação completa.
Quieto cavaco que agora já falei.

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